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Condoriri

Pico Austria

Pequeño Alpamayo

A volta para La Paz foi tranquila, tínhamos 2 austríacos nos acompanhando, os dois também estavam super doentes com problemas intestinais e estomacais, nessas condições não dá pra negar uma carona a ninguém ainda mais que a maioria de nós tínhamos passado por isso. A trilha do acampamento base até o carro é repleta de belezas. Os animais na verdade dão a vida e a cor ao local, llamas por todos os lados seguidas de cholitas carregando seus bebês nas costas. Chegando ao fim da trilha tem uma queda d’água que dá vontade de mergulhar, mas falta coragem porque o frio é de matar. Todos resistem a tomar um banho menos Kirk, mais uma vez se mostrando mais vivaz que os outros, tirou as blusas e jaquetas e mergulhou a cabeça na água, até as moradoras do lugar riam impressionadas da coragem. Eu e o Ben ficamos olhando de longe e chegando a conclusão de sempre: Esse cara é louco!

De volta a trilha, Kirk vem sorrindo e dizendo que já se sente mais limpo e humano, mesmo sem xampú ou sabonete para fazer o banho decente. Ao chegar no carro encontramos Augusto todo empolgado tirando fotos das cholitas, com as cholitas e tudo mais. Ele se impressiona com a beleza das cores de suas roupas, seus dente de ouro e na força que tem em carregar tudo nas costas. Enquanto arrumamos o carro, lá está ele clicando, clicando e clicando.Kirk se junta a trupe e acabam deixando as mulheres super envergonhadas, a vergonha delas dava uma graça singela a toda situação.

No carro de volta o caminho foi tranquilo, alguns cochilaram, outros conversaram e eu estava morrendo de calor. A verdade é que quando se anda nessas estradas você escolhe entre calor ou poeira e nesse dia já dá pra imaginar  o que escolheram.

Chegando ao hotel, todos cansados cada qual pegou suas coisas e de elevador chegaram a seus andares. Pelo jeito a sorte não estava do nosso lado, e ao tentar tomar um banho a água só vinha gelada. Liguei na recepção e me pediram para esperar que mandariam alguém. Meia hora depois ligo novamente e a recepcionista me pede calma e diz que em duas horas teremos. Descemos para encontrar os outros e combinarmos o jantar,  Augusto me oferece seu quarto para uma ducha, na verdade eles estavam trocando de quartos e esse ficaria vago. Não resisto e aproveito a chance. Me sinto bem depois do banho e as energias parecem ter se recarregado. O coitado do Ben recorreu ao banho frio mas ainda estava na expectativa de um outro quente. As horas se passaram e nada da água, um pouco antes de sairmos pra comer um homem veio e começou a bater no tubo de gás, 15 minutos depois disse que em pouco tempo teríamos água quente.

Saímos felizes com a certeza que depois do jantar poderíamos tomar um banho quente e relaxante.

Para o jantar escolhemos um café restaurante aqui na rua sagarnaga chamado Banais, aconchegante e muito bonito a decoração  é bem diferente, saias de cholitas bem coloridas penduradas no teto que é pintado imitando o céu, o chão de vidro no terraço e com diversas máscaras de metal. Impressionante como pode haver lugares assim no meio de barracas e mercados a céu aberto. A comida também foi bem gostosa, e os smoothies uma sensação. Uma coisa curiosa sobre La Paz, ou melhor Bolívia, não se importam frutas, então a seleção é curta mas sempre fresca e natural.

Kirk estava pensando sobre fazer a Death Road no dia seguinte e o ajudamos a decidir que sim. De volta ao hotel, chegou a hora que o Ben mais esperou, o banho quente. Mas parece que fomos enganados e a água seguia congelante. Triste ver que o dia não terminou como planejamos.

