Posts Tagged ‘Inglaterra’

1,480km in cycling through the British winter
1,500km in cycling through the British winter

Hoje aqui posso agradecer aqueles que nos ajudam e que o apoio foi de suma importância nessa mais nova conquista.

Obrigado a Casa de Pedra por estar ao nosso lado desde o começo, onde podemos treinar em uma estrutura completa e nos manter condicionado para qualquer desafio: seja escalada, ciclismo, montanhismo ou corrida. Você nos dá flexibilidade para fazer dessa expedição um  sucesso.

Obrigado Dra. Isabella Alencar por acreditar em nós, por estar sempre atenta a tudo que possa melhorar nossa performance, por nos instruir em cada treino e em cada nova modalidade que entramos e por nos ensinar o valor que uma boa alimentação tem na vida de um atleta. Certamente sem a sua dieta esses 17 dias pedalados teriam sido muito mais cansativos.

Obrigado ao Fabio Jobim  com seus treinos na escalada reforçando e desafiando minha cabeça mais e mais, por trabalhar minha resistência e me deixar pronta para esse desafio!

Obrigado a minha família e amigos que me apoiaram todos os dias. Que o 360 Extremes continue me levando a lugares e experiências que exijam de mim superação.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!
Arriving in Scotland - the first time for Natalia

Arriving in Scotland – the first time for Natalia

Que o dia seria longo a gente já sabia mas que seria difícil deu para notar só de olhar pela janela do hotel, nevava lá fora e isso seria um desafio totalmente novo para nós. Nenhum de nós nunca havia pedalados nessas condições e o que cada um sabia era o que tínhamos lido em blogs e matérias. Cada um arrumando seus alforjes, e como estávamos em quartos separados não dava muito para saber como foi a noite do Paulo. Às 7h30 ele bate em nossa porta e a certeza era que estávamos atrasados para o café da manhã. Mas infelizmente o motivo era outro, ele teve uma noite péssima com dores no joelho e estava um tanto receoso em enfrentar outro dia longo. O grande problema com dores no joelho e articulações é que não dá pra você se autodiagnosticar, e às vezes é algo simples e outras algo super grave. O que menos queremos esse ano é uma lesão que impossibilite todo o treino que planejamos para 2013, então ele ir a um médico nos pareceu o mais sensato.

Fomos com ele até a estação de trem e combinamos de nos encontrar em Edimburgh, ele teria quase 4 dias de descanso e dependendo do que o médico dissesse poderia continuar o resto da jornada conosco.

Começar a pedalar em 2 foi um tanto estranho no começo. Porque depois de tantos dias consecutivos você cria uma dinâmica e um ritmo, agora que somos dois os primeiros quilômetros foi de adaptação de ritmo e cadência. A cada metro esse dia parecia não melhorar, logo nos primeiros 10km eu percebi que a minha constante preocupação quanto ao peso que o Ben carregava na bike dele me fez colocar muito mais peso na minha, minha bicicleta parecia ter dobrado de peso de um dia para o outro. As subidas que normalmente faço sem problemas pareciam bem mais difíceis com tanto peso. Mas fui administrando as marchas e conseguindo transpassar os aclives no caminho. A neve batendo na cara é algo delicado, e até gostoso, bem diferente do granizo e da chuva. Tivemos momentos com bastante vento mas nada demais. Toda a paisagem do dia foi pintada de branco e dava um ar dramático a todo o pedal. Tudo parecia claro, belo e triste.

Por mais que o dia fosse longo e meu ritmo mais lento por conta do peso, não resistimos as paradas para fotos ou simplesmente olhar a volta.

A rota era bem montanhosa e com 3 picos principais, o primeiro uma subida longa e constante de +/- 8km, que superamos com facilidade graças a distração da beleza do dia, as duas subidas seguintes eram mais curtas, mais íngremes e com muito vento. Ainda bem que a vista de Selkirk de lá de cima era muito linda e nos fez pensar que valeu a pena o esforço. Dali em diante uma descida profunda e o resto mais ou menos plano.

O que percebi nesse primeiro dia na Escócia é que o tipo de asfalto escocês é mais áspero e te obriga a pedalar inclusive nas descidas, não existem muitos cafés, postos de gasolinas e lugares para breaks, hoje só achamos um lugar em Hawyk a mais ou menos 10km de Galashiels.

