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Posing at the beginning of the journey

Posing at the beginning of the journey

As novidades não param nesse ano de 2013, algumas mais excitantes do que outras, e hoje viemos aqui para comunicar algo não muito legal.

Uma parceria iniciada em julho de 2012 e que esperávamos contar até o fim dessa expedição terminou precocemente. Depois de um mês cheio de perrengues, surpresas e muito frio na Grã Bretanha, e de um tempo um tanto dispersos a equipe finalmente sentou para conversar e definir o planejamento,  as prosprecções e o calendário de treinos e eventos deste ano.
Acredito que esse período pós LEJOG serviu para todos avaliarem melhor onde cada um precisa melhorar.
O que não imaginávamos é que essa reavaliação do que o projeto é pra cada um e o que podemos fazer para ele se realizar geraria uma partida.
Paulo Nas Estradas Britânicas

Paulo Nas Estradas Britânicas

O Paulo deixa o projeto depois de 9 meses, o que pode parecer pouco tempo na verdade foi um período importante, acabamos mudando o nosso plano inicial começando os treinos de bike bem antes do esperado, por indicação dele conhecemos o Desafio Bicicletas ao Mar que nos ensinou e ajudou a construir a confiança sobre os pedais, em menos de 1 ano de bike já pedalamos para diversas cidades em torno de São Paulo e conquistamos nossa LEJOG durante o inverno britânico. Certamente toda essa bagagem ciclistíca hoje é fruto dessa parceria.

Uma pena ter que escrever sobre isso, mais um momento que o 360 Extremes vai ter que superar, mas quem sabe em algum trecho da viagem ele não nos acompanha só por acompanhar!
 Desejo para ele sorte, que a sua jornada seja recheada de sucesso, conhecimento e surpresas boas, que a gente se encontre nas estrada desse mundo e nos pedais de finais de semana.
1,480km in cycling through the British winter
1,500km in cycling through the British winter

Hoje aqui posso agradecer aqueles que nos ajudam e que o apoio foi de suma importância nessa mais nova conquista.

Obrigado a Casa de Pedra por estar ao nosso lado desde o começo, onde podemos treinar em uma estrutura completa e nos manter condicionado para qualquer desafio: seja escalada, ciclismo, montanhismo ou corrida. Você nos dá flexibilidade para fazer dessa expedição um  sucesso.

Obrigado Dra. Isabella Alencar por acreditar em nós, por estar sempre atenta a tudo que possa melhorar nossa performance, por nos instruir em cada treino e em cada nova modalidade que entramos e por nos ensinar o valor que uma boa alimentação tem na vida de um atleta. Certamente sem a sua dieta esses 17 dias pedalados teriam sido muito mais cansativos.

Obrigado ao Fabio Jobim  com seus treinos na escalada reforçando e desafiando minha cabeça mais e mais, por trabalhar minha resistência e me deixar pronta para esse desafio!

Obrigado a minha família e amigos que me apoiaram todos os dias. Que o 360 Extremes continue me levando a lugares e experiências que exijam de mim superação.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

Naty e Ben em John O'Groats 

Antes de começar a falar do último dia, queria explicar o motivo da falta de fotos nesse post, a verdade eh que o HD com tudo da viagem quebrou e está em conserto, assim que tivermos tudo vamos colocar as fotos desse e dos outros dias nas galerias.

Foi um tanto difícil controlar a ansiedade pelo último dia. Na verdade eram tantos os sentimentos na manhã que o mais complicado era saber a qual dar uma atenção maior. A essa altura o sentimento de vitória e conquista ia tomando conta da minha cabeça mas ao mesmo tempo eu me podia me ouvir falando ao fundo que a expedição ainda não havia terminado e que por mais que tivéssemos apenas 15km a nossa frente, olhando para trás eu pude ver que não houveram dias fáceis, até nos mais leves houveram grandes desafios e aprendizados. O inverno costumava ser sempre o maior dos opositores nessa batalha por conquistar quilômetros, e mais uma vez ele se provou duro.

O dia anterior tinha sido frio mas não houve ventos fortes ou chuva ou neve, assim a expectativa para o dia seguinte era que poderia piorar mas ainda assim não poderia ser as piores condições. Olhando a previsão mostrava que o dia teria ventos de até 60m/H, mas como sairíamos cedo do hotel e a distância era curta talvez conseguíssemos chegar a John O Groats com um tempo razoável.  Grande engano! Acordamos e no quarto já dava para ouvir o barulho do vento, abrindo a cortina víamos flocos de neve ensandecidos e girando de um lado para outro, os galhos das árvores balançava forte numa dança sem ritmo definido e tudo mostrava que a jornada poderia ser curta mas também a pior em dias.

Arrumar as coisas a essa altura é algo simples e rápido, cada um já sabe o que colocar em cada alforje e o que no começo levava meia hora hoje leva menos de 10 minutos. Comer o café da manhã é sempre bom e um tanto curioso, a essa altura ainda me impressiono com a capacidade do Ben em comer English Breakfast na manhã enquanto eu fico no chá com torradas e cereais. Se eu comesse salsichas, ovos e bacon frito com tomate, cogumelos e feijão pela manhã meu dia seria com dores estomacais e diversas idas ao banheiro, mas com ele não tem problema algum. Certamente um estômago muito mais resistente!

Começar a pedalar foi apreensivo no começo, os ventos podem ser confusos, e por mais que tenham uma direção dominante eles se rebelam e acabam mudando de direção. No começo vinha do lado e para variar a luta era para que a bike ficasse num canto seguro da estrada, que não tinham muito movimento de carros, o que ajudou já que assim poderíamos ficar mais no meio da pista. O vento contra o rosto tornava a experiência dolorosa, e olhar o caminho ficava quase impossível. Era um tanto assustador ver as placas de trânsito e dos vilarejos cobertas por neve, todas congeladas; os gramados brancos e as ovelhas todas juntas tentando se aquecer o quanto podiam. As aves no céu lutavam contra o vento e pareciam perder a cada investida, era possível ver elas tentando voar para um lado e o vento as levando para outro. Cheguei a rir da insistência das pobres aves em ir para onde o vento não as deixava sem me dar conta de que eu estava na mesma situação. Mas como que se dando por vencido o vento que me segurava passa a me empurrar e percebo que depois de tantas curvas a estrada me colocou no sentido certo. Parei de pedalar e curti o empurrão, as pernas começar a tremer de frio e me dei conta que precisava manter as pernas movendo para me manter aquecida.