Cada um no seu saco de dormir tentando parar de pensar no que nos espera e dormir. Nas noites anteriores foi possível me ouvir cantarolar enquanto o Ben tentava dormir. Eu com minha energia fora do comum faço isso quando meu marido não tá muito afim de conversar – eu sei que deve ser uma coisa meio irritante, mas não consigo me controlar – nessa noite o que era possível escutar eram mais uma vez gemidos leves. Dessa vez as coisas pareciam melhor para mim. Acordamos às 2am e começamos a nos arrumar. Já pronta comi um pouco de granola com leite, obrigada pelo Ben, demorei um pouco para me encontrar com tantas luvas e casacos e acabei atrasando um pouco. No começo tudo meio familiar já tínhamos feito esse trajeto antes, pelo menos eu, Bem e Kirk. A trilha até o glaciar leva mais ou menos uma 1h30, e é uma caminhada fácil. A noite não ajuda muito por ter muitas pedras e poças mas nada que me derrube. Enquanto ando vou sentindo pontadas no estômago e no começo vou as ignorando. Tento me concentrar nos passos e em seguir a pessoa a minha frente. Com o passar dos tempos as pontada vão ficando mais contínuas e já começo a pensar em abandonar o time enquanto ainda é possível voltar sozinha para o acampamento. Mais uns passos  e definitivamente essa não será a minha noite. Chamo a atenção de todos e comunico a minha retirada. Augusto diz que eu conheo meu corpo então sei o que é melhor. Caleb pergunta se posso ir voltar sozinha respondo que sim mas José diz que nem pensar, pega minha mochila e vai me acompanhando. Pelo caminho vamos conversando o tempo todo. Ao chegar no ponto onde é possível ver o acampamento peço que ele volte para o resto do grupo porque daqui em diante não tenho como me perder. Nos despedimos, e no caminho até a barraca sei que fiz a coisa certa. A dor se transforma em naúseas em com passar dos minutos tudo vai se revoltando dentro de mim. Uma noite recheada de cólicas e vômitos. Pelo jeito minha sorte tinha acabado mesmo e me via nas mesmas condições de Ben, Augusto e Caleb. A dúvida ainda fica se foi melhor ou pior para mim ter que passar por uma noite dessas sozinhas, me cuidei a base de muita água, massagens e compressas improvisadas. O problema de estar sozinha foi pra comer, na nossa barraca só tinhamos biscoitos, chocolates e coisas assim. Durante a tarde não me aguentei e revirei a bolsa de comida do Caleb e peguei um bagel seco e nada gostoso mas que saciou a vontade de comer algo salgado.

As horas ia passando e só conseguia pensar em como eles estavam e quanto tempo ainda faltava para chegarem. Entre um cochilo e outro ouço ao longe um chamado. A voz e o sotaque não tem como se enganar. Augusto e José chegavam felizes. Me perguntavam como eu estava, como foi o dia e tudo mais. Depois que respondi começo a ouvir Augusto contar os pontos altos. A verdade é que ele estava chateado em não termos tido aulas técnicas sobre uso de crampons e que isso poderia ter facilitado as coisas para o Ben porque em um dos momentos teve subida na rocha com os crampons e que ele ficou aflito em ver as dificuldades do Ben, mas foi bom saber que todos conseguiram chegar ao cume. Ele ficou pouco no topo e como estava só ele e o José a descida foi rápida.

Daqui em diante fiquei ansiosa e dando voltas do lado de fora na expectativas dos outros chegarem, do Ben chegar. Um par de horas mais tarde e vejo ao longe os 3 acenando. Visivelmente mais magros mas com um sorriso gigante.

Ben mal chega e se deita na barraca, está exausto. Fica todo empolgado me contando sobre as piores e melhores partes. Mais uma vez diz que o apoio de Kirk e Caleb foi essencial. Conta sobre a parte da subida na rocha e que se não fosse José vir e tirar seu crampons provavelmente teria gastado o triplo do tempo tentando se entender. Me disse que ficou apavorado num momento em que teve que andar numa pequena cresta bem no alto do Pequeño Alpamayo, que olhar para qualquer um dos lados só o fazia se sentir pior, a questão é que esse britânico tem medo de alturas e que naquele momento estava quase tendo um ataque de pânico. Passagem superada, chegada ao cume cansativa. Ele não conseguia parar de pensar que chegou lá mas que ainda tinha que voltar.

Foram 13 horas, +/- 1000 metros de altura, 4 barras de chocolates recheados, 2 litros de água, + de 5000kcal, tudo para isso para conseguir subir a primeira montanha.

Não vou mentir que no meu dia de espera não chorei, chorei sim, tentei lidar com a minha propria frustração. Foi duro pra mim ter que lidar com tudo isso sozinha. Ao final fiquei feliz sim, e orgulhosa de ver que ele conseguiu superar seu corpo e sua cabeça. A minha chance ainda virá, espero não ficar doente por mais dias.

