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1,480km in cycling through the British winter
1,500km in cycling through the British winter

Hoje aqui posso agradecer aqueles que nos ajudam e que o apoio foi de suma importância nessa mais nova conquista.

Obrigado a Casa de Pedra por estar ao nosso lado desde o começo, onde podemos treinar em uma estrutura completa e nos manter condicionado para qualquer desafio: seja escalada, ciclismo, montanhismo ou corrida. Você nos dá flexibilidade para fazer dessa expedição um  sucesso.

Obrigado Dra. Isabella Alencar por acreditar em nós, por estar sempre atenta a tudo que possa melhorar nossa performance, por nos instruir em cada treino e em cada nova modalidade que entramos e por nos ensinar o valor que uma boa alimentação tem na vida de um atleta. Certamente sem a sua dieta esses 17 dias pedalados teriam sido muito mais cansativos.

Obrigado ao Fabio Jobim  com seus treinos na escalada reforçando e desafiando minha cabeça mais e mais, por trabalhar minha resistência e me deixar pronta para esse desafio!

Obrigado a minha família e amigos que me apoiaram todos os dias. Que o 360 Extremes continue me levando a lugares e experiências que exijam de mim superação.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

Naty e Ben em John O'Groats 

Antes de começar a falar do último dia, queria explicar o motivo da falta de fotos nesse post, a verdade eh que o HD com tudo da viagem quebrou e está em conserto, assim que tivermos tudo vamos colocar as fotos desse e dos outros dias nas galerias.

Foi um tanto difícil controlar a ansiedade pelo último dia. Na verdade eram tantos os sentimentos na manhã que o mais complicado era saber a qual dar uma atenção maior. A essa altura o sentimento de vitória e conquista ia tomando conta da minha cabeça mas ao mesmo tempo eu me podia me ouvir falando ao fundo que a expedição ainda não havia terminado e que por mais que tivéssemos apenas 15km a nossa frente, olhando para trás eu pude ver que não houveram dias fáceis, até nos mais leves houveram grandes desafios e aprendizados. O inverno costumava ser sempre o maior dos opositores nessa batalha por conquistar quilômetros, e mais uma vez ele se provou duro.

O dia anterior tinha sido frio mas não houve ventos fortes ou chuva ou neve, assim a expectativa para o dia seguinte era que poderia piorar mas ainda assim não poderia ser as piores condições. Olhando a previsão mostrava que o dia teria ventos de até 60m/H, mas como sairíamos cedo do hotel e a distância era curta talvez conseguíssemos chegar a John O Groats com um tempo razoável.  Grande engano! Acordamos e no quarto já dava para ouvir o barulho do vento, abrindo a cortina víamos flocos de neve ensandecidos e girando de um lado para outro, os galhos das árvores balançava forte numa dança sem ritmo definido e tudo mostrava que a jornada poderia ser curta mas também a pior em dias.

Arrumar as coisas a essa altura é algo simples e rápido, cada um já sabe o que colocar em cada alforje e o que no começo levava meia hora hoje leva menos de 10 minutos. Comer o café da manhã é sempre bom e um tanto curioso, a essa altura ainda me impressiono com a capacidade do Ben em comer English Breakfast na manhã enquanto eu fico no chá com torradas e cereais. Se eu comesse salsichas, ovos e bacon frito com tomate, cogumelos e feijão pela manhã meu dia seria com dores estomacais e diversas idas ao banheiro, mas com ele não tem problema algum. Certamente um estômago muito mais resistente!

Começar a pedalar foi apreensivo no começo, os ventos podem ser confusos, e por mais que tenham uma direção dominante eles se rebelam e acabam mudando de direção. No começo vinha do lado e para variar a luta era para que a bike ficasse num canto seguro da estrada, que não tinham muito movimento de carros, o que ajudou já que assim poderíamos ficar mais no meio da pista. O vento contra o rosto tornava a experiência dolorosa, e olhar o caminho ficava quase impossível. Era um tanto assustador ver as placas de trânsito e dos vilarejos cobertas por neve, todas congeladas; os gramados brancos e as ovelhas todas juntas tentando se aquecer o quanto podiam. As aves no céu lutavam contra o vento e pareciam perder a cada investida, era possível ver elas tentando voar para um lado e o vento as levando para outro. Cheguei a rir da insistência das pobres aves em ir para onde o vento não as deixava sem me dar conta de que eu estava na mesma situação. Mas como que se dando por vencido o vento que me segurava passa a me empurrar e percebo que depois de tantas curvas a estrada me colocou no sentido certo. Parei de pedalar e curti o empurrão, as pernas começar a tremer de frio e me dei conta que precisava manter as pernas movendo para me manter aquecida.

Ver a placa Welcome to John O´Groats!, me fez sorrir, a felicidade de ser bem vinda pelo lugar que almejo chegar há 21 dias é uma recompensa não só por todo esforço, dedicação e investimento nessa expedição mas sim uma recompensa por todo o último ano de treino e estudo, por toda a nossa mudança de vida para estar mais e mais aptos para o 360 Extremes. E passando por aquela placa, pensando em tudo isso sigo pedalando atrás do Ben e sei que ainda não acabamos, aquela placa é um sinal de estamos completando mas o Final é no marco e não na placa. Seguimos em frente, paramos em um Pub para saber onde exatamente estava o marco e olhando para fora da janela deles pude ver como o vento e a neve pareciam ganhar força. Menos de 1 km nos separava do nosso pódio, então com um sorriso largo subimos nas nossas bikes, clipamos nossos pés e pedalamos. Olhando em frente ansiosos em avistar algo parecido com o que deixamos em Land´s End. Não vou mentir falar que ver algo simplesmente pintado no muro foi um tanto decepcionante, mas mesmo assim descemos das bikes pulando de alegria. Aquele era o nosso momento, emocionados nos abraçamos, rimos, gritamos. Comemoramos do nosso jeito, e o frio estava ali a toda a nossa volta, se mostrando o parceiro inseparável dessa aventura. Eu bem que queria ter uma garrafa de champagne na hora para imitar os corredores da F1. Mas o jeito foi tirar a foto com o rosto gelado e banhados pelas gotas da chuva.

Entramos na lojinha e compramos uma caneca para simbolizar o nosso troféu.

