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A noite não é como o esperado, primeiro acordo com o quarto super quente e seco. Bebo água, e molho uma camiseta e coloco na cabiceira da cama, de nada adianta. Ben também acorda com o mesmo problema, abro a janela. Ele volta a dormir mas pra mim era só o começo do desconforto. Cólicas estomacais voltam e a noite vira um pesadelo. Molho a minha camiseta e coloco a camiseta sobre ela, quem sabe assim quando respiro fica melhor e na verdade deu uma mehorada sim. Algum tempo depois as cólicas se transformam em mais uma vez diarréia. E pronto já não durmo e as seguidas idas ao banheiro acorda o Ben, que fica aflito. Ligamos para Caleb às 8am e pedimos para adiarmos a ida para o dia seguinte, ele diz que tudo bem, vem ao quarto com uma garrafa de água e remédios. O dia foi de descanso, muita água e de comidas leves. Em nossos rostos era possível ver que estamos tentando lidar com a possibilidade de eu ficar aqui, e além disso temos que lidar com a frustração que aumenta ainda mais de eu ainda não ter conseguido ir ao topo de uma montanha. Chorar não é a solução mas é a única coisa que alívia um pouco o coração apertado.

Com o passar dos dias pareço estar um pouco melhor, e voltamos a nos animar. Amanhã será o dia, amanhã saíremos daqui para o acampamento base e eu vou estar bem, vou conseguir, o pensamento segue assim, e na hora de dormir até me atrevo a tomar um remédio para controlar meu intestino. Durmo aflita porque sei que amanhã não posso decepcionar, e peço para meu corpo ser forte pelo menos nos próximos 5 dias.

Acordamos cedo, descemos as malas e fomos tomar um café da manhã. Enquanto o Ben se esbalda com torradas e ovos, eu tento ser o mais leve e neutro possível. 2 Torradas com manteiga, um copo de leite quente e litros e litros de água. José chega e é era de partir, a viagem de La Paz ao povoado de Pinaya é de +/- 4 horas, as condições das estradas são péssimas, a via de terra e pedras soltas é estreita, diversas curvas super-fechadas e encontros sem aviso de carros vindo do outro sentido. O precipício do lado direito aumenta a aflição, Ben chega a suar olhando a queda que fica a poucos centímetros das rodas de nosso carro. Chegar a Pinaya é mais que um alívio. Lá comemos um sanduíche de pasta de amendoim e geleia e fechamos 2 burros para carregar as coisas até o acampamento base.

Começamos a trilha, o lugar é muito bonito, passamos por diversas casas e cholitas puxando ovelhas, por aqui tudo é muito verde e quente. A medida que vamos subindo o calor vai diminuindo e o vento aumentando. Por mais resistente que eu tente ser meu corpo começa a entrar em colapso, o estomago dói e se revira. Mais uma vez é difícil respirar e manter o ritmo. Todos começam a reparar que estou ficando mais lenta e ofegante, e minha cara de desconforto demonstra que algo está me afetando. De início respondo que tudo está bem quando me perguntam, mas a revira-volta no meu estomago me obriga a confessar que não estou 100%. Diminuímos o ritmo mas seguimos em frente, quando a dor piora paro, sento e espero passar. Depois seguimos mais adiante. Começo a ficar brava porque não sei se mais uma vez fiz a escolha certa, minha cabeça segue com diversas questionamentos que a cada minuto penso em respostas diferentes. A todo instante José nos dá uma previsão de quanto tempo ainda falta sempre diz a mesma frase ” A esse passo mais ou menos 2 horas”. A verdade é que essa trilha normalmente leva entre 2 a 3 horas, e nós levamos umas 5 horas.

Ao chegar no acampamento, me deito sobre uma pedra que está no sol e me aqueço um pouco ali. Os outros vão olhar as coisas deixadas ao lado das barracas que já estavam armadas. Ben vem me checar e me chama para ir deitar um pouco.