A noite não foi como o esperado. Eu que estava o tempo todo me sentindo bem e confiante fui a vítima da vez do mal que  afetou quase todos. Não conseguia dormir com fortes cólicas estomacais, diarréia e uma forte sinusite. Sei que dar detalhes assim de minha doença não deve ser muito legal de ler mas escremos aqui para documentar o que esse projeto nos leva a conhecer e sofrer. Mas o problema só piorou mais a noite quando fui ir ao banheiro me deparei com o lado de fora da barrraca cheio de neve, nevava forte e foi um tanto difícil conseguir enxergar e andar. Apesar dos dias frios em Winnipeg nunca tive que andar sobre pedras para chegar em algum lugar. Na primeira ida etava tão confusa com o mar branco que surgiu a minha frente que cheguei a tomar a direção errada, depois me encontrei e consegui ir e voltar. Da segunda vez quase caí várias vezes escorregando a cada passo. As horas passaram e enquanto isso eu fui me esforçando o máximo para ficar bem.  Ao ouvir o grito de Hot drinks de Caleb cheguei a chorar frustrada, me sentia injustiçada por só agora ficar doente. O Bem começou a se arrumar e podia-se ouvir o movimento de todos lá fora. De repente ouço o grito de Caleb mais uma vez, dizendo que as condições do tempo não permitiam a nossa saída agora que iríamos tentar sair umas duas horas depois. Mais uma chance pra eu conseguir. As horas se passaram e nada de eu conseguir melhorar a pior parte eram as cólicas. Infelizmente para os demais, felizmente para mim, a saída foi cancelada e marcada  para a madrugada seguinte.

Dormi mais calma e tentei aquecer meu estômago para aliviar a dor. Manhã seguinte acordo com um convite para uma caminhada curta só pra aclimatar. Rejeito juntamete com Augusto, como ainda não estamos 100% decidimos ficar no acampamento e descansar. Ben, Kirk e Caleb saiem. Algumas horas depois ouço a voz alegre de José me perguntando se estou melhor se não seria hora de sair um pouco da barraca. Sigo seu conselho e encontro Augusto do lado de fora. Conversamos um bocado, na maior parte sobre o 360 Extremes. Ele fica me perguntando sobre o trajeto, os cursos e dando diversas ideias. A conversa foi boa porque pude esquecer um pouco. Comi um bagel, e papeamos mais. Alguns cochilos durante a tarde. E a maior parte dos sintomas passaram, as cólicas iam e voltavam, mas estava convencida que saíria e consegui subir com todos até o meu primeiro pico.

Mais ou menos 6 horas depois os outros finalmente chegaram. Sorridentes e empolgados, o motivo haviam subido o Pico Aústria para aclimatar, uma subida nada difícil mas que dá pra sentir a altitude de acordo com o Ben, ele fez questão de falar que só cnseguiu chegar ao topo com o suporte mental de Kirk que não o deixou voltar. Kirk, louco como é teve a capacidade de tirar a camiseta e ficar fazendo poses de alterofilista. Sempre fazendo graça virou um super parceiro para o Ben.

Chegaram cansados e com fome. Eu e o Augusto estávamos famintos e ficamos empolgados ao ouvir os planos de Caleb de hot drinks e jantar. Pena que no meio ele mudou de ideia e acabamos treinando técnicas de como andar e se comportar com a corda que nos mantém unidos. A essa hora vou confessar que nenhum de nós estava contente. O frio piorou, o vento aumentou e nos parecia idiotice ficar ali fora se desgastando ainda mais sendo que a noite seria puxada. Tentamos fazer tudo o mais rápido possível, e pela primeira vez pudemos ouvir uma reclamação da boca de Kirk. Ao terminar encontramos Caleb no fogão assando salames, crackers e queijo. Esse realmente não era o dia do Caleb, Augusto não come frituras e na minhas condições ta,bém não foi a melhor pedida.

Todos na cama cedo, e mais uma noite de expectativas, se o tempo deixar em poucas horas estaremos todos a caminha do pico que estamos com sede de conquistar desde o dia que entramos no avião.

Todo mundo por aqui deve saber que nós nunca estivemos numa montanha, logo nunca enfrentamos os perigos que existem ali. Por isso o terceiro dia foi um dia de se aprender. Também não queríamos forçar os que estavam doente e mesmo Augusto ainda não estava 100%. Acordamos umas oito da manhã, nos reunimos para um chá quente e cereal. Demos uma caminhada pelo lago, brincamos com um estilingue boiviano que Kirk tinha comprado no primeiro dia. Depois nos reunimos para treinar tipos de nós. Os principais foram: oito – o nó mais usado no montanhismo e também na escalada da rocha, “eight in a bite” , prusik, clover, fishmen, e outros mais. Aprendemos onde deve ficar a sua ancora, o texas kick, o prusik de segurança, e como deixar sua cadeirinha mais segura com carabinas no seguro.

