Condições favoráveis para uns e desfavoráveis para outros

Posted: June 17, 2012 by Natália Almeida in Climbing, Hiking, Mountaineering, Photography, Português, Training
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Cada um no seu saco de dormir tentando parar de pensar no que nos espera e dormir. Nas noites anteriores foi possível me ouvir cantarolar enquanto o Ben tentava dormir. Eu com minha energia fora do comum faço isso quando meu marido não tá muito afim de conversar – eu sei que deve ser uma coisa meio irritante, mas não consigo me controlar – nessa noite o que era possível escutar eram mais uma vez gemidos leves. Dessa vez as coisas pareciam melhor para mim. Acordamos às 2am e começamos a nos arrumar. Já pronta comi um pouco de granola com leite, obrigada pelo Ben, demorei um pouco para me encontrar com tantas luvas e casacos e acabei atrasando um pouco. No começo tudo meio familiar já tínhamos feito esse trajeto antes, pelo menos eu, Bem e Kirk. A trilha até o glaciar leva mais ou menos uma 1h30, e é uma caminhada fácil. A noite não ajuda muito por ter muitas pedras e poças mas nada que me derrube. Enquanto ando vou sentindo pontadas no estômago e no começo vou as ignorando. Tento me concentrar nos passos e em seguir a pessoa a minha frente. Com o passar dos tempos as pontada vão ficando mais contínuas e já começo a pensar em abandonar o time enquanto ainda é possível voltar sozinha para o acampamento. Mais uns passos  e definitivamente essa não será a minha noite. Chamo a atenção de todos e comunico a minha retirada. Augusto diz que eu conheo meu corpo então sei o que é melhor. Caleb pergunta se posso ir voltar sozinha respondo que sim mas José diz que nem pensar, pega minha mochila e vai me acompanhando. Pelo caminho vamos conversando o tempo todo. Ao chegar no ponto onde é possível ver o acampamento peço que ele volte para o resto do grupo porque daqui em diante não tenho como me perder. Nos despedimos, e no caminho até a barraca sei que fiz a coisa certa. A dor se transforma em naúseas em com passar dos minutos tudo vai se revoltando dentro de mim. Uma noite recheada de cólicas e vômitos. Pelo jeito minha sorte tinha acabado mesmo e me via nas mesmas condições de Ben, Augusto e Caleb. A dúvida ainda fica se foi melhor ou pior para mim ter que passar por uma noite dessas sozinhas, me cuidei a base de muita água, massagens e compressas improvisadas. O problema de estar sozinha foi pra comer, na nossa barraca só tinhamos biscoitos, chocolates e coisas assim. Durante a tarde não me aguentei e revirei a bolsa de comida do Caleb e peguei um bagel seco e nada gostoso mas que saciou a vontade de comer algo salgado.

As horas ia passando e só conseguia pensar em como eles estavam e quanto tempo ainda faltava para chegarem. Entre um cochilo e outro ouço ao longe um chamado. A voz e o sotaque não tem como se enganar. Augusto e José chegavam felizes. Me perguntavam como eu estava, como foi o dia e tudo mais. Depois que respondi começo a ouvir Augusto contar os pontos altos. A verdade é que ele estava chateado em não termos tido aulas técnicas sobre uso de crampons e que isso poderia ter facilitado as coisas para o Ben porque em um dos momentos teve subida na rocha com os crampons e que ele ficou aflito em ver as dificuldades do Ben, mas foi bom saber que todos conseguiram chegar ao cume. Ele ficou pouco no topo e como estava só ele e o José a descida foi rápida.

Daqui em diante fiquei ansiosa e dando voltas do lado de fora na expectativas dos outros chegarem, do Ben chegar. Um par de horas mais tarde e vejo ao longe os 3 acenando. Visivelmente mais magros mas com um sorriso gigante.

Ben mal chega e se deita na barraca, está exausto. Fica todo empolgado me contando sobre as piores e melhores partes. Mais uma vez diz que o apoio de Kirk e Caleb foi essencial. Conta sobre a parte da subida na rocha e que se não fosse José vir e tirar seu crampons provavelmente teria gastado o triplo do tempo tentando se entender. Me disse que ficou apavorado num momento em que teve que andar numa pequena cresta bem no alto do Pequeño Alpamayo, que olhar para qualquer um dos lados só o fazia se sentir pior, a questão é que esse britânico tem medo de alturas e que naquele momento estava quase tendo um ataque de pânico. Passagem superada, chegada ao cume cansativa. Ele não conseguia parar de pensar que chegou lá mas que ainda tinha que voltar.

Foram 13 horas, +/- 1000 metros de altura, 4 barras de chocolates recheados, 2 litros de água, + de 5000kcal, tudo para isso para conseguir subir a primeira montanha.

Não vou mentir que no meu dia de espera não chorei, chorei sim, tentei lidar com a minha propria frustração. Foi duro pra mim ter que lidar com tudo isso sozinha. Ao final fiquei feliz sim, e orgulhosa de ver que ele conseguiu superar seu corpo e sua cabeça. A minha chance ainda virá, espero não ficar doente por mais dias.

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