Não sei explicar o que me fez mais feliz ao chegar na casa dos nossos warmshowers anfitriões Strachan e Alex, se foi não ter que subir a rua que começa logo depois do prédio deles ou o fato deles morarem num apartamento no térreo e não tive que subir escadas essa noite.

Eles nos receberão super bem, cheio graça e com muitas histórias. Uma noite divertida e de muito bate-papo.

Back in 2007... Things change!

Back in 2007… Things change!

O dia de descanso em Lancaster viraram dois por motivos simples os sobrinhos do Ben estavam super felizes em nos ver e como o joelho do Paulo não estava 100% pensamos que um dia extra de descanso era mais que merecido.

No primeiro dia ficamos mais em casa brincando e ouvindo as histórias de Gabe, Felix e Isaac, os três são super diferentes um do outro o que deixa ainda mais divertido estar com eles. Gabe o mais novo de 7 anos é super falante e criativo, gosta de brincar com arminhas e contar histórias e mais histórias, Felix de 10 anos já é mais quieto e um tanto nerd, todo interessado em tecnologia, adora fuçar nos computadores e tablets, sempre mostrando algo diferente que ele consegue fazer – ele realmente me faz lembrar desses gênios que aos 18 anos ficam milionários com algum programa ou site da internet, Isaac o mais velho de 13 anos apaixonado por futebol e jogos, na segunda noite jogamos poker com ele que todo cheio dos macetes fazia o maço e espiava nossas cartas, claro que ele ganhou e isso gerou um acesso de comemorações.

ashton_memoria Na primeira tarde fomos ao Ashton Memorial, um lugar muito bonito no St James Park, lá tentamos fazer a pipa do Ben voar mas sem vento era impossível. Papeamos bastante com o Franklin (irmão mais velho do Ben) sobre como ele ensinou o Ben a pedalar, as viagens para acampar, como ele costumava pedalar bastante pela Escócia quando foi a universidade em Glasgow e tudo mais. Um final de semana relaxante e bom para matar a saudade. Na última noite encontramos com o Tom um dos melhores amigos do Ben num pub, rimos e falamos sobre diversas coisas. Ao irmos dormir a ansiedade para voltar a pedalar voltou e não sei se o fato de o dia seguinte ser bem longo ajudava ou não. Mas vamos que vamos, Lancaster era o meio de toda expedição e passar a metade significa que estávamos mais perto de completar e isso sim é motivador, saber que estamos perto de conquistar o objetivo!!!!

Map - Worcester - Shrewsbury

Acredito que esse foi o pior dia depois do primeiro, apesar da distância ter sido razoável (83km) os desafios foram diversos: ventos forte, tráfego intenso e muitas subidas profundas de até 14%.

Na noite anterior o Ben e o Paulo havia chegado a casa de Caryl e Lyndon com bastante dor na articulação do joelho, e de manhã fiquei bem mais confiante ao ver que o Ben estava bem melhor. Nos primeiros quilômetros ele disse que ainda doía um pouco mas nada demais, já o Paulo continuava com uma dor significativa o que o fez ir pedalando o trajeto todo na marcha leve.

A estrada era bem bonita, diversos vilarejos, em alguns momentos a estrada tinha duas faixas para pedalarmos o que com os ventos nos deixava mais seguro. Os ventos daqui são bem rebeldes, vem de frente do nada muda para o lado o que exige que você pedale lutando para ficar no canto esquerdo para não ir para frente dos carros. O vento contra sempre foi o meu maior medo de todo esse desafio, porque você pedala. pedala, pedala e não sai do lugar o que é um tanto frustrante depois de algum tempo.

Stats - Worcester - Shrewsbury

Os motoristas ainda me surpreendem sempre se arriscando na contra-mão para nos dar uma distância segura – lembro que quando estava no Brasil me dizima o tempo todo que os motoristas da Inglaterra eram super anti-ciclistas e que não faziam questão alguma de nos manter seguro – talvez em Londres isso seja uma verdade, mas como toda grande cidade o tráfego já um tanto estressante.