Como não temos fotos e esse monte de nome de no deve parecer grego, segue um vídeo mostrando como se fazer esses e outros nós tão importantes para o escalador:

Depois aprendemos que em caso de queda numa crevasse o certo é deixar os pés longe das paredes, porque o crampon pode segurar bruscamente e você acabar girando o corpo, não se deve soltar o ice axe e assim que possível craválo com as duas mãos na parede usando-o como breque, entendido isso depois de compreendido o posicionamento fomos para a rocha para aprender como sair de dentro da crevasse, subindo com a ajuda do texas kick.

Vídeo demonstrando o uso do Texas kick:

Fomos até uma rocha velha e que me dava medo só de olhar a cada agarrada as pedras se soltavam. Mas de acordo com o Caleb era segura se pendurar na corda e se içar até mais ou menos 10 metros do chão. O primeiro a tentar foi Augusto, que por ter uma cadeirinha de fita simples, não conseguiu nem sair do chão, falando português claro, as fitas amassavam as bolas dele. Desistiu e foi a vez do Ben que teve um pouquinho de dificuldade no começo, é complicado se equilibar e tentar se sustentar tão perto do chão, mas ele conseguiu, dificuldades na descida também superadas, chegou a vez de Kirk que tinha uma cadeirinha parecida com a de nosso parceiro italiano mas o nosso super homem não teve problemas, até brincou com o aperto na virilha. Finalmente chegou minha vez, por causa do vento forte estava com um pouco de sinusite mas me esforcei e encarei a tarefa, todos dando o suporte e falando que eu etava indo muito bem, fui subindo, subindo e subindo até que Caleb riu e perguntou quando eu ia começar a descer, dei graças por poder começar a descida. Treino terminado hora de voltar ao acampamento, com a sinusite mais forte e os ventos também a volta não foi das mais agradáveis. Chegando no acampamento vesti uma touca e me enfiei dentro da barraca não saindo nem pra comer. De lá pude ouvir eles combinando a nossa primeira saída para a montanha, às 2h30 da manhã começariamos a caminhada sentido ao Pequeño Alpamayo. Comemos um macarrão e dormimos ansiosos.

O segundo dia não melhorou, quer dizer melhorou um pouco pelo menos para o Ben. Ele acordou um pouco mais forte, os vômitos continuaram mas mais espaçados. Em compensação Caleb e Augusto acordaram com os mesmo sintomas. Caleb não teve nem coragem de sair da barraca enquanto Augusto vomitava a cada gole de água. Eu e o Kirk eramos os únicos fortes e saudáveis e por isso mesmo ficamos meio que cuidando de todos. Levamos o Ben para uma volta enquanto os outros tentavam cochilar. A caminhada não foi longa mas acreditávamos que um pouco de exercício iria ajudá-lo.

A parte complicada foi tentar esquentar a água. O fogão eo combustível era algo que de olhar não dava pra entender como funcionava. Bombamos, viramos e reviramos a bomba de gás tentando ascender o fogão. Todas as tentativas frustradas. Acabamos pedindo ajuda a um rapaz da barraca ao lado. Tato, um argentino sem sotaque argentino no espanhol ou no inglês, super atencioso. Levamos o fogão até sua barraca e ele nos mostrou como fazer. Pareceu simples e ao voltar para nossa tenda tentamos novamente. Que frustrante o fogo ascendia e apagava segundos depois. Tentamos por uns 15 minutos até que Kirk pediu pra eu ir de novo ao Tato e trazer ele. Ele veio e ascendeu, oferecemos chá quente e o convidamos para um bate-papo. A melhor ideia do dia, o rapaz era bem conversador e acabou distraindo um pouco o grupo de doentinhos. Ele é guia de montanhismo na Patagônia e matou a curiosidades de todos sobre o lugar. Kirk contou a sua história no Aconcágua e ficou perguntando sobre outros lugares para se conhecer na América do Sul. Caleb resolveu se juntar e conhecer o argentino que repetia o tempo todo a vontade de ir escalar no Alaska. Os dois trocaram informações sobre a cidade de cada um e as diferenças e similaridades dos dois lugares. Caleb ficou impressionado com o jeito relaxado em relação a segurança com que se levam os turistas para conhecer os glaciares, sem segurança eu diria, nada de cordas ou cadeirinhas.

O bate-papo durou quase 2 horas e depois os mais cansados voltaram para suas barracas.