Mas depois de todo esse sentimento de vitória tivemos que subir de novo nas bikes e voltar para o pub para pedir um táxi. Pedalar de volta aqueles 600m finais, subindo na bicicleta eu já realizei que isso seria muito, mais muito difícil mesmo, só não percebi que seria doloroso. O vento incrivelmente forte me jogava para trás e parecia uma parede que não me permitia sair do lugar, mais uma vez senti tapas do vento contra meu rosto e olhar para frente era impossível. As gotas acertavam meus olhos por cima dos óculos e me obrigava a fechá-los. Pedalei com força, tentando me guiar pelo asfalto da rua o quanto pude, olhando para baixo. Avistei o pub e o Ben pedalando em frente, o vento me batia com força e parecia não me querer de volta aquele lugar que me parecia quente, protegido e seguro. Uma hora desci e empurrei a bike. Chorei aqui, chorei de dor, meus olhos doíam por causa do vento e da neve. Subi na calçada do pub e o Ben veio me ajudar. Entrei no pub e lá ele me abraçou e me confortou. Quanto frio, quanta força um simples sopro pode ter.

Essa expedição acabou, depois fomos para Orkney Island ver as paisagens, continuar na companhia dos ventos mas com menos oportunidades de pedalar. A jornada em busca de experiência e preparo físico e mental para a grande expedição continua e esse ano com ainda mais aventuras, treinos e aprendizado.

 

The end is in sight. Almost

The end is in sight. Almost

Ao acordar de manhã passo a me sentir um pouco mais matemática do que comunicóloga, tudo isso porque inconscientemente me pego fazendo contas de quanto percorremos e de quanto ainda falta, e nessa manhã a resposta da equação me fez sorrir mas também me fez pesar. 100km para o nosso objetivo ser alcançado, tão pouco para que toda essa rotina de desafios e aprendizado se encerre, nessa pequena equação vejo mais que números, porque nesses 1400km percorridos vivi cada metro, suei cada subida, superei cada vento, me aqueci a cada mudança de tempo e cresci como pessoa, como ciclista, como cidadã. Tantas pessoas nos receberam com tantas histórias, conselhos e uma mão estendida para qualquer duvida ou problema. Curiosos pelo caminho nos chamavam de loucos e perguntavam sempre no porque de encararmos a LEJOG nessa época do ano. Os únicos a fazer isso agora, os únicos vistos por aqueles que nos acolheram, por aqueles que nos atenderam nos cafés e lojas de conveniências. O motivo talvez seja mais claro hoje do que quando saímos, é simples: aprender a lidar com todas as surpresas que as mudanças climáticas podem nos pregar. Acredito que isso conseguimos: lidamos com ventos de todos os lados, chuva forte, granizo, neve, icy, tudo isso junto, o dia de ameno e sem ventos se transformar em questão de segundos numa tempestade… Tivemos dias longos, semana inteira sem descanso, melhoramos nosso ritmo, melhoramos nossa potência, criamos uma sinergia e uma rotina nossa. E chega a todas essas conclusões de manhã, ao fazer a simples equação de quanto foi e o que falta, me entristece um pouco, porque parece que estou mais perto de parar de aprender, de parar de melhorar, de parar de conhecer.

The route to Keiss

The route to Keiss

Puxo meu pensamento para o fato de que hoje o dia não será fácil, a rota é montanhosa e promete uma subida interminável logo nos primeiros 20km, o clima dá pra ver que não está o mais amigo e se no dia anterior já não havia opções de parada, nesse então teria menos ainda. Pelo menos sair do Inn era algo um tanto motivador, o lugar era péssimo e eu não via a hora de chegar na próxima parada.

A ideia inicial era pararmos em Wick, mas resolvemos percorrer a maior distância possível porque o clima ia piorar ainda mais no dia seguinte. Sair de Brora foi bem tranquilo, a montanha lá no fundo com uma subida constante, longa mas não muito profunda. Agradeci o hotel ficar há uma distância razoável da subida porque consegui aquecer antes. O nosso ritmo estava tranquilo sem muita pressa. Essa seria uma subida bem longa de mais ou menos 15km, superado isso descemos uma ladeira de graduação 13% por uns 3km e no fim um curva fechada e uma subida nada amiga de 13% por mais 3km. Mais uma vez me vi pensando “porque não construíram uma ponte ali!”. Eu parei parar tirar fotos logo na curva e fazer vídeos do Ben, o problema depois foi subir na bike e encarar a subida, a estrada pra variar não tinha acostamento e era mão dupla, e com os ônibus passando ficava um tanto inseguro subir e começar a pedalar. Empurrei a bike até depois da curva e dali pedalei. Paramos no topo, depois de comemos umas barrinhas, tomamos água e combinamos de parar no primeiro serviço para tomar algo quente. Mas quanto mais norte estamos mais difícil fica de encontrar paradas. Passamos por diversos vilarejos, em Helmsdale acreditei que acharíamos algo por parecer um lugar maior que os outros, mas nada tudo fechado, entramos em Lybster e a cidade era super pequena e parecia um tanto abandonada, quase ninguém na rua os café e restaurantes fechados mas por sorte um mercadinho estava aberto e lá comemos e bebemos café. Dali em diante o desafio foi o frio mas sem muitas subidas significativas.

Looking over Berriedale, just north of Helmsdale; pausing for a break up the hill

Looking over Berriedale, just north of Helmsdale; pausing for a break up the hill

Um pouco antes de Wick o vento ficou mais intenso e vindo pela lateral, dava pra ver as ovelhas todas amontoadas tentando se aquecer e se proteger, mas nós não tínhamos muita opção além de pedalar. Chegando em Wick a cidade era bem maior, um mercado logo na entrada e não resistimos de parar para comprar algo para comer. O triste dessa parte é que na hora de continuarmos o Ben deixou o óculos cair sem perceber, parou uns 5 metros depois sentindo falta mas deu pra ouvir o som do carro atropelando e destruindo o seu óculos. Ele ficou bem chateado, mas pelo menos isso aconteceu agora e não há 17 dias atrás.

Seguimos até Keiss onde ficamos num Inn. O dia seguinte seria curto, mas olhando a previsão na internet não era nada animador, era certo que no dia seguinte encararíamos as piores condições da viagem!

 

Accompanying the single-track railway line northwards, passing plenty of small bridges on the way

Accompanying the single-track railway line northwards, passing plenty of small bridges on the way

Deixar Inverness deu um apertinho no peito, a cidade parecia ter tanto para se conhecer mas tivemos tão pouco tempo que tivemos que deixar para uma próxima oportunidade. A essa altura já sei que quando o Ben fala que o dia vai ser sossegado tem alguma pegadinha, e hoje não foi muito diferente. O dia estava bonito, e a rota seguia perto do mar quase o tempo todo. Seriam quase 94km e o clima estava com uma cara amigável no começo do dia. Logo nos primeiros 15km passamos por tantas pontes que perdi as contas, o bom foi que como não ventava tanto passar por elas não era algo tão complicado. O caminho todo tivemos que dividir a pista com os carros, uma pista pra ir outra pra voltar, o acostamento continua inexistente. Os motoristas sempre nos respeitando e nos ultrapassando com segurança, a diferença entre os ingleses e os escocês pra mimm é clara: a velocidade com que eles passam, na terra das ovelhas o limite de velocidade deve ser bem mais elevado, e alguns carros passam tão rápido que só os vejo fazendo a curva lá na frente.

