Voltar para Casa

Posted: July 1, 2012 by Natália Almeida in Climbing, Mountaineering, Photography, Training
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Ir a Bolívia fazia parte do nosso treinamento físico e mental. E lá vivenciamos dificuldades e enfrentamos condições que no nosso dia-a-dia aqui não seria possível.

Em 28 dias aprendemos a lidar com nosso corpo, ansiedade, convivência, pensamentos… Sentimos frio, medo, dor, fraqueza, tristeza, solidão mas também nos sentimos fortes, confiantes, seguros, espertos e poderosos. Assim é a vida de montanhista, a montanha não te perdoa porque está exausto ou sem forças, a montanha não está ali para te entender, passar a mão na sua cabeça ou relevar. Não, ela está ali para te fazer superar limites, para te fazer se sentir pequeno, para te fazer pensar nas suas prioridades, pra te questionar. E nós fomos a diversas montanhas para experimentar isso.
As expectativas antes de chegar lá eram meio perdidas, não tínhamos base de como seria o esporte e como seria tudo, as informações da internet não ajudavam a criar o cenário. Os primeiros dias em La Paz foram gostosos, sem sintomas relacionados a altitude e o clima era amigável – nem frio, nem calor – pudemos desfrutar dessa cidade bagunçada e cheia de vida. O tempo na capital boliviana foi de surpresa a cada esquina, e o povo se mostrou alegre e festeiro. Antes de começar a empreitada nos Andes, tivemos tempo de experimentar os lados da Bolívia, e eita país pra ter faces. Eu diria que lá é possível encontrar o tipo de turismo que qualquer um gosta: compras, aventura, natureza, sossego, cultural… E as opções são tantas que normalmente você perde um dia tentando escolher qual a melhor. A escolha mais difícil que encontramos foi entre ficar na cidade para ver a maior festa folclórica do País, o Gran Poder, ou descer de bike a Death Road. Para quem nos acompanha sabe que a escolha foi a aventura de descer uma das estradas mais perigosas do mundo. Tenho lembranças eternas desse dia, seja as cicatrizes ou a memória. Muito podem achar que me arrependo, mas não, recomendo que façam. As paisagens são lindas, a experiência maravilhosa e cheia de emoções. Caí, e reconheço que o meu excesso de confiança foi o culpado. Mas esse dia está entre os melhores para mim dessa viagem.
O treinamento pesado começou quando encontramos o pessoal da Alaska Mountain Guide, aí cada dia era de acordar cedo, caminhadas longas, e aprendizado.
Ir aos acampamentos já não era fácil, saíamos cedo, e caminhávamos longas horas, a beleza dos lugares ajudava a distrair o pensamento em relação as mochilas pesadas nas costas. Na hora do hiking, um ajudava o outro, e foram nesses momentos que mais aprendi. Kirk e Augusto sempre atentos a tudo me davam dicas de como respirar e técnicas de caminhada, até mesmo as conversas sobre as experiências anteriores deles aprendemos muito.
Na hora de acampar mais lições: tratar a sua água com iodo, lembrar de estar sempre se movendo para ajudar seu corpo na aclimatação, a importância em se manter hidratado e de se alimentar constantemente, como evitar a condensação dentro da barraca, etc.
Comer certamente foi uma das parte mais complicada, você perde parte do apetite e meio que se força a comer a todo instante. Como ficamos boa parte acampando a alimentação ficou a base de macarrão, arroz, frios e pão, o que não faz da nossa dieta uma coisa ideal. De volta ara casa esse é um ponto que estudaremos melhor aqui e com a ajuda da Dr. Isabela poderemos ser mais criativos e saudáveis. Com a terrível intoxicação alimentar que eu tive boa parte das opções ficaram intragáveis, doces e chás só pioravam as minhas cólicas, e a ânsia em se aventurar e conquistar um pico me deixou um tanto cética em relação a minha saúde, mesmo com diarreia e cólicas por 17 dias, idas ao banheiro contantes e enfrentando as latrinas e os sanitários a céu aberto com neve, vento, chuva e o que mais São Pedro quisesse mandar, eu acreditei que iria conseguir, achava que ia passar rápido. Os dias passaram e eu lutei para conseguir, forcei meu corpo, ignorei a minha mente, e com isso me detonei. O desafio real pra mim foi lidar com a minha cabeça e meu corpo, o trabalho mental era o de ignorar as cólicas e enfrentar as caminhadas.
Ao fim desses dias sinto que sou outra pessoa, aprendi que respeitar meu corpo é essencial; lidar com a dor e a controlar os pensamentos que às vezes parecem uma tortura mental; saber motivar e compreender meu parceiro foram coisas difíceis no começo mas que conseguímos ver e trabalhar juntos.
 Hoje sei que temos muito o que nos preparar e aprender para encarar uma aventura dessas mas tenho certeza que conseguiremos porque agora nos sentimos mais fortes e seguros para encarar os próximos desafios.

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