Eu e Kirk preparamos sanduíches de salame, e outros de pasta de amendoim com geléia. Ben foi o único que conseguiu comer e não passar mal. Ótimo sinal, e com certeza acalmou os medos que tínhamos antes de voltarmos ao Brasil sem subir uma montanha sequer.

O dia foi passando e cada um foi mostrando sinais de melhora, o único a não demonstrar reação foi Augusto. Dava pra ver como emagrecia a cada hora. O pior é que ele desistiu de comer, porque achava que comer só ia piorar e nesse momento estava se desidratando. De manhã havíamos decidido que todos os doentes iriam começar a tomar Ciprus, um antibiótico que tivemos que trazer no kit-med a pedido da agência. Augusto foi o único que começou a toma mais tarde e por isso mesmo devia se o que mais demorava a se recuperar. Horas se passaram e de noite nos reunimos na barraca do Caleb para o jantar. Nada muito substancioso mas quente e acolhedor. Uma sopinha de tomate, e bem picante do jeito que nosso guia americano gosta. Não me pareceu uma escolha sábia porque coisa picante tende a ser agressivo ao estômago e a sopa sem calórias ou vitaminas suficientes para tudo o que a maioria perdeu nos ultimos dias. Depois de uma conversa rápida todas para cama.

Finalmente eu e o Ben tivemos uma boa noite de sono, eu até fiquei cantando na barraca antes de dormir o que me rendeu vários pedidos no dia seguinte. Acho que de fora da barraca minha voz parece boa, porque enquanto o Ben sofria com minha desafinada voz o Kirk e Augusto achou bem relaxante.

Augusto’s headlamp shines as he walks past through the darkness

Waking up at 2.30am in preparation for the ascent of Pequeño Alpamayo, it was clear that Natalia was  feeling quite unwell with stomach problems, and as I looked outside, heavy snow had transformed base camp into a winter wonderland. The mountains around Pequeño Alpamayo were covered in cloud which glowed with the moonlight that managed to get through here and then. As I watched, the clouds were visibly speeding by – one moment the sky over us was clear, the next, clouds obscured everything. Celeb was awake and I asked him if we would be going ahead. Looking towards the mountains, he shook his head: if it was snowing down at camp, with the clouds over the mountains then the conditions up there would be considerably worse. I pointed out the shifting clouds and he said that okay, we would check again at 4am to see if the weather had cleared. I chatted with Augusto for a little and he helped me with a few photos as the camera was playing up.

4am came and I heard Celeb talking with José, our second guide who is local to the region and who has spent his life climbing the mountains in the Cordillera Real. I didn’t quite understand everything they said, but I  didn’t need to as shortly after I heard Celeb saying to us as we sat in the tents that we would not be going up today. Celeb later explained that whilst the clouds had broken, José thought the conditions would be too tricky for us, with us trail-breaking through deep snow. It was a relief in a way as it was clear that Natalia was feeling worse and wouldn’t have been able to make it. We went to sleep. More or less, as Nat was like me when I first arrived, waking up needing more water every few minutes. Not good at all, and I was worried if she would be okay should the weather clear for an attempt on the next day.

Morning light and the barren land around base camp is transformed

Morning came and the camp was brilliant bright with the snow: sun-glasses were well and truly needed. Caleb, Kirk and I were still the only ones who felt well – I guess I felt at around 90% so… good enough. Augusto still had not fully recovered and Natalia… not bad but not great. They decided to stay at camp whilst us three went off for a hike in the snow.

This turned into a hike that lasted six hours and saw us climbing Pico Austria – a 5,000 – 5,300m (not sure exactly how high as it is not clear) peak nearby which can be climbed without any technical equipment. It is a relatively easy climb, though I certainly felt the altitude: after a while, every step that I took was tiring and left me a little out of breath. The trail was straight forward and in São Paulo, down at reasonable altitudes, I would have had no problem whatsoever with the gradient or the terrain, however, after a couple of hours I asked how high Celeb thought we had climbed. He said… “hmmm…. I guess 100 metres or so”… I felt liked we had climbed a thousand. We kept going and got to the top of a pass from where we would approach the peak and chatted about whether I would be able to go on or not. I said that I would, but I would most likely be quite slow… Celeb agreed, though I decided I would give it a shot.