Stats - Inverness - BroraO frio ameno deixa o pedal mais leve, em compensação acabamos suando um pouco mais embaixo da roupa e temos que refazer os layers, que com menos uma camada na descida nos esfria bastante. Algumas subidas pelo meio do caminho mas nenhuma que ficasse na memória. O grande problema é não ter onde parar para comer, tomar um café, ir ao banheiro ou simplesmente parar. Nesse dia eu parei atrás de moitas para fazer xixi, porque se fosse esperar ia ter que parar depois de 80km. Diversas placas apontavam caminhos ara castelos e muralhas, mais um arrependimento, não tínhamos tempo de desviar a rota e ficar parando para conhecer. Antes de Golspie não conseguimos não resistir de parar para admirar o pôr do sol, lindo demais.

Enjoying the view along the coast near Brora at dusk

Enjoying the view along the coast near Brora at dusk

Depois dessa parada na saída de Golspie uma subida bem paredão, pedalei sem acreditar que o Ben não havia falado nada, mas fui mais uma vez pedalando com paciência. Pude ver que a subida continuava numa curva fechada e me lembrei das tantas montanhas que passamos: Mandeep, Shap e a montanha na entrada de Lancashire.

E pensei certamente essa deve ser tipo aquelas, longas, sinuosas e intermináveis. Para a minha alegria, depois da curva ela terminava. Segui esperando por mais, mas nada. Subidinhas tão suaves que não tinha nem o que falar. O B&B que ficamos era bem na entrada da cidade, que não era muito grande. Em cima de um pub, e o quarto não era lá grandes coisas. O banheiro parecia ter um monstro vivendo escondido, cada vez que você ligava a torneira, o chuveiro ou dava descarga, um barulho grave e alto começava e só parava uns 5 minutos depois que você parou de usar a água. O pior de tudo é que foi o lugar mais baratinho que arrumamos na cidade e um dos mais caros da viagem até agora. Um absurdo na minha opinião mas como não tinha opções de warmshower ou couchsurf e também é bem difícil achar lugares abertos nessa época do ano o jeito foi não reparar no lado ruim e aproveitar a nossa única noite na cidade.

De Newtonmore a Inverness

Posted: February 27, 2013 by Natália Almeida in Cycling
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On the bridge over the River Findhorn

On the bridge over the River Findhorn

Os dias em cima da bicicleta são duros. Tem momentos em que acho um tanto sofrido, mas se aprende tanto que não tem como terminar com arrependimentos! O dia anterior foi daqueles em que a cada quilômetro algo novo aparece pedindo soluções, é a bike que quebra, a estrada que fica muito escorregadia ou a rodovia sem acostamento e carros passando a milhão do nosso lado. Com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo a nossa cabeça entra em estado de alerta constante. O lado bom é chegar ao fim do dia com a meta cumprida e os desafios ultrapassados. Dá um gostinho bom na boca pensar que nos adaptamos, que consertamos, que nos superamos. Noto que a nossa confiança vai sendo construída a cada nova experiência vivida. Uma confiança justificada! E a minha postura na bicicleta é a mesma com que vivo a minha vida. Sou segura e confiante, mas sempre dessa maneira, sempre construindo tijolo por tijolo, para quando eu procurar o porque dessa minha  segurança eu possa ver os motivos. Olho para frente e sei que ainda tenho muito a aprender mas dou muito valor pra tudo o que coloquei na minha bagagem!

Waking up in Newtonmore, ready for the day ahead

Waking up in Newtonmore, ready for the day ahead

Acordar em Newtonmore foi um tanto especial, sabia muito bem que a jornada não havia acabado, ainda faltavam +/-300km, e o dia lá fora era frio, nublado e alguns flocos de neves caiam. Aprendi a desconfiar do tempo que na Grã-Bretanha parece gostar de pregar peças e mudar de uma hora para outra. Não reclamo desse temperamento do inverno porque certamente ele foi o nosso grande professor até agora.

O dia de hoje seria um tanto curto +/- 75 km até Inverness. O Ben estava um tanto ansioso para a chegada já que quando ele era pequeno ele costumava ir para lá sempre. Tinha diversas memórias da ponte e das tarde passeando em volta do rio.

A rota escolhida pelo Ben a princípio seguiria pela A9, mas um dos donos do B&B nos sugeriu ir pela ciclorota que passaria pelas cidades de Kingussie e Aviemore. Desconfiei um pouco dessa sugestão, porque no dia anterior vimos que as condições das ciclovias e estradas secundárias nessa época do ano são péssimas, a princípio foi uma boa pedida mas uma hora tivemos que desistir já que a estrada sumiu embaixo de tanta

Enjoying a large meal at Zizzi

Enjoying a large meal at Zizzi

neve.

Voltar para A9 não era algo que me deixava mais feliz, essa rodovia parece não ter limite de velocidade e não ter um acostamento não me deixava confortável, para meu alívio tivemos alguns trechos de faixa dupla, e também não posso reclamar dos motoristas britânicos que se arriscam entrando na contra-mão para nos ultrapassar. Um dia de muito mais trabalho mental que corporal, já que a rota teve poucas subidas, e as que passamos tinham menos de 10% de graduação.

Uma descida de 30km nos levou até a entrada de Inverness, uma cidade bem bonita, com pontes, castelos e catedrais. Chegamos cedo, 15h30, e assim deu pra passear bastante. O Hotel ficava em frente ao rio e perto do centro. Descansamos um pouco, e saímos para comer. Escolhemos um restaurante italiano que parecia ser bem legal. Pedimos entrada e como a pizza costuma ser individual cada um pediu a sua. A maior surpresa do dia foi justamente a janta, a pizza era gigante, ainda bem que era gostosa!!!