Ver a placa Welcome to John O´Groats!, me fez sorrir, a felicidade de ser bem vinda pelo lugar que almejo chegar há 21 dias é uma recompensa não só por todo esforço, dedicação e investimento nessa expedição mas sim uma recompensa por todo o último ano de treino e estudo, por toda a nossa mudança de vida para estar mais e mais aptos para o 360 Extremes. E passando por aquela placa, pensando em tudo isso sigo pedalando atrás do Ben e sei que ainda não acabamos, aquela placa é um sinal de estamos completando mas o Final é no marco e não na placa. Seguimos em frente, paramos em um Pub para saber onde exatamente estava o marco e olhando para fora da janela deles pude ver como o vento e a neve pareciam ganhar força. Menos de 1 km nos separava do nosso pódio, então com um sorriso largo subimos nas nossas bikes, clipamos nossos pés e pedalamos. Olhando em frente ansiosos em avistar algo parecido com o que deixamos em Land´s End. Não vou mentir falar que ver algo simplesmente pintado no muro foi um tanto decepcionante, mas mesmo assim descemos das bikes pulando de alegria. Aquele era o nosso momento, emocionados nos abraçamos, rimos, gritamos. Comemoramos do nosso jeito, e o frio estava ali a toda a nossa volta, se mostrando o parceiro inseparável dessa aventura. Eu bem que queria ter uma garrafa de champagne na hora para imitar os corredores da F1. Mas o jeito foi tirar a foto com o rosto gelado e banhados pelas gotas da chuva.

Entramos na lojinha e compramos uma caneca para simbolizar o nosso troféu.

Mas depois de todo esse sentimento de vitória tivemos que subir de novo nas bikes e voltar para o pub para pedir um táxi. Pedalar de volta aqueles 600m finais, subindo na bicicleta eu já realizei que isso seria muito, mais muito difícil mesmo, só não percebi que seria doloroso. O vento incrivelmente forte me jogava para trás e parecia uma parede que não me permitia sair do lugar, mais uma vez senti tapas do vento contra meu rosto e olhar para frente era impossível. As gotas acertavam meus olhos por cima dos óculos e me obrigava a fechá-los. Pedalei com força, tentando me guiar pelo asfalto da rua o quanto pude, olhando para baixo. Avistei o pub e o Ben pedalando em frente, o vento me batia com força e parecia não me querer de volta aquele lugar que me parecia quente, protegido e seguro. Uma hora desci e empurrei a bike. Chorei aqui, chorei de dor, meus olhos doíam por causa do vento e da neve. Subi na calçada do pub e o Ben veio me ajudar. Entrei no pub e lá ele me abraçou e me confortou. Quanto frio, quanta força um simples sopro pode ter.

Essa expedição acabou, depois fomos para Orkney Island ver as paisagens, continuar na companhia dos ventos mas com menos oportunidades de pedalar. A jornada em busca de experiência e preparo físico e mental para a grande expedição continua e esse ano com ainda mais aventuras, treinos e aprendizado.

 

The end is in sight. Almost

The end is in sight. Almost

Ao acordar de manhã passo a me sentir um pouco mais matemática do que comunicóloga, tudo isso porque inconscientemente me pego fazendo contas de quanto percorremos e de quanto ainda falta, e nessa manhã a resposta da equação me fez sorrir mas também me fez pesar. 100km para o nosso objetivo ser alcançado, tão pouco para que toda essa rotina de desafios e aprendizado se encerre, nessa pequena equação vejo mais que números, porque nesses 1400km percorridos vivi cada metro, suei cada subida, superei cada vento, me aqueci a cada mudança de tempo e cresci como pessoa, como ciclista, como cidadã. Tantas pessoas nos receberam com tantas histórias, conselhos e uma mão estendida para qualquer duvida ou problema. Curiosos pelo caminho nos chamavam de loucos e perguntavam sempre no porque de encararmos a LEJOG nessa época do ano. Os únicos a fazer isso agora, os únicos vistos por aqueles que nos acolheram, por aqueles que nos atenderam nos cafés e lojas de conveniências. O motivo talvez seja mais claro hoje do que quando saímos, é simples: aprender a lidar com todas as surpresas que as mudanças climáticas podem nos pregar. Acredito que isso conseguimos: lidamos com ventos de todos os lados, chuva forte, granizo, neve, icy, tudo isso junto, o dia de ameno e sem ventos se transformar em questão de segundos numa tempestade… Tivemos dias longos, semana inteira sem descanso, melhoramos nosso ritmo, melhoramos nossa potência, criamos uma sinergia e uma rotina nossa. E chega a todas essas conclusões de manhã, ao fazer a simples equação de quanto foi e o que falta, me entristece um pouco, porque parece que estou mais perto de parar de aprender, de parar de melhorar, de parar de conhecer.

The route to Keiss

The route to Keiss

Puxo meu pensamento para o fato de que hoje o dia não será fácil, a rota é montanhosa e promete uma subida interminável logo nos primeiros 20km, o clima dá pra ver que não está o mais amigo e se no dia anterior já não havia opções de parada, nesse então teria menos ainda. Pelo menos sair do Inn era algo um tanto motivador, o lugar era péssimo e eu não via a hora de chegar na próxima parada.

A ideia inicial era pararmos em Wick, mas resolvemos percorrer a maior distância possível porque o clima ia piorar ainda mais no dia seguinte. Sair de Brora foi bem tranquilo, a montanha lá no fundo com uma subida constante, longa mas não muito profunda. Agradeci o hotel ficar há uma distância razoável da subida porque consegui aquecer antes. O nosso ritmo estava tranquilo sem muita pressa. Essa seria uma subida bem longa de mais ou menos 15km, superado isso descemos uma ladeira de graduação 13% por uns 3km e no fim um curva fechada e uma subida nada amiga de 13% por mais 3km. Mais uma vez me vi pensando “porque não construíram uma ponte ali!”. Eu parei parar tirar fotos logo na curva e fazer vídeos do Ben, o problema depois foi subir na bike e encarar a subida, a estrada pra variar não tinha acostamento e era mão dupla, e com os ônibus passando ficava um tanto inseguro subir e começar a pedalar. Empurrei a bike até depois da curva e dali pedalei. Paramos no topo, depois de comemos umas barrinhas, tomamos água e combinamos de parar no primeiro serviço para tomar algo quente. Mas quanto mais norte estamos mais difícil fica de encontrar paradas. Passamos por diversos vilarejos, em Helmsdale acreditei que acharíamos algo por parecer um lugar maior que os outros, mas nada tudo fechado, entramos em Lybster e a cidade era super pequena e parecia um tanto abandonada, quase ninguém na rua os café e restaurantes fechados mas por sorte um mercadinho estava aberto e lá comemos e bebemos café. Dali em diante o desafio foi o frio mas sem muitas subidas significativas.