And I surprised myself in that not only was I able to keep going, I was able to keep a decent slow, but rythmic, pace and stay with the others. No headaches with the altitude, no stomach problems or other indications of altitude sickness aside from the occasional need to catch my breath. Slowly but surely, we got to the summit. Though I have been to Everest base camp, this was the first 5,000+ metre peak that I had actually climbed/hiked up and the views… were breathtakingly beautiful, and the sense of achievement was still pretty satisfying. It had been a good day.

Thanks to Casa de Pedra in São Paulo for all your support in making this happen!!

Apresentações feitas vamos as jornadas porque cada dia é uma maratona. A noite antes da ida ao acampamento já é bem exaustiva. Difícil controlar a ansiedade e organizar o tempo para todas as coisas que uma saída de 6 dias na montanha exige. Arrumar a mochila para quem nunca tinha feito isso antes se mostra muito mais complicado do que poderíamos imaginar. Você tem que pensar no balanço, organizar de acordo com as possíveis necessidades e ainda assim tentar deixar tudo o mais compacto possível. Saber escolher bem o que levar e o que deixar, por isso mesmo acredito que montanhismo é um esporte um tanto sujo, por uma bagagem mais leve e mais fácil de se carregar por longas caminhadas o montanhista abre mão de trocas de roupas. AS únicas peças que você leva a mais são roupas intimas e meias. O resto se resume á uma camiseta, um conjunto de calca e camiseta um pouco mais quente, outro conjunto de fleece (um tipo de moleton), uma jaqueta pesada, um corta vento. A maioria dessas roupas você usa diariamente.

Falando assim parece pouca coisa afinal a roupa dá pra colocar em uma mochila de ataque, mas ainda temos que carregar o saco de dormir, as botas para neve, capacete, colchão térmico, isolante térmico, lenços umedecido, papel higiênico, pratos, mugs, e garrafas de água.

Depois de horas e horas conseguimos finalmente terminar essa façanha. Dormimos um pouco e antes das 7am estamos descendo para recepçao nos reunir com todos e checar as últimas coisas. José chega com seu jipe e começa a colocar tudo em cima. Uma grande montanha de mochilas e malas se forma e ele cobre com lona e amarra com cordas de forma com que não balancem ou se perca algo no caminho.

A viagem de La Paz ao acampamento do Condoriri é de mais ou menos 3 horas, passando pela parte do mercado e dos postos de gasolina com filas gigantes, muita fumaça dos carburadores dos carros e uma grande bagunça no trânsito de pessoas e carros. O tráfego aqui é uma verdadeira bagunça carros se enfiando em qualquer lugar, pessoas atravessando e quase sendo atropeladas a cada metro. Não existe preferencial ou sinalização que ajude a multidão de motoristas apressados. A quantidade de lotação e ônibus é impressionante e pelo o que pude entender não existem pontos específicos de parada, as pessoas param em qualquer lugar tanto para subir quanto para descer. É uma grande emoção estar a bordo de um carro aqui, a todo momento você se espreme para um dos lados e suspira aliviado por ainda não ter colidido.

Ao chegar na estrada a vista muda, ao invês de fumaça, casas de tijolos em construção, e  um mar de carros velhos se transforma em um calmaria, a linda cordilheira real ao lado direito, casas de tijolo de barros, llamas e ovelhas do lado esquerdo. Ao passar pelo pedágio várias cholitas tentam nos vender sacos com uma espécie de suco. Ninguém tem a coragem de tentar. E o Augusto fica tentando tirar fotos da chola com a criança presa no pano nas costa. Irresistível não tirar fotos delas todas com sorrisos de ouro e roupas super coloridas. Com certeza as cores das vestimentas é o que dá vida a Bolívia.

Saindo da auto-estrada, entramos em uma estradinha de terra e pedra, com pontes que pasam por cima de buracos que devem ser lagos em alguma época do ano, alguns lagos sobrevivem e congela uma parte fina, deixando a água barrenta com uma textura estranha. As llamas a esa altura estão em toda parte grandes, calmas e com fitinhas coloridas em suas orelhas dão uma graça especial a os campos secos e intermináveis.

Chegamos a entrada do acampamento, daqui partimos a pé até o acampamento cada um carregando a sua pesada e grande mochila, os burros carregam somente as barracas e as malas de comida. Numa trilha de mais ou menos 4 km, passamos por lagos, cascatas, e avistamos o Condoriri com sua imensidão e beleza. Difícil dizer em que momento ele é mais bonito.