Tívemos um velocidade média bem baixa mas condizente com as condições. O vento congelava nossos dedos do pé, e não senti-los é algo agoniante. Então paramos em alguns café e conveniências para nos esquentar e comer algo, o bom é que com a rotina alimentar aconselhada pela nossa nutricionista Isabella Alencar, realmente teríamos que parar a cada uma hora.

Eu fui bem durante o caminho, sem dores, e com uma paciência que me surpreendia, quase não me irritava com nada. Me irritava às vezes pensar que chegaríamos de noite no destino, porque é quase impossível para mim enxergar sem luz e com a luz dos carros na contra-mão, mas não havia muito a se fazer quanto a isso, já que o dia não foi dos mais fáceis. Depois de um dia longo assim finalmente chegamos a casa de Jon e Angela que nos recebeu com uma taça de vinho, macarrão a bolonhesa e muita conversa sobre cinema, televisão e bike. Ainda tivemos tempo para dar uma lavada nas nossas roupas, o que já era mais que necessário depois de quase uma semana com a mesma camiseta, calca, jaqueta e balaclava.

Map - Timsbury - Worcester

O quinto dia de pedal foi longo. E o tempo não quis ajudar tanto dessa vez: chuva e vento. A rota até Wocesteralém de longa era recheada de subidas e descidas no começo e a estrada em alguns momentos me dava dúvida se ciclistas podiam ou não andar por ela.

Dias longos assim normalmente não permitem muito aproveitar e parar. Mas os vilarejo que cruzamos me faziam pensar em como um lugar tranquilo deve ser bom de se viver. Passamos por tantas casas e seu largos jardins que me fizeram imaginar como seria bom morar por ali. Ter um ou dois cachorros, andar de bike para todos os lugares e poder curtir mais a natureza e tudo mais que um pouco de calmaria poderia oferecer.

Sempre nas minhas viagens pareço apreciar e ver mais e mais como a natureza é perfeita. E aqui fico ainda mais encantada. Como pode cidade após cidade, independentemente do tamanho ter tanta variedade de pássaros. São tantos cantos, tantas cores e tantos tamanhos. Pela Inglaterra é possível ver diversas aves com o alcance do seu olhar. Fiquei triste a cada ave morta que vi nas estradas, e não só por elas mas também pelos coelhos e raposas. Me pareceu injusto com esses animais a forma como os carros passam por cima deles sem se arrepender e sem às vezes dar uma chance de fuga.

Numa hora me choquei ao ver pelo menos 5 aves no meio da estrada mortas em menos de 5km. Sinceramente me pareceu meio burro todas ali, um corpo seguido do outro. E me perguntava como pode todas elas morrerem tão perto. Depois fui saber que a tal ave era um phesants e que vários fazendeiros criam para soltá-las essa época do ano para as pessoas caçarem – um negócio bem lucrativo por aqui -, o que me fez ainda mais triste. Eu achei as cores dela tão viva e um pássaro tão bonito e mata-o assim me pareceu um tanto cruel.

Mas o que manda sempre é o dinheiro quem sou eu para julgar alguma coisa.

Os quilômetros passaram. As paisagens mudaram, e todos esses pensamentos sobre os bichos foram passando. Um mantra que fico repetindo durante o caminho com o forma de agradecer o tempo um tanto generoso que temos tido nesse inverno é “ Nature you are the best of all”, e assim me distraio.

Stats - Timsbury - Worcester

O dia passa de forma rápida e mais uma vez o que parece não passar são os últimos 15 km. Acho que a essa altura estou ansiosa demais por um banho, por um chá e por algo quente para se comer que devo olhar no odômetro de 5 em 5 segundos. Ao chegar no centro da cidade a ansiedade é substituída pela atenção, também com tanta rotatória e carro não dá pra ficar muito de olho no quanto falta. Os últimos km foram no total breu, então meu olhar ia se adaptando com as luzes dos carros.

Finalmente chegamos a casa de Caryl e Lyndoll, que nos receberam com um vinho aberto, e a janta posta (cordeiro assada com batatas, ervilhas e cenouras). Papeamos muito, afinal eles eram dois ciclistas cheios de histórias para contar. O Paulo teve um motivo a mais para comemorar as suas sapatilhas finalmente chegaram e agora ele poderia pedalar clipado. Por falar em clipe esse foi um dia que eu consegui pedalar tudo com o pé preso, tive uma queda no início, mas com o tempo melhorei.