Natalia with Brian

Natalia with Brian

Brian demonstrou vontade em pedalar conosco na noite anterior mas o nosso horário de saída era um pouco cedo para ele então ele não garantiu que iria nos acompanhar por parte do trajeto. Na manhã seguinte fiquei um tanto contente ao ouvir os passos dele pelo corredor. Sem muita correria pegamos nossas coisas, e descemos para encontra-lo na cozinha, chegando lá mesa posta com torradas de bagel manteiga e mel e chá preto. Pra variar acordamos com tanta fome que parece que não comíamos a dias, e mesmo depois de um jantar farto como o da noite anterior o nosso corpo parece não parar de pedir mais e mais comida. Então sem cerimônia comemos cada um dois bagel e tomamos chá. Brian queria que experimentássemos no pedal umas barras de cereais que ele normalmente come e guardamos na mochila pra mais tarde. Ele não gostava da ideia de pedalarmos pela A9 então resolveu nos levar até a entrada da ciclovia que nos levaria até PitLochry.

A estrada pequena, sinuosa e belíssima era ladeada por árvores e era possível ver grupos grandes de veados correndo por entre elas. Achei graça mais uma vez em ver os cavalos vestidos com roupas enquanto pastavam nas muitas pequenas fazendas que passávamos . Outra coisa curiosa foi reparar o medo que as ovelhas parecem ter dos ciclistas, nos olham intrigadas e quando nos aproximávamos corriam para longe, os carros muito mais barulhentos não as repelem como nós, os cavalos não nos dão a menor bola e já os veados sempre param para nos olhar de longe. Seria interessante entender o que cada um dos animais pensam de nós!

As subidas no trajeto variam de graduação e distância, mas toda a beleza a nossa volta tirava um pouco do peso do esforço, na verdade algo que nos fazia pedalar um pouco devagar ajudava para admirar a nossa volta. As descidas sempre cheias de curvas não nos permitem abusar, o Ben chegou a uma máxima de 41km/h e eu não devo ter ficado muito atrás.

Nosso parceiro do dia ia sempre apontado as belezas e falando sobre o que gosta ou desgosta. Os poucos carros que apareciam ele cumprimentava, e os que vinham de nossas costas ele sinalizava se podiam ou não nos ultrapassar, uma relação ciclista e motoristas tão admirável e respeitosa que vi como o que eu penso está certo. Ao pedalar nas estradas toda a relação deve ser mútua, nós ciclistas temos que zelar pela segurança dos motoristas e respeitá-los e ter o mesmo em retorno. Às vezes acho que o problema está nesse eterno julgamento de quem é melhor aquele que dirige ou aquele que pedala, sendo que seria muito melhor e simples lutar por uma coexistência saudável. O Ben pode ver o que eu sempre venho falando, e acredito que aprendeu um pouco em como ser mais amigo de quem dirige.

Paramos em Dunkeld para usar o banheiro e comer. Daqui para frente teríamos a companhia de Brian por pouco tempo. Descemos um longa ladeira que terminava na A9, ele nos deixou na entrada da ciclovia que seguia lado a lado a rodovia. Nos desejou sorte, e disse que iria ficar torcendo por nós. Mais uma despedida, mas agora provavelmente a última de um anfitrião nessa jornada. Seguimos pedalando, a ciclovia não era das melhores mas também não era das piores, algumas poças de água mas sem sinal de icy, e algumas horas a ciclovia desviava para uma estrada mais afastada, mas por pouco tempo. De repente, a ciclovia acabou e nos deixa numa rua, seguindo a rua ela não tinha saída e nos vemos tentando entender pra que lado vamos, mas nada parece ser a continuação da rota. Confusos e tentando entender, chegamos a pensar em seguir pela A9, mas olhada a estrada daqui entendemos a preocupação em ir por ela – os carros passam em alta velocidade numa pista única e sem acostamento o que não nos deixa tão confortável de pega-la. Perguntamos no posto e no correio, e descobrimos que a rota dá uma pequena volta, que para seguir na ciclorota devemos seguir a estrada que sobe o morro e depois seguir as placas. A subida é constante e um tanto íngreme e vamos um tanto inseguros se estamos indo no caminho certo. Lá em cima as placas sinalizão pedem para virarmos cada hora para um lado e aí já não sei mais se estamos indo para o lado certo, ainda bem que temos o GPS e o Ben pode checar.

The route from Blairgowrie to Newtonmore

The route from Blairgowrie to Newtonmore

Nessa estrada só fazendas, pra qualquer lado que se olhava, no fim algumas casas e uma descida íngreme, longa, sinuosa e com um pavimento péssimo, no fim avistamos de novo a rodovia e a ciclovia na lateral. Seguimos por essa rota que parecia gostar de sair de perto da rodovia e dar voltas por trás dos vilarejos. A bicicleta do Ben começou a fazer um barulho a princípio achamos que era algo que poderia esperar até John O´Groats mas foi piorando durante todo o pedal, e a rota de hoje cheia de estradas sujas e sem cidades com estrutura por perto começou a nos deixar mais e mais apreensivos. Fui pedalando atrás tentando identificar da onde vinha o barulho, fui reparando que fazia somente quando o Ben pedalava e durante as subidas diminuía. Paramos diversas vezes para checar os racks, os raios e tudo mais que poderia ser, o Ben começou a achar que o problema era com as ball bearings. O jeito foi pedalar e torcer para checarmos em PitLochry rápido já que esse era o lugar mais próximos que tínhamos certeza de ter uma bicicletaria, e para nossa sorte chegamos depois de uns 40 minutos e a loja ficava bem na entrada da cidade.

Os donos da loja foram super atenciosos, enquanto arrumavam a bike, fomos a um restaurante comer e nos aquecer um pouco. Quando voltamos, a bike estava arrumada e o problema era exatamente o que o Ben imaginou. Eles nos convidaram para um café e conversamos sobre essa aventura. Eles não podiam acreditar na nossa escolha de época para fazer a LEJOG. Curiosos nos perguntavam qual seria o planejamento do dia. Falamos que iriamos até Newtonmore pela A9, e pude ver a cara de terror que eles fizeram. Disseram que o tempo muda muito rápido na região e que não chegaríamos lá já escuro e que a A9 era perigosa demais para irmos por ela. Começaram a nos dar telefone de hotéis em cidades mais próximas e nos pedir para seguirmos a rota de bicicleta que é um pouco mais longa mas mais segura. Aceitamos a sugestão na rota mas quanto até onde pedalarmos não tínhamos muito espaço no nosso planejamento para não cumprir a meta do dia. Estavamos confiantes que poderíamos apertar o ritmo mas se soubéssemos que nesse dia ainda iríamos encontrar neve e icy pelo caminho talvez tívessemos repensado no tempo, mas esses desafios eu deixo pra contar amanhã!