Para mim a caminhada até o acampamento foi fácil, preferi manter um ritmo e não conversar com ninguém, segui atrás do Caleb e do Kirk, enquanto o Ben e o Augusto vieram mais atrás conversando e tirando foto o tempo todo, a mais ou meno 15 minuts de caminhada esperei o Ben e chequei se ee estava bem. Ele disse que sim um pouquinho de dor de cabeça, bebeu água e continuamos a caminhada. Uma meia hora depois ele estava se com ânsia e um tanto deconfortável. Ao chegar no acampamento não tinha forças nem para nos ajudar com as barracas, tinha frio e sede. Dei um pouco de água com maltodextrina, mas foi o tempo dele engolir e começar a vomitar. Daqui em diante o dia foi piorando pra ele. Vômito, diarréia e nauseas constantes. Caleb vinha checar o tempo todo e disse ser muito agressivo para ser somente altitude que podia ser infecção intestinal ou algo parecido. Queria levar-lo  de volta a La Paz, mas Ben pediu para esperar até o dia seguinte.  A noite foi intensa e interminável. Acordava a cada 10 minutos pedindo água e indo ao banheiro. Eu estava preocupada e forçava ele a tentar comer, a tentar beber água. Momento tenso para nós dois, ele doente, irritado e frustrado com a possibilidade de não poder subir a montanha e eu tentando fazer ele se sentir melhor, e também frustrada com a possibilidade de perdermos grande parte do dinheiro investido.

Os últimos 6 dias não foram fáceis. Tivemos momentos de frustração, enfermidade, exaustão, frio, fome… Mas não foi tudo ruim não, nessas horas a habilidade de manter o bom humor e ser companheiro é uma arte onde todos do grupo se mostraram mestres.  Por falar em equipe , já não sei direito se contei um pouco de cada um deles pra vocês, e mesmo se já tinha falado tenho a certeza que agora tenho uma opinião mais consolidada sobre cada um, todos muito diferentes mas com uma essência que se completa.

Vou começar pelos guias, Caleb o nosso guia americano vindo direto do Alaska, com seus 27 anos já tem muita experiência de montanha e além de guia é instrutor de diversos cursos de montanhismo, salvamento, técnicas avançadas entre outras coisas, recém-casado e o assunto que mais gosta é sobre sua esposa e sobre como está confuso sobre o futuro, ficar ou não ficar no Alaska. Pra mim é o típico americano perdido dos filmes adolescentes, acredita em todos os mitos sobre a América do Sul, namorou a vida toda a mesma garota e se sente o homem mais sortudo do mundo por ter se casado com ela. Meio calado e desorganizado em relação a alimentação, a frase que mais se ouve dele é “Hot drinks!” fala essa que tem seus momentos felizes e outros irritantes – é assim que ele nos acordar às 2h30 para começar a caminhada. Um rapaz alto e magrelo parece ter mais de 30, mas isso certamente é culpa da exposição constante a sol e ao frio das montanhas.

José, nosso guia local, uma das pessoas mais cheias de vida que já conheci, sempre sorridente, brincalhão e querendo sempre nos ajudar, é com certeza o anjo da guarda de todos nessa viagem. Ele é o responsável em nos levar a todos os lugares, a garantir que caso alguém desista da montanha volte ao acampamento com segurança e está sempre de olho se estamos confusos com todos os equipamentos que temos que carregar durante a longa caminhada ao pico. No seu carro sempre ouvimos o bom e clássico Rock´n Roll com muito ACDC, Black Sabbath e Queen. Ouvimos seus comentários em um espanglish. Sempre que vê eu e o Ben nos saluda com um bom paulistano “Tudo joia?” seguido de uma longa risada. Nos dias de cama dentro da tenda sempre vinha checar se eu estava bem e pedir para eu sair da tenda para não ficar com dores de cabeça. Com seu jeitinho preocupado e observador nos deixa seguro para encarar os próximos desafios.

Augusto, um italiano que vive no Texas, consegue imaginar a mistura disso? Com certeza sua imaginação não faria jús a figura em questão. É ele quem inicia a maior parte das conversas sempre com perguntas e histórias interessantes. Esse musicista e pesquisador cientifíco é sim uma combinação de incoêrencias. A começar pela vida profissional, estudou piano clássico e música por boa parte da adolescencia e vida adulta, como virou pesquisador cientifíco ainda não consegui entender como alguém tão ligado a arte e a criatividade pode ir para uma área tão técnica e burocrática. Um verdadeiro romântico e um solteiro feliz, ainda busca encontrar aquela paixão eterna. Um pouco hipocondríaco, e isso ele assume, foi o que mais se preocupou com meu machucado na boca e praticamente me levou até o médico. Nos dias do acampamento é o que sempre tenta melhorar a qualidade nutricional da comida, tentando fazer com que Caleb evite frituras e comidas picantes. Super empolgado com esse projeto, o tempo todo nos dá ideias e novas opções de mídias e patrocínios.

