Relato – Audax 300km

Posted: July 18, 2012 by Paulo Filho in Cycling, Português, Training
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Os altos e baixos do Audax. Foto: Vitor M.

O tempo passou, já consegui digerir toda a informação, e está mais doque na hora de eu contar aqui como foi a prova de 300km que participei.

Recapitulando rapidamente para quem não leu o meu post pré-prova. Audax é uma modalidade  de ciclismo não competitivo onde o objetivo é percorrer longas distâncias de uma maneira totalmente autossuficiente.

Para participar da prova de 300km, é necessário ter feito uma prova de 200km no brasil ou em qualquer parte do mundo, desde que essa prova seja homologada pelo Audax Club Parisien. Eu tinha feito o Audax 200 no final do ano passado. Finalmente tinha chegado a hora de fazer os 300.

Vistoria e entrega do Termo de Responsabilidade.
Foto: Vitor M.

Fui com meu amigo Rafael Taleisnik de carro, na sexta feira pra lá. O Rogério Polo, da organização, sempre convida os inscritos para um jantar de confraternização na noite anterior à prova. Dessa vez seria em uma pizzaria que o pessoal já conhecia e gostava. Acabamos chegando lá meio tarde e o pessoal já estava de saída. Mesmo assim dividimos uma pizza, tomamos algum vinho e depois fomos para o hotel dormir.

O quarto do hotel era bem bom, e como estavam hospedados nele um razoável número de participantes do Audax, eles anteciparam o café da manhã. Como a largada é as 07h00 tomamos um bom café da manhã as 06h00 com muito pão, queijo e suco.
Nos dirigimos à Prefeitura de Holambra, onde aconteceria o Brieffing da prova, a vistoria e a largada.

Manhã de sábado em Holambra. Foto: Vitor M.

No brieffing, o Rogério explicou alguns pontos mais complicados do trajeto. A vistoria acontece para que todos os participantes estejam de acordo com o regulamento, isto é: Todos precisam estar com farol dianteiro branco na bicicleta que provida uma boa iluminação, uma luz traseira vermelha e vestidos com um colete refletivo e capacete. Nesse momento também se entrega aos participantes uma espécie de “passaporte”. Esse passaporte é necessário para que se possa comprovar, através de carimbo que o participante passou em todos os PC’s (Postos de Controle).

A neblina na hora da largada estava muito forte, e o frio não chegava a me incomodar tanto, mas estava ali presente. Foi muito bom eu ter ido com Manguitos, que são apenas mangas compridas que se usa por baixo das mangas curtas da camiseta de ciclismo. Outra coisa que veio a calhar, foi que quando eu fui para a casa do Rafael em São Paulo, esqueci minhas luvas em casa, e ele acabou me emprestando umas de dedo inteiro, as minhas não cobrem as pontas dos dedos.

Comecei pedalando num ritmo bom, algo em volta de 25km/h. Estava me sentindo disposto, com energia, relaxado e feliz. O caminho até o PC1 era de 48,6km, e fiz sem dificuldades. O

Neblina durante o início da prova.
Foto: Vitor M.

Rafael logo depois da largada, percebeu que tinha esquecido os óculos de sol no hotel e voltou para buscar. Cheguei no primeiro PC as 08h53, comi e bebi bastante gatorade, nessa hora a neblina já começava a se dissipar e o sol aparecer. Quando estava pronto para sair, vejo o Rafael chegando, então resolvi esperar ele durante um tempo de forma que seguissemos juntos por um trecho. Estávamos pedalando agora na rodovia Anhanguera e o tráfego de caminhões era intensomas nada que prejudicasse a experiência. Agora eram mais 76km até o próximo PC em Porto Ferreira. O sol já estava quente, o tempo seco, e eu continuava rendendo bem. O trajeto todo até agora, possuia vários postos onde era possível reabastecer as caramanholas com mais água, mas como eu nessas pedaladas longas eu levo duas caramanholas grandes, não senti necessidade de reabastecêlas, conseguia chegar no PC sempre com um restinho de água ainda. Isso mesmo seguindo a máxima “Coma antes de sentir fome, beba antes de sentir sede.” Quando cheguei no PC2 12h43 o sol estava a pino, o calor era muito forte, e resolvi mesmo assim não tirar os manguitos pois esses estavam me protejendo também do sol. Uma queimadura nos braços não ia ser nada confortável, e com o suor e o vento o protetor solar não segurava durante muito tempo e eu não queria ficar parando para passar mais protetor solar. Nesse PC2 conheci o Paulo Piacitelli e o Rosevaldo, dali em diante seguimos mais ou menos juntos. É sempre bom ter alguém pra andar junto, além de mais seguro, é sempre bom ajudar e contar com ajuda no caso de uma necessidade. A altimetria do percurso até então era de muitas subidas e descidas, mas as pernas respondiam e o ritmo era bom.

Estrutura de um PC.
Foto: Vitor M.