Looking over Berriedale, just north of Helmsdale; pausing for a break up the hill

Looking over Berriedale, just north of Helmsdale; pausing for a break up the hill

Um pouco antes de Wick o vento ficou mais intenso e vindo pela lateral, dava pra ver as ovelhas todas amontoadas tentando se aquecer e se proteger, mas nós não tínhamos muita opção além de pedalar. Chegando em Wick a cidade era bem maior, um mercado logo na entrada e não resistimos de parar para comprar algo para comer. O triste dessa parte é que na hora de continuarmos o Ben deixou o óculos cair sem perceber, parou uns 5 metros depois sentindo falta mas deu pra ouvir o som do carro atropelando e destruindo o seu óculos. Ele ficou bem chateado, mas pelo menos isso aconteceu agora e não há 17 dias atrás.

Seguimos até Keiss onde ficamos num Inn. O dia seguinte seria curto, mas olhando a previsão na internet não era nada animador, era certo que no dia seguinte encararíamos as piores condições da viagem!

 

Accompanying the single-track railway line northwards, passing plenty of small bridges on the way

Accompanying the single-track railway line northwards, passing plenty of small bridges on the way

Deixar Inverness deu um apertinho no peito, a cidade parecia ter tanto para se conhecer mas tivemos tão pouco tempo que tivemos que deixar para uma próxima oportunidade. A essa altura já sei que quando o Ben fala que o dia vai ser sossegado tem alguma pegadinha, e hoje não foi muito diferente. O dia estava bonito, e a rota seguia perto do mar quase o tempo todo. Seriam quase 94km e o clima estava com uma cara amigável no começo do dia. Logo nos primeiros 15km passamos por tantas pontes que perdi as contas, o bom foi que como não ventava tanto passar por elas não era algo tão complicado. O caminho todo tivemos que dividir a pista com os carros, uma pista pra ir outra pra voltar, o acostamento continua inexistente. Os motoristas sempre nos respeitando e nos ultrapassando com segurança, a diferença entre os ingleses e os escocês pra mimm é clara: a velocidade com que eles passam, na terra das ovelhas o limite de velocidade deve ser bem mais elevado, e alguns carros passam tão rápido que só os vejo fazendo a curva lá na frente.

Stats - Inverness - BroraO frio ameno deixa o pedal mais leve, em compensação acabamos suando um pouco mais embaixo da roupa e temos que refazer os layers, que com menos uma camada na descida nos esfria bastante. Algumas subidas pelo meio do caminho mas nenhuma que ficasse na memória. O grande problema é não ter onde parar para comer, tomar um café, ir ao banheiro ou simplesmente parar. Nesse dia eu parei atrás de moitas para fazer xixi, porque se fosse esperar ia ter que parar depois de 80km. Diversas placas apontavam caminhos ara castelos e muralhas, mais um arrependimento, não tínhamos tempo de desviar a rota e ficar parando para conhecer. Antes de Golspie não conseguimos não resistir de parar para admirar o pôr do sol, lindo demais.

Enjoying the view along the coast near Brora at dusk

Enjoying the view along the coast near Brora at dusk

Depois dessa parada na saída de Golspie uma subida bem paredão, pedalei sem acreditar que o Ben não havia falado nada, mas fui mais uma vez pedalando com paciência. Pude ver que a subida continuava numa curva fechada e me lembrei das tantas montanhas que passamos: Mandeep, Shap e a montanha na entrada de Lancashire.

E pensei certamente essa deve ser tipo aquelas, longas, sinuosas e intermináveis. Para a minha alegria, depois da curva ela terminava. Segui esperando por mais, mas nada. Subidinhas tão suaves que não tinha nem o que falar. O B&B que ficamos era bem na entrada da cidade, que não era muito grande. Em cima de um pub, e o quarto não era lá grandes coisas. O banheiro parecia ter um monstro vivendo escondido, cada vez que você ligava a torneira, o chuveiro ou dava descarga, um barulho grave e alto começava e só parava uns 5 minutos depois que você parou de usar a água. O pior de tudo é que foi o lugar mais baratinho que arrumamos na cidade e um dos mais caros da viagem até agora. Um absurdo na minha opinião mas como não tinha opções de warmshower ou couchsurf e também é bem difícil achar lugares abertos nessa época do ano o jeito foi não reparar no lado ruim e aproveitar a nossa única noite na cidade.

De Newtonmore a Inverness

Posted: February 27, 2013 by Natália Almeida in Cycling
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On the bridge over the River Findhorn

On the bridge over the River Findhorn

Os dias em cima da bicicleta são duros. Tem momentos em que acho um tanto sofrido, mas se aprende tanto que não tem como terminar com arrependimentos! O dia anterior foi daqueles em que a cada quilômetro algo novo aparece pedindo soluções, é a bike que quebra, a estrada que fica muito escorregadia ou a rodovia sem acostamento e carros passando a milhão do nosso lado. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo a nossa cabeça entra em estado de alerta constante. O lado bom é chegar ao fim do dia com a meta cumprida e os desafios ultrapassados. Dá um gostinho bom na boca pensar que nos adaptamos, que consertamos, que nos superamos. Noto que a nossa confiança vai sendo construída a cada nova experiência vivida. Uma confiança justificada! E a minha postura na bicicleta é a mesma com que vivo a minha vida. Sou segura e confiante, mas sempre dessa maneira, sempre construindo tijolo por tijolo, para quando eu procurar o porque dessa minha  segurança eu possa ver os motivos. Olho para frente e sei que ainda tenho muito a aprender mas dou muito valor pra tudo o que coloquei na minha bagagem!

Waking up in Newtonmore, ready for the day ahead

Waking up in Newtonmore, ready for the day ahead

Acordar em Newtonmore foi um tanto especial, sabia muito bem que a jornada não havia acabado, ainda faltavam +/-300km, e o dia lá fora era frio, nublado e alguns flocos de neves caiam. Aprendi a desconfiar do tempo que na Grã-Bretanha parece gostar de pregar peças e mudar de uma hora para outra. Não reclamo desse temperamento do inverno porque certamente ele foi o nosso grande professor até agora.

O dia de hoje seria um tanto curto +/- 75 km até Inverness. O Ben estava um tanto ansioso para a chegada já que quando ele era pequeno ele costumava ir para lá sempre. Tinha diversas memórias da ponte e das tarde passeando em volta do rio.