 

 

Hora de ir - rumo a Taunton

Já que a ideia era ficar em um B&B dessa vez então resolvemos economizar os quilômetros, a princípio o Ben tinha planejado um pedal de 80 e deixar o próximo dia bem curto mesmo, mas como não teremos mais um dia de descanso achamos melhor ter dois dias relaxados. A parada escolhida para depois de Exeter foi Taunton, um pedal de 53km. A rota até lá foi pelas estradas pequenas e recheadas de lindas paisagens Passamos por vários campos verdes, fazendas com criação de ovelhas, vacas e cavalos. O tempo não estava ruim, choveu um pouco mas a maior parte do tempo o céu estava azul então deu para parar bastante para tirar fotos, tomar cafés e aproveitar bem mesmo. Mesmo indo num ritmo de passeio chegamos em Taunton antes das 15h. Lá comemos em um pub, acho que até comemos demais, voltamos para o quarto e assistimos uma séria da BBC com locução que fez o Ben dormir – detalhe a voz era de David Attenborough uma lenda viva britânica

Eu ainda dei uma organizada nas coisas e mais tarde os meninos ficaram com fome e o jeito foi comer um fast food.

Antes das 20h estávamos dormindo e relaxando para o pedal do dia seguinte.

Acordamos às 6h30 e arrumamos as coisas, às 7h30 era servido o café da manhã e não queríamos demorar muito. Às 08h15 estávamos pedalando sentido Timsbury, apenas 65km. Fomos no mesmo ritmo do dia anterior, a diferença de km era pequena e essa rota também prometia ter poucas subidas e teve. Na verdade só uma subida de mais ou menos 4 km e com 11% de gradiente. Nada fácil mas fizemos super bem. Para mim as descidas sempre são mais problemáticas e aqui a rua era sinuosa, bem estreita e de mão dupla por isso redobrei o cuidado. Depois daqui algumas subidas leves até a casa do Jon e da Allyson em Timsbury nossos anfitriões do couchsurfing. Eles nos receberão super bem e de janta comemos cuscuz marroquino com azeitonas, queijo feta temperado e vegetais ao forno. HUMMMM!!! Comida vegetariana de qualidade eu diria. Papeamos um pouco, arrumamos as coisas e capotamos. O quinto dia já não seria tão fácil quanto esses dois.

Dia 2 – 111 km sem chuva nem vento!

Posted: January 30, 2013 by Natália Almeida in Cycling
Tags: , , , , , , ,
Map of the route- Day 2

Map of the route- Day 2

Depois de um dia tenebroso como o primeiro, acordei um tanto receosa quanto ao que viria no dia seguinte. Mas em nenhuma de minhas previsões poderia imaginar um dia como aquele. Sem chuva e sem vento, céu azul e nuvens brancas no céu. As ruas que saiam da casa de Jacob não pareciam nada com as da noite anterior. Muito verde ao redor, animais pastando e poucos carros. Saímos um tanto tarde, porque não teve como resistir a um bom bate papo com a família que nos hospedou tão bem. Mas mesmo assim não ficamos preocupados com o tempo.
Boa parte do caminho foi em uma estrada estreita e um tanto sinuosa com popucas subidas e descidas mas muito bonita – irresistível não tirar umas fotos. Me concentrei em manter a rotina alimentar aconselhada pela Isabela Alencar (nossa nutri), então segui o caminho olhando a rota e olha o timer a cada uma hora chamava o Bem e comíamos cada um a sua porção de carboidratos. Seguir isso acredito que tem sido o que mais nos tem ajudado nessa empreitada. Entender o quanto seu corpo precisa de combustível e administrar isso é o que garante um bom desempenho em dias longos. Seu corpo não fica consumindo massa muscular para transformar energia e assim você não sente dores ou cansaço.
Como hoje seria um dia longo minha preocupação era com a luz e o tempo que o dia dura. Então me parecia muito simples seguirmos comendo lanchinhos e não parar para comer enquanto fosse dia. Isso nos garantiria segurança no trajeto. E assim fomos. Porém esqueço as vezes que toda essa re-educação alimentar e planejamento que eu e o Ben temos já vem sendo incorporado na nossa rotina faz tempo. Desde quando começamos a pedalar a Isabela vem nos ensinando e melhorando cada dia mais a nossa alimentação pensando na nossa performance. E em todos os nossos treinos em São Paulo já íamos seguindo os conselhos dela. E assim parece simples para nós, mas o Paulo já tem outra rotina e para ele parar para comer em algum momento é necessário. Paramos em um café aos 80km do dia, e ele estava um tanto irritado. Afinal estava com fome, o que compreensível. Como somos um time temos todos que tentar entender o ritmo e as dificuldades do outro. Então desde esse dia todas as paradas feitas ou passadas a frente são conversadas.