Entre o PC2 e o PC3 foi sem dúvida o pior trecho, o calor era intenso, a as subidas não tinham mais fim, eu estava usando um pedivela compacto 50×34, mas o cassete não era o idela para uma prova tão longa, era um 11×23. No caso de pedivela, quanto menor o número de dentes, mais leve é a marcha, e no cassete é o inverso. Muitos dos participantes, usam cassete com o maior pinhão com 32 dentes, é uma bela diferença. Esse trecho era na SP215, canaviais dos dois lados, e por mais que o perfil altimétrico me diga o contrário a minha impressão é que eram 51kms sem descidas, hora pedalando no plano, hora subindo ladeiras sem fim. Pela minha relação pesada, eu subia mais rápido que o Paulo e que o Rosevaldo, mas esses logo me alcançavam nos trechos planos. Nesse trecho só havia também um posto no caminho, resolvi parar para trocar a água por uma mais gelada e acabei também tomando um picolé de limão para dar uma refrescada. Cheguei no PC3 15h58 desgastado pelo sol, mas ainda disposto eram já eram 175km acumulados. Ali comi bastante, tomei bastante água e Gatorade. Fiz uma pausa um pouco mais longa, em torno de 20minutos e seguindo conselhos do Richard Dunner, ciclista muito experiente, saí dali para tentar chegar no PA antes de escurecer.

Anoitecer na estrada. Foto: Paulo Filho

Entre o PC3 e o PC4 seriam 80km, então a organização resolveu fazer um PA entre os dois. A estrutura é basicamente a mesma de um PC, mas não há controle e a parada é facultativa. Resolvemos parar, o Paulo Piacitelli tinha sentido a pressão baixar e resolvemos nos alimetar bem e comer alguma coisa quente e tomar algo diferente de agua e gatorade. Por ali ficamos uns 40minutos, descansamos e partimos. Já eram 223km acumulados, mais do que qualquer pedal que eu já tinha feito, mas estava bem contente com meu desempenho. Com 250km acumulados comecei a sentir dores fortes na parte inferior do joelho direito. As dores eram bastante fortes e comecei a pensar se realmente conseguiria completar a prova. Nessa hora comecei a ficar um pouco para trás, e pedalava sozinho. Pedalar na escuridão também era novidade para mim. Eu usava um farol Cateye bom no guidão da bicicleta, uma outra lanterna presa no capacete e outra de 4 leds pequenos presa no garfo da bicicleta. Mesmo assim, o desempenho na subida já não era o mesmo por conta do cansaço e também não conseguia compensar nas descidas, já que não conseguia ver muito a frente e tinha medo de um buraco ou qualquer outro obstáculo na via. Esses 15km para chegar no PC4 foram dificílimos para mim.

Perfil altimétrico da prova. Mais de 3000m acumulados em 301,5km

Quando cheguei no PC4 eram 22:00 e logo depois de dar meu passaporte para o Daniel Labadia carimbar, avisei este que não prosseguiria, que estava com fortes dores. O Labadia, me aconselhou a tentar, dali para frente eram só mais 34km, e ainda me repetiu a famosa frase de Lance Armstrong “A dor é passageira, o fracasso é eterno”. Nessa hora tirei o celular do bolso e tinha mensagens de amigos me incentivando e uma mensagem também do meu pai “Força para completar”. Meu pai já participou de várias provas de corrida e de algumas maratonas, ele sabe então oque é superar os limites do corpo, e considerei então continuar a prova. Ness hora um outro paricipante, o Ricardo me deu um comprimido para dor, tomei e segui viagem.

Gambiarra que fiz para prender o corta-vento no selim.
Foto: Vitor M.

Apesar de ter saído desse último PC mais uma vez com alguns amigos, logo fiquei para trás. Apesar de já estar vestindo um bom cortavento, nas descidas sentia muito frio. Na estrada, no meio da noite, descendo ladeiras a 50km/h o corpo tremia tanto de frio que dava medo de cair de tanto tremer. Nas restas e subidas joelho doia e as lágrimas escorriam. Eram lágrimas de dor e de felicidade, porque percebi que ia sim completar a prova, não no melhor estado mas ia. O meu psicológico estava bom, na verdade não me faltavam pulmões e nem músculos, oque estragava tudo era o joelho direito, que me castigava, e fazia com que a perna esquerda mais acompanhasse o movimento do pedal do que realmente pedalasse. A perna esquerda fazia 75% do trabalho. Continuei pedalando e quando vi finalmente o moinho que me provava que finalmente tinha chegado em Holambra novamente senti muito alívio, dali foi só mais uma subidinha até a prefeitura. O tempo máximo para completar o Audax 300 era de 20h, fiz em 17h29. Dei meu passaporte para sem carimbado e segui pedalando até o hotel. Lá o Rafael já estava dormindo, ele tinha feito a prova em 15horas mesmo com um queda. Tomei um banho, já era 01h00 da manhã, podia dormir tranquilo, metas compridas. Domingo foi dia de tomar um bom café da manhã e voltar pra São Paulo. Posso estar errado quanto a isso, mas acredito que tenham sido queimadas 17000 calorias em um único dia, e ingerido um bom tanto de outras, a minha lista aproximada doque comi é:

Comida que levei no bolso da camiseta

4 barrinhas de cereal
2 waffles de mel
3 mini paçoquinhas
4 pastilhas de eletrólitos
8 litros de gatorade
2 litros d’agua
1 pão de queijo grande
4 pães de queijo coquetel
1 saquinho de proteina em gel mastigável
1 saquinho pequeno de amendoim japonês
1 sorvete de limão
1 misto quente
1 schwepps
1 dipirona sódica
8 sanduichinhos de bisnaguinha

É incrível o quanto consegui melhorar minha técninca de pedalada em apenas um dia. Durante a prova você se acha na bicicleta, passando as marchas cada vez com mais naturalidade e confiança. Mais uma vez, superei meus limites. A recompensa é pessoal e inexplicável.

As fotos do post são em sua maioria do amigo Vitor M. – Seu trabalho pode ser visto em http://www.vitorm.com.br

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