A rota escolhida pelo Ben a princípio seguiria pela A9, mas um dos donos do B&B nos sugeriu ir pela ciclorota que passaria pelas cidades de Kingussie e Aviemore. Desconfiei um pouco dessa sugestão, porque no dia anterior vimos que as condições das ciclovias e estradas secundárias nessa época do ano são péssimas, a princípio foi uma boa pedida mas uma hora tivemos que desistir já que a estrada sumiu embaixo de tanta

Enjoying a large meal at Zizzi

Enjoying a large meal at Zizzi

neve.

Voltar para A9 não era algo que me deixava mais feliz, essa rodovia parece não ter limite de velocidade e não ter um acostamento não me deixava confortável, para meu alívio tivemos alguns trechos de faixa dupla, e também não posso reclamar dos motoristas britânicos que se arriscam entrando na contra-mão para nos ultrapassar. Um dia de muito mais trabalho mental que corporal, já que a rota teve poucas subidas, e as que passamos tinham menos de 10% de graduação.

Uma descida de 30km nos levou até a entrada de Inverness, uma cidade bem bonita, com pontes, castelos e catedrais. Chegamos cedo, 15h30, e assim deu pra passear bastante. O Hotel ficava em frente ao rio e perto do centro. Descansamos um pouco, e saímos para comer. Escolhemos um restaurante italiano que parecia ser bem legal. Pedimos entrada e como a pizza costuma ser individual cada um pediu a sua. A maior surpresa do dia foi justamente a janta, a pizza era gigante, ainda bem que era gostosa!!!

up to newtonmore

Fomos pela ciclovia que seguiu ao lado da A9 por alguns quilômetros, depois desviava por uma estrada lateral que por ser pequena e usada mais por ciclistas não era cuidada na época do inverno, o resultado foi pilhas de neve cobrindo o icy. Pedalar ali era quase impossível, manter a calma se mostrou mais que essencial. Estudando onde tem menos neve e manter o ritmo do pedal ajuda a não perder o controle em cima dessa superfície que parece que só quer nos derrubar. Pude ver que mais a frente não tinha mais neve, e foi bom ver que aquilo duraria pouco. No fim eu e o Ben rimos, porque desde o dia que começamos estávamos esperando condições como essa, e foi bom poder experimentar e aprender como lidar.

Seguimos pedalando, e a estrada apresentava montes galhos e folhas, poças, neve em todo lugar. Acabamos perdendo um pouco do ritmo e chegando a conclusão que seguindo por ali realmente chegaríamos em Newtonmore bem tarde, mas ficamos aliviados em não ver mais icy e neve, pena que o alívio durou pouco  mais a frente a neve era tanta que não dava para saber o que era estrada e o que não era a não ser pelas cercas e muros, e as marcas de pneu de algum carro que passou por ali alguma hora do dia. Fomos pedalando por cima das marcas de pneu, mas quando a pilha de neve aumentava mais difícil ficava de pedalar, a bike ficava pesada e os pneus parecem deslizar mais. Eu escorreguei mas consegui apoiar o pé no chão evitando a queda. Subi de volta e voltar a pedalar se mostrou um desafio e tanto. Mais a frente escorreguei de novo, mas não caí, e a neve aqui mais densa ainda me mostrou que tem horas que empurrar a bike é mais seguro e rápido. E assim fui. Ao terminar, subi de novo e a segunda parte coberta por neve consegui pedalar até o final.

icy road

Encontramos uma saída para A9 mais a frente e como a ciclorota parecia ainda pior do que o que já havíamos enfrentado, resolvemos ir pela rodovia.

Agora o movimento parecia bem menor, e realmente estava, os carros e caminhões continuavam nos surpreendendo com tanto cuidado conosco,  íamos pelo cantinho esquerdo tentando ocupar o menor espaço possível da pista, e eles continuava entrando na contra-mão para nos ultrapassar com segurança.

Mais a frente vejo uma das minhas placas prediletas: pista extra a frente. Agora sim poderíamos pedalar nos sentindo bem mais seguros, mesmo sabendo que depois de todos esses dias se tem algo que aprendi é que junto com essas placas vem uma subida. A lógica é simples nas subidas é mais comum os carros quererem ultrapassar, já que cada carro tem uma potência diferente. A subida era longa e constante, nada que atrapalhasse nosso ritmo.

Nos últimos 20 km o que eu mais queria era ver a minha segunda placa predileta, a que indica posto, banheiros e cafés. Mas nada, nem sinal. Na verdade até teve uma próxima a Dalwhinnie mas o posto estava fechado. 

O jeito foi se distrair com o cair da noite e pedalar rápido pra tentar chegar antes e ficar o menor tempo possível no escuro. E fizemos bem, pegamos a entrada de newtonmore quando a noite escureceu, acho que mais ou menos 18h30. Chegamos no B&B que era ótimo, o quarto todo bonito e arrumado, e naquela hora nada como tomar um chá quente, tomar um banho quente e vestir roupas secas. O dia tinha começado calmo e parecia que ia ser um dia sem muitos desafios, mas para nossos engano deve ter sido o dia em que aprendemos mais.

On the Road Bridge

On the Road Bridge

A noite anterior foi de muita cerveja, comida vegetariana e bate-papo com o Charlie. Dormimos um pouco tarde mas o plano ainda era o de acordar cedo, agora mais do que nunca queríamos ver a Melanie pela manhã e nos despedirmos. E assim foi, acordamos cedo, umas 7am, arrumamos o quarto, checamos se tudo estava guardado, nos trocamos e descemos. Na sala Melanie e Charlie tomavam café, e deu pra notar pelos olhos apertadinhos da Mel que a enxaqueca não tinha melhorado. Deu um certo aperto no coração ver a cara de quem ainda sentia dor. A despedida foi rápida, ela tinha que ir trabalhar e ficamos lá eu e Ben, tomando chá e comendo torrada com geleia e pão caseiro.

Colocamos os alforjes, checamos os freios e quando estávamos terminando Charlie chega com Millhouse. Papeamos mais um pouco, ele nos dá a indicação de uma bikeshop em Perth caso precisássemos, o dono é amigo deles, papeamos mais e partimos.

Saying goodbye to Charlie

Saying goodbye to Charlie

Sair de Musselburgh foi bem bonito, pedalamos pela praia e foi bonito ver as gaivotas, e as pessoas passeando com seus cães. Eu teria gostado se o caminho todo fosse assim, porque apesar do frio ver o mar é sempre algo que me relaxa. Em Edimburgo continuamos tentando evitar as ruas e avenidas da cidade, porque como toda grande cidade os motoristas estão menos cuidadosos, por isso depois da praia fomos por umas ciclovias por dentro de parques. Um tanto confusas e algumas vezes um tanto alagadas mas certamente mais seguras. O que me chama atenção nessas cidades europeias é a quantidade de idosos correndo, andando e pedalando, apesar da idade eles continuam super ativos, queria ver mais isso nos parques de São Paulo.