Alongside the A30 towards to the moors

Alongside the A30 towards to the moors

Pegamos a rodovia também e pedalamos pouco tempo no escuro. A chuva nos pegou no fim do pedal mas não fez o mesmo estrago que o dia anterior. Ao chegar em Exeter acabamos rodando bastante pela cidade, o que me deixou um tanto triste por não podermos ficarmos por lá um dia a mais. A cidade é linda, cheia de casas, catedrais e tudo mais super antigo. Numa próxima vez certeza que ficaremos mais.
Os nossos anfitriões da noite foram Sheila e Garth, um casal um tanto velhinho mas pura simpatia. Nos receberam com chá e um cozido de frango mais que delicioso. Purê de batata e ervilhas não poderiam faltar sendo que estamos na Inglaterra.
Papeamos bastante com eles sobre diversas coisas. O Ben um pouco mais porque o irmão do Garth conheceu pai do Ben – que mundo pequeno né?
Dormi super bem e sem me preocupar muito porque o dia seguinte seria curto e relaxado.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

O dia antes do começo do pedal foi tranquilo. Passeamos e conhecemos um pouco de Lands End. O dia estava bonito sem chuva e vento. Um tanto animador para o dia seguinte. Pena que o inverno nessa ilha é impossível de prever. E para tornar o nosso primeiro dia de pedal ainda mais desafiador acordamos cedo com o barulho dos ventos e da chuva, Nos atrasamos arrumando as coisas e tentando dar uma arrumada nas bikes. Anotamos o endereço da bicicletaria mais perto e saímos. O caminho até Penzance foi tranquilo. E a bicicletaria já ficava no nosso caminho. Lá arrumamos o câmbio do Ben e meus freios. Não demorou muito e pegamos a estrada A30. A estrada é bem movimentada mas achei bem tranquilo de andar por ali, sem muitas vistas e paisagens mas muito muitos carros. A chuva forte também não ajudou. Cheia de subidas e descidas longas e com um acostamento estreito não me sentia confortável em usar os pés clipados, o problema era que o pedal estreito escorregava toda hora. E os ventos nas costas ajudava nas subidas mas quando resolviam mudar de direção e bater na lateral dava uma certa sensação de instabilidade. Cada novidade que a natureza adicionava para esse dia exigia uma adaptação e me ensinava como manter o controle da bike que às vezes parecia estar viva.

Rota dia 1Entramos na cidade Redruth para comer e acabamos almoçando em um restaurante português, foi bom ler e falar português de novo. A comida bem gostosa e a dona do restaurante simpatia pura. Depois de 1h30 para comer seguimos viagem, estávamos na metade do caminho mas a luz duraria mais algumas poucas horas. O tempo continuava ruim ou ainda pior do que quando começamos.

Os ventos loucos atrapalhavam ainda mais nas descidas porque o atrito da bicicleta com o solo já estava diminuída e a pista molhada também não ajudava em nada, qualquer vento lateral me deixava muito insegura, então tentei controlar a velocidade nas descidas.

A chuva ia consumindo aos poucos, apesar de não sentir frio em nenhum momento, o que cansava mesmo era a água batendo na cara e com o passar do dia foi ficando escuro e pra mim era bem difícil de enxergar então eu precisava forçar mais a vista para ver e diminuir o passo.

Ficar mais lenta era ruim também porque eu acabava ficando bem mais atrás do Paulo e do Ben o que não ajudava para os carros me enxergarem e me estressava bastante porque meu medo era deles virarem em algum lugar e eu não ver.

