Ida para Carlisle com a Shap no caminho!

Posted: February 12, 2013 by Natália Almeida in Cycling
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On top of Shap

Deixar Lancaster depois de 2 dias de descanso e diversão já não era fácil, e pensar que o trajeto até Carlisle inicialmente duraria dois dias não ajudava em nada. Tudo bem que o Ben repensou na rota para que fosse possível fazermos na metade do tempo, antes a ideia era passar pelo Lake District passando a noite em Windermere e no segundo dia ir para Carlisle. O Lake District é recheado de subidas mas também de belezas, e passar por lá seria trabalhoso mas compensador, por outro lado o joelho do Paulo merecia um dia a mais de descanso e o Ben merecia um dia a mais com a família e amigos depois de mais de 3 anos se vê-los. A rota seria longa, mais de 100 km de um sobe e desce interminável, o tempo também não estava de muitos amigos: frio, promessa de chuva e bastante vento.

Lancaster - Carlisle - mapSair de Lancaster foi fácil sem muito trânsito e a estrada não estava muito movimentada. Eu ansiava em ver a tão comentada Shap Mountain que pude ouvir o Ben e Franklyn conversarem em uma das noites, parecia que esse seria nosso maior desafio do dia, uma subida longa e um tanto íngreme. E quanto mais perto de Kendall a gente estava pior o tempo ficava. Os ventos inconstantes e rebeldes (de todos os lados) começaram uns quilômetros antes do pé da montanha, quanto mais subíamos pior ficavam. A subida era de +/- 10km e no começo me surpreendeu por ser até bem fácil, sim longa mas pra variar as subidas exigiam muito mais um trabalho mental que corporal. Tenho sempre a sensação que o que me falta é paciência e não força ou resistência. Durante a subida tive a impressão de perceber que o Paulo ainda não estava no seu ritmo normal, mas a essa altura acreditei que seria só um cuidado maior com as articulações.

Os últimos 3 quilômetros ficaram mais íngremes e além de paciência exigia também das pernas. Os ventos aumentavam e muito a dificuldade e por ficarem mudando de direção tínhamos que cuidar para ficarmos no canto esquerdo da pista sem atrapalhar os carros que subiam sem a menor dificuldade. Como um prêmio ou agradecimento, a natureza nos mandou um forte sopro nas costas que praticamente nos colocou no cume da montanha, e nos ajudando no último quilômetro. Lá em cima, filmando e torcendo estava o Ben, na expectativa pela chegada minha e do Paulo.

Eu comemorei, porque se aquilo que todos falavam que seria um desafio não me pareceu a pior coisa do mundo era mais um momento de conquista. Ali, mais uma vez reparei como o meu condicionamento e preparo físico estão em dia. Comemorei, parei, bebi minha água, comi meu block ( cubos de energia) e segui viagem. Ali em cima ficar parado com o vento gelado era ainda pior do que qualquer subida.

Com o pensamento aliviado, e pensando que o pior do dia já havia passado me vejo lutando contra o frio e o vento, as nuvens negras se espalhando pelo céu e a chuva prometida parecia que poderia começar a qualquer instante. Mas a chuva não era só chuva, era granizo, bem pequeno mas massacrador. A sensação daquelas pequenas pedrinhas jogadas na minha face pelo vento forte era de pequenos pedaços de vidro me cortando. O rosto ficava quente o que aumentava a sensação de estar com a pele sangrando. Os óculos protegiam os olhos mas uma hora ou outra algumas pedrinhas acertavam o vão entre o meu rosto e a armação e me obrigava a piscar para voltar a ver melhor. Alguns minutos a frente pude ver o Ben e o Paulo parando e se protegendo atrás de uma casa e isso me deixou bem aliviada. Ao parar com eles e checar se estavam todos bem, reparo que estamos um olhando bem para o rosto do outro buscando as mesmas marcas que tínhamos a sensação de estar nascendo. Mas nenhum corte, ou sangue ou machucado. A pele vermelha, judiada pelo vento e pelo frio parecia ser grossa demais para o granizo cortar. Alguns minutos depois reiniciamos o pedal, não porque a chuva havia parado mas porque não fazia sentido ficarmos ali esperando algo passar sendo que nem sabíamos quanto tempo poderia durar. O jeito foi tentar cobrir o máximo do rosto com o balaclava e torcer para que aquilo acabasse logo.

E uma hora acabou, não sei dizer ao certo quanto tempo ou distância porque foi algo bem difícil de se viver e nesses momentos é complicado reparar o quanto durou.

Weather closing inCom o vento ainda presente mas bem mais ameno seguimos viagem. A meta como sempre era chegar antes de escurecer, mas hoje estava sendo um dia desafiador e já comecei a imaginar que não conseguiríamos estar no hotel cedo. Tentamos manter um ritmo mais apertado e parando só o necessário para comer, ir ao banheiro e tomar um café quente que com esse tempo se faz mais que necessário às vezes.

O sobe e desce continuou mas nada que não pudéssemos administrar. Chegamos no hotel umas 18h30, o que nos fez pedalar apenas uma hora durante a noite. Pedalei a última hora desejando uma coisa simples mas revitalizadora: banheira com sais e água quente.

Ao chegar no quarto do hotel e ver que meu pedido foi atendido foi um presente tão bom quanto o vento no fim da Shap. Agora era hora de relaxar, 35 minutos com os músculos mergulhados numa água quente e relaxante que fez todos os músculos esquecerem do frio, da força e de como o dia seguinte prometia ser ainda mais difícil.

 

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