Sair de Edimburgo foi demorado, não sei explicar bem porque, acho que depois de pedalar em estradas e passar por tantos vilarejos você fica mais ansioso para ver placas de bem-vindo e depois a de obrigado por dirigir de forma segura, e as grandes cidades são maiores mesmo de extensão.

A rota passou pela Forth Road Bridge, uma ponte suspensa que liga Edimburgo com o norte do país, atravessando o Firth of Forth. A ponte é bem bonito e antes dela tem um mirante, onde paramos para tirar fotos e usar as facilidades. Ao pedalar pela ponte é possível sentir o tremor dos carros passando um tanto estranho, dela é possível ver uma ponte vermelha que é usada pelo trem e em uma das colunas de sustentação tem um ilha com uma construção antiga.

The route

The route

Do outro lado da ponte a cidade continua numa correria intensa, a expectativa era de poucas opções de paradas no caminho então paramos numa padaria por aqui compramos um café e um enrolado de linguiça, o café era terrível e o enrolado não ficava muito atrás. Uma escolha de parada infeliz para quem não esperava por muitas. A maior parte da rota saindo dali foi por uma estrada pequena de pouquíssimo movimento de carros e sem nada de comércio. Bem calmo e bonito, o tempo não estava nada mal já que não chovia nem ventava. Algumas subidas mas nada demais, a pior já havíamos passado que foi logo depois da ponte. O nosso ritmo foi bem calmo e proveitoso, paradas para fotos e lanches e curtindo cada segundo. Ao ver a placa de declive de 12% mantive a calma, a descida com curvas e bem profunda me preocupava por que nas descidas o risco de ter gelo no final é mais alto, então controlei a velocidade e evitei qualquer trecho que se mostrasse arriscado. Depois disso teve mais outra descida menos acentuada mas mais longa. A estrada sossegada começava a dar lugar a uma cidade maior de novo, Perth. Chegamos aqui por volta das 16h então paramos só para ir ao banheiro comer lanches que tínhamos na mochila e seguir em frente, apesar de Blairgowrie ser perto não queríamos chegar no escuro. Os 25km até o nosso destino foi em sua maioria plano e em estradas ladeadas de grandes árvores.

Above the Motorway towards Perth

Above the Motorway towards Perth

Há uns 10km um ciclista que vinha do lado oposto da estrada nos cumprimenta, minutos depois o vejo do meu lado me cumprimentando de novo, o olho surpresa sorrio e retribuo o Hi!, mas ele continua com o sorrisão aberto me olhando e achando estranho pergunto se tem algum problema. Ele ri e diz: Natália Eu sou o Brian! Eu acho graça peço desculpa e grito para o Ben. Não esperava que o nosso anfitrião fosse nos buscar no caminho. Ele pedalou conosco até a sua casa e chegando lá nos serviu chá quente e um pão de tomate seco e berinjela delicioso. Fomos a sala conversamos sobre essa viagem, contamos do 360 e ele nos falou de suas diversas pedaladas pelos EUA. Depois subimoss para o que mais esperamos depois de pedalar no inverno: um bom banho quente. E ao descer lá estava Brian com a mesa posta, uma deliciosas sopa de legumes e frango e quando achamos que acabou ele me tira pizzas do forno. O Ben que sempre fica muito faminto depois de pedalr longas distâncias olhava mais que feliz pela inesperada janta. Eu comi um pedaço, e Brian vai e me tir um torta de blueberrys da geladeira, parecia deliciosas mas eu já não aguentava comer mais nada. Depois de insistir para eu ao menos experimentar me rendi ao filete, e assim me arrependi do pedaço da pizza. Se eu soubesse da sobremesa talvez tivesse escolhido melhor minhas porções. Mas tudo bem, a única tristeza da noite foi pensar que daqui para frente não teríamos mais companheiros do warmshowers e couchsurfing para nos receber, daqui para frente seria hotéis e B&Bs.

Arriving in Edinburgh

Pedalar 50km em um dia soava como um dia de folga, os primeiros 30km seriam de uma subida leve e constante então nenhum problema aparente. A noite anterior na casa de Strachan e Alex foi bem agitada. Conversamos bastante e acabamos indo dormir um tanto tarde. O plano era ir a Edinburgh pela estrada A7, e Strachan recomendou que trocássemos a estrada ou que começássemos o pedal mais tarde que o normal, depois das 9h. Por isso, acertamos o despertador para às 8am, mas não conseguimos acordar. O despertador tocou e apertávamos o snooze, até às 9am. Logo no primeiro quilômetro uma subida bem profunda, o que foi bom para forçar os pulmões. Daí em diante não foi ficando mais fácil não. Apesar de nada de neve estava bem frio. E existia a possibilidade de pegar black ice, o cuidado agora era redobrado. A estrada mão dupla e sem acostamento nos obrigava a dividir as faixas com os caminhões, carros e tratores que queriam passar, ainda bem que o trânsito estava ameno.

As paisagens com grandes montanhas de pico nevado ao fundo eram lindas demais e distraía bastante durante as subidas, em compensação os fortes ventos que pegamos contra nos fazia pedalar com força e mesmo assim não sair do lugar. O pior quanto aos ventos é que além da energia que perdemos para fazer alguns metros é que ainda temos que controlar a direção da bike, porque de repente além do vento que vem contra surgem rajadas laterais que te jogam de um lado para o outro da pista.

Outra coisa que percebi nesse dia inteiro na Escócia é que você pode passar dezenas de quilômetros sem encontrar uma opção de parada para comer, ir ao banheiro ou simplesmente descansar. Dessa vez encontramos um posto com conveniência a 10 km de Edimburgo, eu cheguei a comemorar ao ver o logo a distância. No frio que anda fazendo tomar algo quente é mais que necessário para manter a motivação.