 

On the Road Bridge

On the Road Bridge

A noite anterior foi de muita cerveja, comida vegetariana e bate-papo com o Charlie. Dormimos um pouco tarde mas o plano ainda era o de acordar cedo, agora mais do que nunca queríamos ver a Melanie pela manhã e nos despedirmos. E assim foi, acordamos cedo, umas 7am, arrumamos o quarto, checamos se tudo estava guardado, nos trocamos e descemos. Na sala Melanie e Charlie tomavam café, e deu pra notar pelos olhos apertadinhos da Mel que a enxaqueca não tinha melhorado. Deu um certo aperto no coração ver a cara de quem ainda sentia dor. A despedida foi rápida, ela tinha que ir trabalhar e ficamos lá eu e Ben, tomando chá e comendo torrada com geleia e pão caseiro.

Colocamos os alforjes, checamos os freios e quando estávamos terminando Charlie chega com Millhouse. Papeamos mais um pouco, ele nos dá a indicação de uma bikeshop em Perth caso precisássemos, o dono é amigo deles, papeamos mais e partimos.

Saying goodbye to Charlie

Saying goodbye to Charlie

Sair de Musselburgh foi bem bonito, pedalamos pela praia e foi bonito ver as gaivotas, e as pessoas passeando com seus cães. Eu teria gostado se o caminho todo fosse assim, porque apesar do frio ver o mar é sempre algo que me relaxa. Em Edimburgo continuamos tentando evitar as ruas e avenidas da cidade, porque como toda grande cidade os motoristas estão menos cuidadosos, por isso depois da praia fomos por umas ciclovias por dentro de parques. Um tanto confusas e algumas vezes um tanto alagadas mas certamente mais seguras. O que me chama atenção nessas cidades europeias é a quantidade de idosos correndo, andando e pedalando, apesar da idade eles continuam super ativos, queria ver mais isso nos parques de São Paulo.

Sair de Edimburgo foi demorado, não sei explicar bem porque, acho que depois de pedalar em estradas e passar por tantos vilarejos você fica mais ansioso para ver placas de bem-vindo e depois a de obrigado por dirigir de forma segura, e as grandes cidades são maiores mesmo de extensão.

A rota passou pela Forth Road Bridge, uma ponte suspensa que liga Edimburgo com o norte do país, atravessando o Firth of Forth. A ponte é bem bonito e antes dela tem um mirante, onde paramos para tirar fotos e usar as facilidades. Ao pedalar pela ponte é possível sentir o tremor dos carros passando um tanto estranho, dela é possível ver uma ponte vermelha que é usada pelo trem e em uma das colunas de sustentação tem um ilha com uma construção antiga.

The route

The route

Do outro lado da ponte a cidade continua numa correria intensa, a expectativa era de poucas opções de paradas no caminho então paramos numa padaria por aqui compramos um café e um enrolado de linguiça, o café era terrível e o enrolado não ficava muito atrás. Uma escolha de parada infeliz para quem não esperava por muitas. A maior parte da rota saindo dali foi por uma estrada pequena de pouquíssimo movimento de carros e sem nada de comércio. Bem calmo e bonito, o tempo não estava nada mal já que não chovia nem ventava. Algumas subidas mas nada demais, a pior já havíamos passado que foi logo depois da ponte. O nosso ritmo foi bem calmo e proveitoso, paradas para fotos e lanches e curtindo cada segundo. Ao ver a placa de declive de 12% mantive a calma, a descida com curvas e bem profunda me preocupava por que nas descidas o risco de ter gelo no final é mais alto, então controlei a velocidade e evitei qualquer trecho que se mostrasse arriscado. Depois disso teve mais outra descida menos acentuada mas mais longa. A estrada sossegada começava a dar lugar a uma cidade maior de novo, Perth. Chegamos aqui por volta das 16h então paramos só para ir ao banheiro comer lanches que tínhamos na mochila e seguir em frente, apesar de Blairgowrie ser perto não queríamos chegar no escuro. Os 25km até o nosso destino foi em sua maioria plano e em estradas ladeadas de grandes árvores.

Above the Motorway towards Perth

Above the Motorway towards Perth

Há uns 10km um ciclista que vinha do lado oposto da estrada nos cumprimenta, minutos depois o vejo do meu lado me cumprimentando de novo, o olho surpresa sorrio e retribuo o Hi!, mas ele continua com o sorrisão aberto me olhando e achando estranho pergunto se tem algum problema. Ele ri e diz: Natália Eu sou o Brian! Eu acho graça peço desculpa e grito para o Ben. Não esperava que o nosso anfitrião fosse nos buscar no caminho. Ele pedalou conosco até a sua casa e chegando lá nos serviu chá quente e um pão de tomate seco e berinjela delicioso. Fomos a sala conversamos sobre essa viagem, contamos do 360 e ele nos falou de suas diversas pedaladas pelos EUA. Depois subimoss para o que mais esperamos depois de pedalar no inverno: um bom banho quente. E ao descer lá estava Brian com a mesa posta, uma deliciosas sopa de legumes e frango e quando achamos que acabou ele me tira pizzas do forno. O Ben que sempre fica muito faminto depois de pedalr longas distâncias olhava mais que feliz pela inesperada janta. Eu comi um pedaço, e Brian vai e me tir um torta de blueberrys da geladeira, parecia deliciosas mas eu já não aguentava comer mais nada. Depois de insistir para eu ao menos experimentar me rendi ao filete, e assim me arrependi do pedaço da pizza. Se eu soubesse da sobremesa talvez tivesse escolhido melhor minhas porções. Mas tudo bem, a única tristeza da noite foi pensar que daqui para frente não teríamos mais companheiros do warmshowers e couchsurfing para nos receber, daqui para frente seria hotéis e B&Bs.

Map of Edinburgh

Map of Edinburgh

Acordar de manhã com a certeza que não vamos pedalar é bem estranho a essa altura. Mesmo sem despertador você acaba acordando cedo e com aquele ânimo agitado de que a estrada lá fora nos espera. Depois de tantos dias de estrada, pedais longos, cidades, pessoas, fotos, chuva, vento, neve, sol e tudo mais, seu corpo e sua mente mudam um pouco de funcionamento. Parece que você muda a voltagem e de 110V você vira 220V, então você fica super agitado no começo do dia e já acordamos morrendo de fome e mesmo sem pedalar nosso corpo parece pedir algo a cada uma hora e lidar com tudo essa energia extra e esse pedido por mais energia é algo complicado. Até que ponto a fome é fome ou é seu corpo querendo garantir carboidratos para uma jornada de pedal que na realidade não vai existir no dia. O melhor jeito é se ocupar. E estávamos com os hosts certo para isso.