Kirk, não tem tempo ruim para esse americano de NY que parece a mistura de diversos personagens filmes, antigamente trabalhava em trade markets, hoje é técnico de Hóquei. Tem histórias incríveis dos 3 anos que viajou pelo mundo. Nesse tempo escalou picos como Aconcágua, Kilimanjaro. Mt Mckinley e Cotopaxi, viajou pela África de bicicleta, conheceu os Himalaias nepalês, não satisfeito ao chegar nos EUA resolveu cruzar o país de bicicleta. Um exemplo de superação e alguém que nos faz acreditar ainda mais como esse nosso sonho é possível e que depende de nós mais do que qualquer coisa. Sempre vivaz e nos fazendo rir. É a força motivacional do grupo.

A equipe se completa com os dois personagens que nem precisa de introdução: eu e o Ben.

Illimani atrás de La Paz

Semana pré viagem… Hummm! Tanto a fazer e eu e o Ben parecemos dois idosos esquecidos, cada hora vemos que algo está faltando. Serão 28 dias na Bolívia, tudo será uma grande novidade o clima, as cidades, a altitude, a cultura, o esporte, a paisagem, as pessoas, a comida… UFA, tudo. Adoro me sentir desafiada e de aprender coisas novas, e nada como um mês no desconhecido.

Algumas coisas conseguimos nos preparar como o frio, que compramos diversos layers um pra cada tipo de temperatura; quanto ao montanhismo treinamos os nós e tentamos concentrar o treino em força e resistência; quanto a altitude a Dr Isabela explicou a importância de estar hidratado e que lá mais importante do que nunca é seguir a risca a alimentação de 3 em 3 horas e consumir entre 3 a 4 litros de água por dia…

De todos os fatores o que mais me dá medo é a altitude. Quando fomos para Galápagos ficamos 2 dias em Quito – que é quase 1000 metros mais baixa que La Paz – eu fiquei grogue. Cansada, com dor de cabeça forte e falta de apetite. Não sei ao certo quanto tempo levei pra me adaptar porque para ser sincera não deu esse tempo, viajamos para Galápagos no segundo dia de manhã.

Tudo bem que dessa vez temos 7 dias de aclimatação. Depois encontramos com o grupo da MGI.

O roteiro é assim:

Os primeiros dias serão de aclimatação em La Paz mesmo e nas ruínas de Tiwanaca. Seguimos em direção a Copacabana onde aproveitaremos o Lago Titicaca (o lago navegável mais alto do mundo) onde passearemos de barco e caminharemos bastante em volta. Uma vez aclimatados nas partes baixas, iremos para montanhas mais baixas treinar a parte técnica. A primeira montanha será o Condoriri (15200 pés), depois de aclimatados aqui vamos para o pico Pequeno Alpamayo (17,613′), Ilusioncita (16,896′) ou Ilusion, (17,500′) ou até mesmo completar o Condoriri, que seria demais. Se der tudo certo aqui vamos ao nosso primeiro grande objetivo o Huayna Potosi.  Com 6088 metros, parecendo uma grande pirâmide de gelo é a montanha mais frequentada da Bolívia. Ao terminar esse pico terminamos também a primeira fase da viagem. Depois de 14 dias voltamos a La Paz, mas só por um dia. Certeza que dormir numa cama quentinha e tomar um banho quente será um presente.

A Cordilheira Real

Depois seguimos para o Illimani o pico mais alto da Cordilheira Real, com 6462 metros. Esse é o nosso objetivo. Sabemos das dificuldades, sabemos das exigências físicas e como teremos que nos dedicar à parte técnica nas montanhas anteriores. Mas quem acredita sempre alcança, assim diz o ditado e assim queremos que seja…. Quer dizer pelo menos assim dizia Renato Russo.

É agora a ansiedade bate, afinal escrever o roteiro, preparar as malas, comprar as coisas que faltam… Esses preparativos todos só me fazem ter mais e mais vontade de ir logo…

Nesse mês tentaremos mantê-los o mais atualizados possíveis. E vão acompanhando as aventuras do Paulo por aqui, esse mês pra ele também vai ser puxado semana que vêm tem mais uma etapa da competição de endurance dele, 300km. Toda a força pra ele nessa etapa e pra nós lá na Bolívia.