Leaving Galashiels

Depois da parada, foi praticamente um descida até chegarmos em Musselburgh, onde fomos recebidos pela Melanie e pelo Charlie e seu Greyhound Millhouse. Tomamos um chá e lavamos as bikes que estavam mais sujas do que antes de Lancaster. Ela é bem atenciosa e papeamos um bocado sobre viagens e pedaladas. Depois tivemos que ir ao centro da cidade encontrar o Paulo e saber mais sobre como andava seu joelho e a visita ao médico. Felizmente o prognóstico foi bom porque ele não tem nenhuma lesão permanente somente uma inflamação no menisco que com descanso e remédios deve ficar melhor em 10 dias. Triste pensar em não tê-lo nos acompanhando mas bom saber que tipo de cuidados e trabalho de fisioterapia teremos ao voltar para São Paulo.

Faltam 5 dias de pedal intenso para completarmos nossa jornada, espero que daqui para frente tudo dê certo apesar dos desafios aumentarem a cada metro percorrido. Pensar que ainda teremos um dia de descanso no dia seguinte ajuda e muito!!!

Arriving in Scotland - the first time for Natalia

Arriving in Scotland – the first time for Natalia

Que o dia seria longo a gente já sabia mas que seria difícil deu para notar só de olhar pela janela do hotel, nevava lá fora e isso seria um desafio totalmente novo para nós. Nenhum de nós nunca havia pedalados nessas condições e o que cada um sabia era o que tínhamos lido em blogs e matérias. Cada um arrumando seus alforjes, e como estávamos em quartos separados não dava muito para saber como foi a noite do Paulo. Às 7h30 ele bate em nossa porta e a certeza era que estávamos atrasados para o café da manhã. Mas infelizmente o motivo era outro, ele teve uma noite péssima com dores no joelho e estava um tanto receoso em enfrentar outro dia longo. O grande problema com dores no joelho e articulações é que não dá pra você se autodiagnosticar, e às vezes é algo simples e outras algo super grave. O que menos queremos esse ano é uma lesão que impossibilite todo o treino que planejamos para 2013, então ele ir a um médico nos pareceu o mais sensato.

Fomos com ele até a estação de trem e combinamos de nos encontrar em Edimburgh, ele teria quase 4 dias de descanso e dependendo do que o médico dissesse poderia continuar o resto da jornada conosco.

Começar a pedalar em 2 foi um tanto estranho no começo. Porque depois de tantos dias consecutivos você cria uma dinâmica e um ritmo, agora que somos dois os primeiros quilômetros foi de adaptação de ritmo e cadência. A cada metro esse dia parecia não melhorar, logo nos primeiros 10km eu percebi que a minha constante preocupação quanto ao peso que o Ben carregava na bike dele me fez colocar muito mais peso na minha, minha bicicleta parecia ter dobrado de peso de um dia para o outro. As subidas que normalmente faço sem problemas pareciam bem mais difíceis com tanto peso. Mas fui administrando as marchas e conseguindo transpassar os aclives no caminho. A neve batendo na cara é algo delicado, e até gostoso, bem diferente do granizo e da chuva. Tivemos momentos com bastante vento mas nada demais. Toda a paisagem do dia foi pintada de branco e dava um ar dramático a todo o pedal. Tudo parecia claro, belo e triste.

Por mais que o dia fosse longo e meu ritmo mais lento por conta do peso, não resistimos as paradas para fotos ou simplesmente olhar a volta.

A rota era bem montanhosa e com 3 picos principais, o primeiro uma subida longa e constante de +/- 8km, que superamos com facilidade graças a distração da beleza do dia, as duas subidas seguintes eram mais curtas, mais íngremes e com muito vento. Ainda bem que a vista de Selkirk de lá de cima era muito linda e nos fez pensar que valeu a pena o esforço. Dali em diante uma descida profunda e o resto mais ou menos plano.

O que percebi nesse primeiro dia na Escócia é que o tipo de asfalto escocês é mais áspero e te obriga a pedalar inclusive nas descidas, não existem muitos cafés, postos de gasolinas e lugares para breaks, hoje só achamos um lugar em Hawyk a mais ou menos 10km de Galashiels.

Não sei explicar o que me fez mais feliz ao chegar na casa dos nossos warmshowers anfitriões Strachan e Alex, se foi não ter que subir a rua que começa logo depois do prédio deles ou o fato deles morarem num apartamento no térreo e não tive que subir escadas essa noite.

Eles nos receberão super bem, cheio graça e com muitas histórias. Uma noite divertida e de muito bate-papo.

On top of Shap

Deixar Lancaster depois de 2 dias de descanso e diversão já não era fácil, e pensar que o trajeto até Carlisle inicialmente duraria dois dias não ajudava em nada. Tudo bem que o Ben repensou na rota para que fosse possível fazermos na metade do tempo, antes a ideia era passar pelo Lake District passando a noite em Windermere e no segundo dia ir para Carlisle. O Lake District é recheado de subidas mas também de belezas, e passar por lá seria trabalhoso mas compensador, por outro lado o joelho do Paulo merecia um dia a mais de descanso e o Ben merecia um dia a mais com a família e amigos depois de mais de 3 anos se vê-los. A rota seria longa, mais de 100 km de um sobe e desce interminável, o tempo também não estava de muitos amigos: frio, promessa de chuva e bastante vento.

Lancaster - Carlisle - mapSair de Lancaster foi fácil sem muito trânsito e a estrada não estava muito movimentada. Eu ansiava em ver a tão comentada Shap Mountain que pude ouvir o Ben e Franklyn conversarem em uma das noites, parecia que esse seria nosso maior desafio do dia, uma subida longa e um tanto íngreme. E quanto mais perto de Kendall a gente estava pior o tempo ficava. Os ventos inconstantes e rebeldes (de todos os lados) começaram uns quilômetros antes do pé da montanha, quanto mais subíamos pior ficavam. A subida era de +/- 10km e no começo me surpreendeu por ser até bem fácil, sim longa mas pra variar as subidas exigiam muito mais um trabalho mental que corporal. Tenho sempre a sensação que o que me falta é paciência e não força ou resistência. Durante a subida tive a impressão de perceber que o Paulo ainda não estava no seu ritmo normal, mas a essa altura acreditei que seria só um cuidado maior com as articulações.

Os últimos 3 quilômetros ficaram mais íngremes e além de paciência exigia também das pernas. Os ventos aumentavam e muito a dificuldade e por ficarem mudando de direção tínhamos que cuidar para ficarmos no canto esquerdo da pista sem atrapalhar os carros que subiam sem a menor dificuldade. Como um prêmio ou agradecimento, a natureza nos mandou um forte sopro nas costas que praticamente nos colocou no cume da montanha, e nos ajudando no último quilômetro. Lá em cima, filmando e torcendo estava o Ben, na expectativa pela chegada minha e do Paulo.