The Witchery

The Witchery

Ao descermos para tomar café da manhã Charlie estava na sala com a mesa posta, Melanie já havia saído para trabalhar, sentamos a mesa, tomamos chá, comemos torradas com manteiga e geleia e conversamos. Conversamos bastante mesmo, Charlie é ator e tinha diversos causos para contar, o que ele conseguia fazer muito bem dando uma certa graça a tudo. Rimos muito e trocamos ideias e opiniões sobre trabalho e aventura. Ele acha todo esse projeto inspirador, e encontrar alguém que entende o porquê do 360 sem termos que explicar é um tanto incomum e motivador. Ele e Melanie passaram um ano em Nova Zelândia, onde 4 meses foram dedicados a uma expedição de bicicleta pelo país. As histórias contadas por ele reunidas as nossas até agora sinceramente daria uma ótima comédia. E me fez ver cenários de toda a expedição oficial que antes eu não poderia imaginar. Charlie disse que fez sua rota confiando em mapas e as vezes no mapa marcava uma cidade que na verdade nem existia mais. As pessoas não moravam mais na região, que estradas que era ditas como boas na verdade era péssimas e as vezes sem asfalto, estrutura e nada do que ele esperava. Tudo bem que hoje temos ainda mais opções de checar do que ele teve há 6 anos atrás.

Depois de papear por horas, começamos a nos arrumar para ser um pouco turista. Antes de sair Charlie pediu uma ajuda com as galinhas que ele e Melanie tem como bichos de estimação no quintal mas que insistem fugir para casa do vizinho. Foi engraçado vê-los tentando dar um jeito naquelas aves desengonçadas e teimosas. Problema resolvido fomos para o centro de Edimburgo, andamos pela cidade, tomamos um café e fomos a atração que mais nos recomendaram: Mary King Close. Eu realmente não recomendo a ninguém, achei caro e um tanto chato. A história é um tanto interessante afinal essa é a rua mais antiga e intocada de Edimburgo e imaginar como as pessoas moravam em 1600 é algo interessante mas andando pela cidade você consegue ver esses closes em todos os lugares e uma boa pesquisa no wikipedia te daria acesso as histórias.

Depois encontramos com Paulo, papeamos um pouco, deixamos com ele o saco de dormir para ele levar para Londres e fomos de volta para nossa casa da noite. Lá fomos recebidos por Charlie com batatas, vegetais, haggins veggie e cerveja – Melanie infelizmente teve uma crise de enxaqueca e não pode nos acompanhar. Mais conversas e mais conversas. Uma noite mais que agradável e mais um casal que queremos manter contato.

Arriving in Scotland - the first time for Natalia

Arriving in Scotland – the first time for Natalia

Que o dia seria longo a gente já sabia mas que seria difícil deu para notar só de olhar pela janela do hotel, nevava lá fora e isso seria um desafio totalmente novo para nós. Nenhum de nós nunca havia pedalados nessas condições e o que cada um sabia era o que tínhamos lido em blogs e matérias. Cada um arrumando seus alforjes, e como estávamos em quartos separados não dava muito para saber como foi a noite do Paulo. Às 7h30 ele bate em nossa porta e a certeza era que estávamos atrasados para o café da manhã. Mas infelizmente o motivo era outro, ele teve uma noite péssima com dores no joelho e estava um tanto receoso em enfrentar outro dia longo. O grande problema com dores no joelho e articulações é que não dá pra você se autodiagnosticar, e às vezes é algo simples e outras algo super grave. O que menos queremos esse ano é uma lesão que impossibilite todo o treino que planejamos para 2013, então ele ir a um médico nos pareceu o mais sensato.

Fomos com ele até a estação de trem e combinamos de nos encontrar em Edimburgh, ele teria quase 4 dias de descanso e dependendo do que o médico dissesse poderia continuar o resto da jornada conosco.

Começar a pedalar em 2 foi um tanto estranho no começo. Porque depois de tantos dias consecutivos você cria uma dinâmica e um ritmo, agora que somos dois os primeiros quilômetros foi de adaptação de ritmo e cadência. A cada metro esse dia parecia não melhorar, logo nos primeiros 10km eu percebi que a minha constante preocupação quanto ao peso que o Ben carregava na bike dele me fez colocar muito mais peso na minha, minha bicicleta parecia ter dobrado de peso de um dia para o outro. As subidas que normalmente faço sem problemas pareciam bem mais difíceis com tanto peso. Mas fui administrando as marchas e conseguindo transpassar os aclives no caminho. A neve batendo na cara é algo delicado, e até gostoso, bem diferente do granizo e da chuva. Tivemos momentos com bastante vento mas nada demais. Toda a paisagem do dia foi pintada de branco e dava um ar dramático a todo o pedal. Tudo parecia claro, belo e triste.

Por mais que o dia fosse longo e meu ritmo mais lento por conta do peso, não resistimos as paradas para fotos ou simplesmente olhar a volta.

A rota era bem montanhosa e com 3 picos principais, o primeiro uma subida longa e constante de +/- 8km, que superamos com facilidade graças a distração da beleza do dia, as duas subidas seguintes eram mais curtas, mais íngremes e com muito vento. Ainda bem que a vista de Selkirk de lá de cima era muito linda e nos fez pensar que valeu a pena o esforço. Dali em diante uma descida profunda e o resto mais ou menos plano.

O que percebi nesse primeiro dia na Escócia é que o tipo de asfalto escocês é mais áspero e te obriga a pedalar inclusive nas descidas, não existem muitos cafés, postos de gasolinas e lugares para breaks, hoje só achamos um lugar em Hawyk a mais ou menos 10km de Galashiels.

Não sei explicar o que me fez mais feliz ao chegar na casa dos nossos warmshowers anfitriões Strachan e Alex, se foi não ter que subir a rua que começa logo depois do prédio deles ou o fato deles morarem num apartamento no térreo e não tive que subir escadas essa noite.

Eles nos receberão super bem, cheio graça e com muitas histórias. Uma noite divertida e de muito bate-papo.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

O dias até agora não tem sido dos mais fáceis.

Como eu disse no post anterior as bagagens do Paulo se perderam no meio da conexão e para reencontrá-las tivemos que fazer diversas ligações, ele teve que ir ao Aeroporto mais de uma vez e isso tudo levou mais de um dia para se resolver. A família do Ben já estava oferecendo todas as bikes e roupas que ele poderia precisar. Mesmo assim não seria nada confortável fazer uma viagem dessas com coisas emprestadas e com as suas sumidas. Eu não podia remarcar a minha ida a Penzance, então eu e o Ben viemos ontem. O Paulo conseguiu recuperar as suas malas e veio para cá no trem das 7pm.

