Tem dias e dias…

Posted: April 18, 2012 by Natália Almeida in Climbing, Training, Uncategorized
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Desde o dia que começamos a treinar com o Fábio ouvimos várias lições que ele não cansa de repetir a mais comum seria “ …Na escalada tem dias e dias. Em uns você vai chegar cansado e desanimado e ao pegar na agarra tudo isso vai embora e você vai mandar a via super bem, em outros vai chegar na academia super motivado e vai acabar indo embora frustrado por não conseguir mandar nada…”

Sexta-feira foi o dia de sentir na pele isso e eu diria que foi exatamente isso. Enquanto o Ben chegou exausto do trabalho, eu estava super empolgada para fazer o treino, em compensação não mandei nada e o Ben fez tudo com muita facilidade.

Lendo assim deve parecer fácil, afinal de contas ouvimos várias vezes do Fábio que isso aconteceria mas não, tem coisas que não adianta você ouvir para a cabeça assimilar.

Depois de 3 tentativas frustradas de subir vias que eu até tenho dificuldades mas faço a cabeça já estava pesada de tanto tentar entender o que estava acontecendo. Na metade da quarta via travei de novo, e por mais que eu estivesse tentando controlar a frustração eu não conseguia. Fechava meus olhos, respirava fundo e voltava a tentar e a cada segundo que passava as agarras pareciam se afastar e os movimentos mais impossíveis. Aí a frustração ganhou, não conseguia compreender como essa via podia hoje me exigir mais do que em outros dias. Não fazia sentido algum. Fechava os olhos e tentava me concentrar, mas minha cabeça parecia ter um ponto de interrogação gigante que não me deixava acalmar, visualizar, pensar direito… De repente olho em volta e me vejo nesse ginásio gigante, vejo a escaladora da via ao lado me dando dicas e a força já nem existe, nem força muscular nem mental. Minha vontade era de gritar, chutar a parede, arrancar a agarra da parede e jogar longe… Nada disso era possível, por isso acredito que a reação foi o choro. Um choro bravo, pra dentro, de raiva mesmo. Raiva de mim mesmo, raiva de falhar, raiva de não entender e raiva de desistir.

Chegar ao chão nesse estado não foi nada bom, acabei assustando o Ben e o Fábio que entendiam menos ainda o que havia acontecido. Ambos me perguntam se estava tudo bem, e o medo de eu ter me lesionado estava claro no rosto deles.

Falei que chorava de raiva e que estava frustrada.

O Fábio já me lembra que na escalada é assim mesmo, tem dias e dias.

Mas o que eu queria que ele entendesse naquela hora era que a dor desse desgaste psicológico era maior que de qualquer torção.

Enquanto o Ben fazia a sua via, o Fábio me acalmava, tentava entender, tentava me consolar… Para ser sincera acho que eu e ele ainda seguimos tentando entender.

Nos meus dias de treino  acredito ter sido sempre calma e de certa forma racional. Nunca fui de me abalar por conseguir ou não isso ou aquilo. Sempre tentei conseguir enxergar onde posso melhorar e tentar ver os pontos fracos da minha escalada. Na sexta não foi assim, mas agora sei mais um ponto que preciso trabalhar e esse eu sei que vai ser mais difícil de trabalhar do que a falta de confiança na perna dobrada ou em acreditar que alcanço a agarra se esticar bem o corpo… Hoje tento ver que acontecer isso agora foi bom e importante para o que nos espera na Bolívia e em todas as vezes que formos para rocha. Então é isso força na cabeça, confiança, sabedoria e paciência para lidar com as dificuldades.

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