Assim quando encontrei com eles parados embaixo da ponte me esperando pedi para pelo menos um ficar mais no meu ritmo porque me ajudaria a ver melhor a estrada – seria mais lanternas iluminando o caminho.

Dali em diante seguimos mais próximos. Depois de 8 horas pedalando os 3 já estavam bem cansados, mas finalmente vimos a entrada de Bodmin. Entramos e dali a casa do Jacob (nosso anfitrião da noite) deveria ser simples mas a estradinha que levava até a casa dele era cheia de subidas, lama e bem estreita. A noite estava extremamente escura e durante essa pedalada de poucos quilômetros mas de muitos sobes e desces eu podia ouvir meu freio fazer um barulho metálicos. Nas descidas fui controlando a velocidade com o pé no chão já que meu freio traseiro havia terminado. Na ultima subida eu já estava começando a pensar se a casa desse garoto existia, mas pude ver o Ben conversando com Jake. Chegamos! UFA!

A noite foi de tortas de legumes, papo e chá. A família era muito calorosa e receptiva. Conversamos por horas, eles colocaram nossas roupas na secadora, tomamos banho e deitamos para dormir em volta da lareira. Eu capotei, o Paulo apagou e o Bem ainda ficou um pouco escrevendo post e checando a rota do dia seguinte.

Primeiro dia foi duro e o seguinte recheado de novas sensações, mas isso eu deixo para o próximo post!

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

O dias até agora não tem sido dos mais fáceis.

Como eu disse no post anterior as bagagens do Paulo se perderam no meio da conexão e para reencontrá-las tivemos que fazer diversas ligações, ele teve que ir ao Aeroporto mais de uma vez e isso tudo levou mais de um dia para se resolver. A família do Ben já estava oferecendo todas as bikes e roupas que ele poderia precisar. Mesmo assim não seria nada confortável fazer uma viagem dessas com coisas emprestadas e com as suas sumidas. Eu não podia remarcar a minha ida a Penzance, então eu e o Ben viemos ontem. O Paulo conseguiu recuperar as suas malas e veio para cá no trem das 7pm.

The beginning of the journey

The beginning of the journey

A falta de sorte não parou por aí. Ao chegarmos aqui em Penzance a ideia era montar as bikes e seguir rumo ao hostel pedalando – a distância de Penzance a Lands End é de mais ou menos 17km. Mas a bicicleta do Ben deve ter colidido no avião ou veio com algo pesado em cima, porque o câmbio está amassado e a princípio pegava nos raios da roda. A minha tem problemas no freio. Acredito que a mudança de temperatura deu uma desregulada geral. Demos uma mexida e conseguimos arrumar um pouco mas não 100%.

Se o trem não tivesse atrasado poderíamos ter resolvido tudo ontem mesmo. Mas chegamos aqui já era escuro e a Bike shop estava fechada. O trem do Paulo também atrasou invés de chegar aqui a meia-noite ele chegou quase 3am.

Tudo isso nos fez chegar no consenso de atrasarmos o planejamento e começarmos o pedal amanhã.

Como tudo que é planejado direitinho. Esse dia parado aqui não programado nos leva a um efeito domino porque perderemos o dia de descanso em Bristol e também temos que avisar as casas que iremos ficar que chegaremos atrasados.

Dos males o menor.

Aproveitamos o dia de hoje para filmar e conhecer a região. A cidade é fria mas com lindas paisagens. Tiramos a foto do marco de Lands End e o Ben teve bastante vento e tempo para brincar com seu brinquedo novo: uma pipa. O que nos gerou diversas situações legais a pipa quase me acertando e depois quase “matando” o Paulo. Só ouvi os gritos do Bem para ele correr da pipa desgovernada que fazia piruetas e rajava em alta velocidade pelo ar. Uma pena porque com isso as cordas se enrolaram toda e tivemos que acabar com a brincadeira. A fome apertou e foi hora de procurarmos um lugar para comer. Acontece que a cidade é pequena e tem poucas opções para comer e nessa época do ano ainda nada abre. Uma caminhada longa até o pub mas com lindas vistas do alto para a enseada. Que por mais frio que fosse tinha alguns surfistas investindo nas poucas ondas no mar. Comemos e até experimentamos a cerveja local, recomendo muito a Cornish Tribute.

Depois foi reorganizar as malas e papear muito regados a chá.