The beginning of the journey

The beginning of the journey

A falta de sorte não parou por aí. Ao chegarmos aqui em Penzance a ideia era montar as bikes e seguir rumo ao hostel pedalando – a distância de Penzance a Lands End é de mais ou menos 17km. Mas a bicicleta do Ben deve ter colidido no avião ou veio com algo pesado em cima, porque o câmbio está amassado e a princípio pegava nos raios da roda. A minha tem problemas no freio. Acredito que a mudança de temperatura deu uma desregulada geral. Demos uma mexida e conseguimos arrumar um pouco mas não 100%.

Se o trem não tivesse atrasado poderíamos ter resolvido tudo ontem mesmo. Mas chegamos aqui já era escuro e a Bike shop estava fechada. O trem do Paulo também atrasou invés de chegar aqui a meia-noite ele chegou quase 3am.

Tudo isso nos fez chegar no consenso de atrasarmos o planejamento e começarmos o pedal amanhã.

Como tudo que é planejado direitinho. Esse dia parado aqui não programado nos leva a um efeito domino porque perderemos o dia de descanso em Bristol e também temos que avisar as casas que iremos ficar que chegaremos atrasados.

Dos males o menor.

Aproveitamos o dia de hoje para filmar e conhecer a região. A cidade é fria mas com lindas paisagens. Tiramos a foto do marco de Lands End e o Ben teve bastante vento e tempo para brincar com seu brinquedo novo: uma pipa. O que nos gerou diversas situações legais a pipa quase me acertando e depois quase “matando” o Paulo. Só ouvi os gritos do Bem para ele correr da pipa desgovernada que fazia piruetas e rajava em alta velocidade pelo ar. Uma pena porque com isso as cordas se enrolaram toda e tivemos que acabar com a brincadeira. A fome apertou e foi hora de procurarmos um lugar para comer. Acontece que a cidade é pequena e tem poucas opções para comer e nessa época do ano ainda nada abre. Uma caminhada longa até o pub mas com lindas vistas do alto para a enseada. Que por mais frio que fosse tinha alguns surfistas investindo nas poucas ondas no mar. Comemos e até experimentamos a cerveja local, recomendo muito a Cornish Tribute.

Depois foi reorganizar as malas e papear muito regados a chá.

Que meu próximo post seja recheado de aventuras nas estradas inglesas.

A neve cai que cai em Londres!!!

A neve cai que cai em Londres!!!


O clima confuso e instável que anda fazendo em São Paulo vai nos acompanhar até o fim de nossa jornada pelas terras britânicas. O tempo que se mantinha bom das últimas semanas começou a mudar e a temperatura promete cair. Com isso nossos desafios aumentam: mais chuva, vento e quem sabe neve.

The Guardian

The Guardian

Planejar essa viagem não foi fácil justamente por isso, o inverno na terra da Rainha sempre prometeu ser bem complicado de lidar e pra ser sincera, isso foi determinante na escolha entre LEJOG e a rota entre Buenos Aires e Santiago do Chile. As condições climáticas que iremos enfrentar agora vai nos ajudar a administrar melhor os trechos como Himalaias, norte do Canadá, Rússia e diversos outros lugares que terão condições muito próximas.

DIVISÅO MERIDIONAL

DIVISÅO MERIDIONAL

Por mais que o nosso treino aqui no Brasil se intensifique a cada dia, existem experiências que não conseguimos explorar do lado de cá do meridiano, assim o foco de cada viagem-treino é explorar esses aspectos.
Se manter informado é imprescíndivel para esse ciclotour, e hoje lendo o Guardian encontrei uma matéria muito interessante sobre os cuidados para os próximos dias na Grã-Bretanha:
“O escritório de Meteorologia deu alerta sinal amarelo (esteja atento) nas áreas leste, oeste e extremo norte da Inglaterra.
A neve caiu mais forte em partes de Lincolnshire e Cambredgeshire, onde alcançou 5 cm mas isso é somente metade do montante estimado pelos especialistas. Em outras áreas, incluindo Yorkshire, onde o aeroporto Leeds Bradford esteve em aviso de possível fechamento mas até o meio-dia os serviços de voo acabaram não sendo afetados.
A agência responsável pelas estradas recomenda aos usuários que irão cruzar o país, sempre checar as condições climáticas e das estradas.” ( CLIQUE AQUI para ler na integra)

São notícias assim que devemos estar atentos se não quisermos surpresas no meio de nossa jornada. Cada noite será cheia de ocupações e preparos para a manhã seguinte. E esses preparos já começaram faz tempo, mas isso eu deixo para o próximo post.

A cada dia que passa mais perto estamos de sair de São Paulo rumo a Grã Bretanha e essa viagem vem cheia de expectativas e pressões. Enfrentar o inverno britânico em cima de uma bicicleta não será nada fácil, a mudança constante do tempo sempre foi algo famoso na na Escócia e o que mais me preocupa são os ventos e o terreno com icy. Mas essa preocupação é pequena em comparação a ansiedade que tenho para cair numa viagem de descobertas, a cada dia algo novo, um desafio, uma surpresa. A cada dia pedalar numa estrada prestando atenção a sua volta, aos ambientes e paisagens, aos terrenos e árvores, ao céu e ao horizonte. O verde inglês certamente estará presente com suas relvas e gramados, as montanhas e morros escocês vão modificar a paisagem a cada metro e o frio espero que seja um parceiro acolhedor de nossos dias.

As descobertas de um lugar, de uma cultura, de um país começam muito antes de se fazer a viagem efetivamente, começa nas pesquisas por rotas, por hospedagem, por opções de paradas… As descobertas se fazem por uma busca de imagens, por um texto lido na internet, por vídeos de aventura ou docs sobre o destino. Pelo menos assim começam as minhas, e é delicioso me ver aprendendo e estudando como se fosse semana de prova, estudando minha matéria predileta, conhecendo lugares, animais e objetos que diferentes da época da escola agora são palpáveis. Ler uma história curiosa ou até mesmo fantástica e descobrir que é verdade, é algo indescritível e que fixa em nossas cabeças. Tenho certeza que nesse 1 mês fora, e nesses +20 dias que estaremos em busca de fronteiras mentais, desafiando nosso corpo e convivendo arduamente as descobertas serão muito maior e pessoal do que essas que faço agora, sei também que o se conhecer no dia-a-dia vai nos exigir muita paciência, compreensão, civilidade, companheirismo e respeito. E toda essa cobrança pessoal que cada um carrega que para mim é algo simples e corriqueiro, uma cobrança que todos deviam carregar no dia-a-dia mas que a sociedade de hoje não se cobra mais porque deixamos em pensar em comunidade e pensar num individual a muito tempo e as cobranças pessoais de cada um se transformaram em ambições e competições. Não que esse tipo de postura seja errada, mas nesse tipo de viagem e projeto se adotarmos uma postura dessas ou nos dividimos ou nos matamos no meio do caminho.