Eu comemorei, porque se aquilo que todos falavam que seria um desafio não me pareceu a pior coisa do mundo era mais um momento de conquista. Ali, mais uma vez reparei como o meu condicionamento e preparo físico estão em dia. Comemorei, parei, bebi minha água, comi meu block ( cubos de energia) e segui viagem. Ali em cima ficar parado com o vento gelado era ainda pior do que qualquer subida.

Com o pensamento aliviado, e pensando que o pior do dia já havia passado me vejo lutando contra o frio e o vento, as nuvens negras se espalhando pelo céu e a chuva prometida parecia que poderia começar a qualquer instante. Mas a chuva não era só chuva, era granizo, bem pequeno mas massacrador. A sensação daquelas pequenas pedrinhas jogadas na minha face pelo vento forte era de pequenos pedaços de vidro me cortando. O rosto ficava quente o que aumentava a sensação de estar com a pele sangrando. Os óculos protegiam os olhos mas uma hora ou outra algumas pedrinhas acertavam o vão entre o meu rosto e a armação e me obrigava a piscar para voltar a ver melhor. Alguns minutos a frente pude ver o Ben e o Paulo parando e se protegendo atrás de uma casa e isso me deixou bem aliviada. Ao parar com eles e checar se estavam todos bem, reparo que estamos um olhando bem para o rosto do outro buscando as mesmas marcas que tínhamos a sensação de estar nascendo. Mas nenhum corte, ou sangue ou machucado. A pele vermelha, judiada pelo vento e pelo frio parecia ser grossa demais para o granizo cortar. Alguns minutos depois reiniciamos o pedal, não porque a chuva havia parado mas porque não fazia sentido ficarmos ali esperando algo passar sendo que nem sabíamos quanto tempo poderia durar. O jeito foi tentar cobrir o máximo do rosto com o balaclava e torcer para que aquilo acabasse logo.

E uma hora acabou, não sei dizer ao certo quanto tempo ou distância porque foi algo bem difícil de se viver e nesses momentos é complicado reparar o quanto durou.

Weather closing inCom o vento ainda presente mas bem mais ameno seguimos viagem. A meta como sempre era chegar antes de escurecer, mas hoje estava sendo um dia desafiador e já comecei a imaginar que não conseguiríamos estar no hotel cedo. Tentamos manter um ritmo mais apertado e parando só o necessário para comer, ir ao banheiro e tomar um café quente que com esse tempo se faz mais que necessário às vezes.

O sobe e desce continuou mas nada que não pudéssemos administrar. Chegamos no hotel umas 18h30, o que nos fez pedalar apenas uma hora durante a noite. Pedalei a última hora desejando uma coisa simples mas revitalizadora: banheira com sais e água quente.

Ao chegar no quarto do hotel e ver que meu pedido foi atendido foi um presente tão bom quanto o vento no fim da Shap. Agora era hora de relaxar, 35 minutos com os músculos mergulhados numa água quente e relaxante que fez todos os músculos esquecerem do frio, da força e de como o dia seguinte prometia ser ainda mais difícil.

 

Back in 2007... Things change!

Back in 2007… Things change!

O dia de descanso em Lancaster viraram dois por motivos simples os sobrinhos do Ben estavam super felizes em nos ver e como o joelho do Paulo não estava 100% pensamos que um dia extra de descanso era mais que merecido.

No primeiro dia ficamos mais em casa brincando e ouvindo as histórias de Gabe, Felix e Isaac, os três são super diferentes um do outro o que deixa ainda mais divertido estar com eles. Gabe o mais novo de 7 anos é super falante e criativo, gosta de brincar com arminhas e contar histórias e mais histórias, Felix de 10 anos já é mais quieto e um tanto nerd, todo interessado em tecnologia, adora fuçar nos computadores e tablets, sempre mostrando algo diferente que ele consegue fazer – ele realmente me faz lembrar desses gênios que aos 18 anos ficam milionários com algum programa ou site da internet, Isaac o mais velho de 13 anos apaixonado por futebol e jogos, na segunda noite jogamos poker com ele que todo cheio dos macetes fazia o maço e espiava nossas cartas, claro que ele ganhou e isso gerou um acesso de comemorações.

ashton_memoria Na primeira tarde fomos ao Ashton Memorial, um lugar muito bonito no St James Park, lá tentamos fazer a pipa do Ben voar mas sem vento era impossível. Papeamos bastante com o Franklin (irmão mais velho do Ben) sobre como ele ensinou o Ben a pedalar, as viagens para acampar, como ele costumava pedalar bastante pela Escócia quando foi a universidade em Glasgow e tudo mais. Um final de semana relaxante e bom para matar a saudade. Na última noite encontramos com o Tom um dos melhores amigos do Ben num pub, rimos e falamos sobre diversas coisas. Ao irmos dormir a ansiedade para voltar a pedalar voltou e não sei se o fato de o dia seguinte ser bem longo ajudava ou não. Mas vamos que vamos, Lancaster era o meio de toda expedição e passar a metade significa que estávamos mais perto de completar e isso sim é motivador, saber que estamos perto de conquistar o objetivo!!!!

Lancashire, this is Lancashire

Lancashire, this is Lancashire

Nada como acordar de manhã com uma criança feliz, saltitante e cheia de energia pula e se revira pela sala. Como pode ficar com preguiça ou desanimado assim. Acho que naquela manhã Theo foi realmente inspirador. Se ele tão pequeno podia estar tão animado com o seu dia como nós não poderíamos?

Além do mais a certeza de que teríamos um dia de descanso em família no dia seguinte era mais que motivador, eu diria libertador.

The route

The route

Mas todo esse clima exaltado de um dia de pedal foi se minando um pouco, logo na saída da garagem reparo que o meu pneu da frente estava furado. Em~tao antes mesmo de começar tivemos que trocar a câmara, e como eu já estava carregando um pneu Schwalbe Marathon na bagagem aproveitei para trocar. O Paulo e toda a sua experiência em troca de pneus da speedy foram de suma importância, ele trocou super rápido o que evitou um stress.

O caminho escolhido pelo Ben para sair de Manchester foi por dentro do parque Kenworthy Wood o que nos tirou de todo o trânsito matinal, e nos levou a lindas trilhas ao lado do rio e com muita lama. O triste disso foi que nos rendeu mais um pneu furado agora da bike do Paulo. Assim o dia foi começando a parecer que ia ser um daqueles cheio de problemas, e quando ainda se pensa que seriam quase 100km de uma rota um tanto montanhosa e passando por dentro de cidades como Bolton e Blackburn, toda aquele clima animado vai se minando. E assim foi alguns quilômetros a frente o rack traseiro do Paulo também soltou e eu que trouxe parafusos de todos os tipos que por um tempo achei que de nada ia servir, na realidade salvou o dia.