A tarde e a noite no acampamento base promete ser tensa, enquanto Caleb e José conversam sobre o dia seguinte, eu e Ben estamos aflitos na nossa barraca.

A volta para La Paz foi tranquila, tínhamos 2 austríacos nos acompanhando, os dois também estavam super doentes com problemas intestinais e estomacais, nessas condições não dá pra negar uma carona a ninguém ainda mais que a maioria de nós tínhamos passado por isso. A trilha do acampamento base até o carro é repleta de belezas. Os animais na verdade dão a vida e a cor ao local, llamas por todos os lados seguidas de cholitas carregando seus bebês nas costas. Chegando ao fim da trilha tem uma queda d’água que dá vontade de mergulhar, mas falta coragem porque o frio é de matar. Todos resistem a tomar um banho menos Kirk, mais uma vez se mostrando mais vivaz que os outros, tirou as blusas e jaquetas e mergulhou a cabeça na água, até as moradoras do lugar riam impressionadas da coragem. Eu e o Ben ficamos olhando de longe e chegando a conclusão de sempre: Esse cara é louco!

De volta a trilha, Kirk vem sorrindo e dizendo que já se sente mais limpo e humano, mesmo sem xampú ou sabonete para fazer o banho decente. Ao chegar no carro encontramos Augusto todo empolgado tirando fotos das cholitas, com as cholitas e tudo mais. Ele se impressiona com a beleza das cores de suas roupas, seus dente de ouro e na força que tem em carregar tudo nas costas. Enquanto arrumamos o carro, lá está ele clicando, clicando e clicando.Kirk se junta a trupe e acabam deixando as mulheres super envergonhadas, a vergonha delas dava uma graça singela a toda situação.

No carro de volta o caminho foi tranquilo, alguns cochilaram, outros conversaram e eu estava morrendo de calor. A verdade é que quando se anda nessas estradas você escolhe entre calor ou poeira e nesse dia já dá pra imaginar  o que escolheram.

Chegando ao hotel, todos cansados cada qual pegou suas coisas e de elevador chegaram a seus andares. Pelo jeito a sorte não estava do nosso lado, e ao tentar tomar um banho a água só vinha gelada. Liguei na recepção e me pediram para esperar que mandariam alguém. Meia hora depois ligo novamente e a recepcionista me pede calma e diz que em duas horas teremos. Descemos para encontrar os outros e combinarmos o jantar,  Augusto me oferece seu quarto para uma ducha, na verdade eles estavam trocando de quartos e esse ficaria vago. Não resisto e aproveito a chance. Me sinto bem depois do banho e as energias parecem ter se recarregado. O coitado do Ben recorreu ao banho frio mas ainda estava na expectativa de um outro quente. As horas se passaram e nada da água, um pouco antes de sairmos pra comer um homem veio e começou a bater no tubo de gás, 15 minutos depois disse que em pouco tempo teríamos água quente.

Saímos felizes com a certeza que depois do jantar poderíamos tomar um banho quente e relaxante.

Para o jantar escolhemos um café restaurante aqui na rua sagarnaga chamado Banais, aconchegante e muito bonito a decoração  é bem diferente, saias de cholitas bem coloridas penduradas no teto que é pintado imitando o céu, o chão de vidro no terraço e com diversas máscaras de metal. Impressionante como pode haver lugares assim no meio de barracas e mercados a céu aberto. A comida também foi bem gostosa, e os smoothies uma sensação. Uma coisa curiosa sobre La Paz, ou melhor Bolívia, não se importam frutas, então a seleção é curta mas sempre fresca e natural.

Kirk estava pensando sobre fazer a Death Road no dia seguinte e o ajudamos a decidir que sim. De volta ao hotel, chegou a hora que o Ben mais esperou, o banho quente. Mas parece que fomos enganados e a água seguia congelante. Triste ver que o dia não terminou como planejamos.