Ainda com todas essas expectativas e pensamentos não posso prever as surpresas de cada um, certamente teremos uma visão divergente em certos pontos e a nossa percepção de cada coisa pode sim convergir ou divergir. Hoje o que vejo em cada um de nós é uma sede de conhecer e conseguir, o que vejo são medos diferentes, são  ideias que se somam e um destino: Orkney Island na Escócia. Para mim um ótimo lugar para se terminar por suas belezas, para o Ben um re-encontro com sua infância, já para o Paulo não sei bem dizer e não quero colocar palavras em sua boca.

Mas para você que lê esse post e que seja bem possível nunca ter ouvido falar deixo fotos, porque vale mais a pena mostrar do que falar:

Um treino de verdade!

Posted: September 22, 2012 by Paulo Filho in Cycling, Português, Training
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Foto de Tom Allen

Com o fim do ano chegando, e com ele nossas tão aguardas férias, chegou a hora dos preparativos começarem para a primeira grande viagem de bicicleta do trio do 360extremes.

Nos decidimos por fazer um pedal no Reino Unido, saindo do extremo sul da ilha, em Land’s End e pedalando sentido norte até chegar em John O’Groats.  Em linha reta, a distância seria 970km, mas seguindo as estradas, pedalaremos aproximadamente 1450km. Apesar de ser uma distância longa, isso é oque menos me preocupa.

Como essa viagem é um treino, fica difícil uma lista de prós e contras. No nosso caso, com o objetivo de fazer um treino pesado, os contras são prós. Ok, isso parece confuso, mas o real objetivo de escolhermos esse trajeto em especial, é reproduzir as piores condições possíveis que podemos enfrentar na nossa volta ao mundo e assim ter um treino bem completo.

Fora os desafios que qualquer outro percurso nos traria como:

• Aprender a organizar o tempo e o cotidiano de uma viagem de bike.

• Ver como nos comportamos uns com os outros durante o grande período de convívio direto.

•Pedalar de forma auto-suficiente, estar prepeparado para acampar, cozinhar e dormir em condições não ideais

•Ver como nossos corpos reagem a pedaladas longas por seguidos dias.

Ainda teremos:

•Provavelmente muita chuva, ventos fortes e neve.

•Frio nas extremidades

•Equipamento de inverno é muito mais pesado, oque nos obrigará a pedalar com um peso relativamente grande.

•Desgaste muito maior da bicicleta pela água, neve e sal.

•Ter de pedalar com pneus mais largos por causa da probabilidade de gelo e neve, assim como lama. Dessa forma reduzindo a eficiência da pedalada.

•Dia curto (algo em torno de 8horas de luz do sol no início da viagem).

•Muitas subidas e descidas.

•Pedalar à esquerda do tráfego. (não sei se é realmente uma dificuldade, mas como certeza vou ter um estranhamento pelo menos nos primeiros dias)

•Condições climáticas imprevisíveis

•Os buracos ficam invisíveis com a água da chuva

Claro, que os planos podem mudar, uma aventura não pode ter imprudências. Conforme as dificuldades forem aparecendo, iremos nos adequar às mesmas, por esse motivo, não estipulamos quantos dias levaremos para fazer o trajeto todo, isso dependerá de nosso corpos e cabeças mas também do imprevisível inverno britânico. Isso tudo cria um grande desafio para nós 3, e assim seja. Estamos nesse projeto também para sermos desafiados. Completar essa viagem, vai nos dar além de muita experiência e satisfação, uma grande confiança em nós mesmos

Daqui para o fim do ano, ainda escreveremos bastante sobre essa viagem e todos os preparativos, fique ligado para os posts que estão por vir.

 

A ultima reunião nossa do 360 Extremes foi super proveitosa. Primeiro nos encontramos com a Mariane e a Cristiane, duas produtoras que trabalham escrevendo projetos para leis de incentivo a cultura e ao esporte respectivamente. O que nos parecia simples virou numa enxurrada de perguntas e um monte de coisa pra se pensar e correr atrás. A questão é que o projeto é grande e longo e formatá-lo para se encaixar nos parâmetros vai levar tempo. Depois de ouvir e falar muito com as meninas, saímos e paramos na primeira padoca que vimos e sentamos para conversar sobre coisas a fazer e ideias.

A correria aperta a cada dia, temos muito a fazer. Nos focamos em determinar quais treinamentos são os mais essenciais. O que se mostrou complicado, porque é difícil mensurar o que fazer um treinamento de sobrevivência polar ou uma viagem longa de bicicleta em lugares frios ou no deserto. Conversa daqui e conversa de lá, decidimos que se dependermos de tempos das férias do nosso trabalho faremos um curso de sobrevivência polar e uma longa viagem de bicicleta.

Daí surgiu a ideia de incluir vocês nessa escolha num momento você decide.

Pensamos em algumas rotas que seria ótimas para nos dar experiência e melhorar a nossa técnica, além de nos prometer lindas paisagens. E vocês vão poder nos ajudar a escolher entre o que pensamos e até mesmo nos dar sugestões. Para te ajudar vou dar uma explicada em nossa rotas.

Patagônia –  aqui do lado o que nos facilitaria em termos de dinheiro e tempo para chegar ao ponto de partida o Ushuaia. Partiríamos sentido Punta Arenas ou Puerto Deseado, as duas rotas se diferem por uma ser mais recheada de relevos e a outra ser mais plana. O clima será frio e as dificuldades seriam os ventos, neve e a qualidade das estradas.  Passaremos pela Patagônia durante o 360 Extremes, e seria legal conhecer pessoalmente um trecho e as dificuldades que encontraremos daqui um tempo

Reino Unido –  partiríamos do Norte da Escócia indo até o sul de Londres, uma viagem de 1100Km. O clima em toda essa área é ruim e instável. Em alguns lugares a sensação durante o dia é que se passa pelas 4 estações. Apesar de não passarmos por lá durante o projeto, essa condição climática nos prepararia para trechos da Ásia como os Himalaias. As estradas não seriam problemas e as opções para dormir seriam diversas.

São Paulo – Buenos Aires : apesar de ser na maior parte plano as péssimas estradas dariam muito trabalho nesses 2km.

Sabemos que existem diversas viagens e treinos de bicicleta nos EUA, Canadá e Europa e por isso que queremos saber da sua opinião e se tem outras dicas. Então vota aí!