With MattMesmo com todos os infortúnios íamos mantendo um ritmo bom, nas cidades maiores e com o trânsito acabávamos perdendo um tempo maior, mas acabamos pegando uma estrada menor e aí tentamos compensar, mesmo assim a noite começou a cair e a estrada pequena começou a não parecer mais uma boa opção e aí o jeito foi pegar A6, e dividir a pista com os carros que passavam rápido mas sempre nos dando bastante espaço ao nos ultrapassar.

Chegamos em Lancaster, mais especificamente a casa de Franklin (irmão do Ben) mais ou menos às 18h30. Lá comemos todo o pão e bebemos chá e mais chá. Nada como estar em família, comer, comer e comer sem culpa. O único problema aqui foi para subir os 3 lances de escada até o quarto mas depois de descansar na sala conseguimos. O dia seguinte seria o primeiro de descanso, mais que merecido depois de 8 dias consecutivos de muitos km, muitas subidas, e muitas horas em cima da bicicleta. Aqui além de marcar como nosso primeiro descanso também é o meio do caminho ao pensar em trajeto percorrido (750km).

Posso garantir que a essa altura a sensação em nossa cabeça era de vencedores!!!

Jodrell Bank

Jodrell Bank

Acordar de manhã e ouvir pela janela o barulho do vento e da chuva forte pela janela é um tanto desanimador. Mas nossa intenção com essa expedição-treino sempre foi nos desafiar mais e mais e toda essa mudança climática e todos os desafios impostos pelo tempo e pela natureza sempre foram a grande questão. Então 6h30 sem choro e nem vela acordamos nos arrumamos e descemos para chá e torradas com geleia. É estranho acordar de manhã e se servir e ficar andando por uma casa que não é sua e os donos ainda estarem dormindo, mas a essa altura já estamos quase acostumados. Jon uma hora veio nos ajudar a tirar as bikes e conversar um pouco, e nesse meio tempo a chuva já não estava tão ruim.

Resting by the Canal

Resting by the Canal

Na verdade o passar do dia foi bom porque o vento e a chuva foram desaparecendo a cada quilômetro percorrido. Seria um dia bem longo (104km), mas a altimetria era ótima com pouquíssimas subidas. A estrada bem pequena e passava por dentro de pequenos vilarejos e fazendas era um deleite aos olhos. Paramos um pouco em Audlem onde aproveitamos um pouquinho, e depois seguimos em frente. Passamos pelo Jodrell Bank, um super radiotelescopio, que o Ben tinha ido com o pai quando era bem mais novo. Um tanto interessante ver algo tão tecnológico e moderno no meio de plantações e fazendas antigas.
Me fez lembrar de um dos filmes do 007, mas o Bem me disse que não é o mesmo lugar, e que de fato o do 007 nem existe.
Foi um dia de calmo proveitoso, sem ventos e com um solzinho no fundo que dava um ânimo para continuar pedalando. Levamos um pouco mais de 6 horas pedalando, mas com as paradas viraram 9, e ainda paramos bastante tempo no centro de Wilmslow para um café e papear já que os anfitriões da noite só chegavam em casa mais tarde.
Ao chegar em Heald Green fomos recebidos por Becky, Matt e o pequeno Theo, uma família jovem mas cheia de aventuras. Eles largaram o trabalho e percorrem de bike com o pequeno theo de dois anos na época num trailer percorram 4 mil milhas pelo Canadá e Estados Unidos. Um tanto corajoso e inspirador quando você pensa que uma criança dessa idade precisa de atenção. Com eles trocamos diversos conselhos, risadas e comemos um chilli com arroz, que confesso me fez muito feliz, depois de tanta batata eu realmente estava com saudades do arroz.
Como o dia seguinte prometia ser longo e bem montanhoso eu abandonei o bate-papo e fui para cama cedo.

Map - Worcester - Shrewsbury

Acredito que esse foi o pior dia depois do primeiro, apesar da distância ter sido razoável (83km) os desafios foram diversos: ventos forte, tráfego intenso e muitas subidas profundas de até 14%.

Na noite anterior o Ben e o Paulo havia chegado a casa de Caryl e Lyndon com bastante dor na articulação do joelho, e de manhã fiquei bem mais confiante ao ver que o Ben estava bem melhor. Nos primeiros quilômetros ele disse que ainda doía um pouco mas nada demais, já o Paulo continuava com uma dor significativa o que o fez ir pedalando o trajeto todo na marcha leve.

A estrada era bem bonita, diversos vilarejos, em alguns momentos a estrada tinha duas faixas para pedalarmos o que com os ventos nos deixava mais seguro. Os ventos daqui são bem rebeldes, vem de frente do nada muda para o lado o que exige que você pedale lutando para ficar no canto esquerdo para não ir para frente dos carros. O vento contra sempre foi o meu maior medo de todo esse desafio, porque você pedala. pedala, pedala e não sai do lugar o que é um tanto frustrante depois de algum tempo.

Stats - Worcester - Shrewsbury

Os motoristas ainda me surpreendem sempre se arriscando na contra-mão para nos dar uma distância segura – lembro que quando estava no Brasil me dizima o tempo todo que os motoristas da Inglaterra eram super anti-ciclistas e que não faziam questão alguma de nos manter seguro – talvez em Londres isso seja uma verdade, mas como toda grande cidade o tráfego já um tanto estressante.

Tívemos um velocidade média bem baixa mas condizente com as condições. O vento congelava nossos dedos do pé, e não senti-los é algo agoniante. Então paramos em alguns café e conveniências para nos esquentar e comer algo, o bom é que com a rotina alimentar aconselhada pela nossa nutricionista Isabella Alencar, realmente teríamos que parar a cada uma hora.

Eu fui bem durante o caminho, sem dores, e com uma paciência que me surpreendia, quase não me irritava com nada. Me irritava às vezes pensar que chegaríamos de noite no destino, porque é quase impossível para mim enxergar sem luz e com a luz dos carros na contra-mão, mas não havia muito a se fazer quanto a isso, já que o dia não foi dos mais fáceis. Depois de um dia longo assim finalmente chegamos a casa de Jon e Angela que nos recebeu com uma taça de vinho, macarrão a bolonhesa e muita conversa sobre cinema, televisão e bike. Ainda tivemos tempo para dar uma lavada nas nossas roupas, o que já era mais que necessário depois de quase uma semana com a mesma camiseta, calca, jaqueta e balaclava.