Que meu próximo post seja recheado de aventuras nas estradas inglesas.

A cada dia que passa mais perto estamos de sair de São Paulo rumo a Grã Bretanha e essa viagem vem cheia de expectativas e pressões. Enfrentar o inverno britânico em cima de uma bicicleta não será nada fácil, a mudança constante do tempo sempre foi algo famoso na na Escócia e o que mais me preocupa são os ventos e o terreno com icy. Mas essa preocupação é pequena em comparação a ansiedade que tenho para cair numa viagem de descobertas, a cada dia algo novo, um desafio, uma surpresa. A cada dia pedalar numa estrada prestando atenção a sua volta, aos ambientes e paisagens, aos terrenos e árvores, ao céu e ao horizonte. O verde inglês certamente estará presente com suas relvas e gramados, as montanhas e morros escocês vão modificar a paisagem a cada metro e o frio espero que seja um parceiro acolhedor de nossos dias.

As descobertas de um lugar, de uma cultura, de um país começam muito antes de se fazer a viagem efetivamente, começa nas pesquisas por rotas, por hospedagem, por opções de paradas… As descobertas se fazem por uma busca de imagens, por um texto lido na internet, por vídeos de aventura ou docs sobre o destino. Pelo menos assim começam as minhas, e é delicioso me ver aprendendo e estudando como se fosse semana de prova, estudando minha matéria predileta, conhecendo lugares, animais e objetos que diferentes da época da escola agora são palpáveis. Ler uma história curiosa ou até mesmo fantástica e descobrir que é verdade, é algo indescritível e que fixa em nossas cabeças. Tenho certeza que nesse 1 mês fora, e nesses +20 dias que estaremos em busca de fronteiras mentais, desafiando nosso corpo e convivendo arduamente as descobertas serão muito maior e pessoal do que essas que faço agora, sei também que o se conhecer no dia-a-dia vai nos exigir muita paciência, compreensão, civilidade, companheirismo e respeito. E toda essa cobrança pessoal que cada um carrega que para mim é algo simples e corriqueiro, uma cobrança que todos deviam carregar no dia-a-dia mas que a sociedade de hoje não se cobra mais porque deixamos em pensar em comunidade e pensar num individual a muito tempo e as cobranças pessoais de cada um se transformaram em ambições e competições. Não que esse tipo de postura seja errada, mas nesse tipo de viagem e projeto se adotarmos uma postura dessas ou nos dividimos ou nos matamos no meio do caminho.

Ainda com todas essas expectativas e pensamentos não posso prever as surpresas de cada um, certamente teremos uma visão divergente em certos pontos e a nossa percepção de cada coisa pode sim convergir ou divergir. Hoje o que vejo em cada um de nós é uma sede de conhecer e conseguir, o que vejo são medos diferentes, são  ideias que se somam e um destino: Orkney Island na Escócia. Para mim um ótimo lugar para se terminar por suas belezas, para o Ben um re-encontro com sua infância, já para o Paulo não sei bem dizer e não quero colocar palavras em sua boca.

Mas para você que lê esse post e que seja bem possível nunca ter ouvido falar deixo fotos, porque vale mais a pena mostrar do que falar:

Um treino de verdade!

Posted: September 22, 2012 by Paulo Filho in Cycling, Português, Training
Tags: , , , , , ,

Foto de Tom Allen

Com o fim do ano chegando, e com ele nossas tão aguardas férias, chegou a hora dos preparativos começarem para a primeira grande viagem de bicicleta do trio do 360extremes.

Nos decidimos por fazer um pedal no Reino Unido, saindo do extremo sul da ilha, em Land’s End e pedalando sentido norte até chegar em John O’Groats.  Em linha reta, a distância seria 970km, mas seguindo as estradas, pedalaremos aproximadamente 1450km. Apesar de ser uma distância longa, isso é oque menos me preocupa.

Como essa viagem é um treino, fica difícil uma lista de prós e contras. No nosso caso, com o objetivo de fazer um treino pesado, os contras são prós. Ok, isso parece confuso, mas o real objetivo de escolhermos esse trajeto em especial, é reproduzir as piores condições possíveis que podemos enfrentar na nossa volta ao mundo e assim ter um treino bem completo.

Fora os desafios que qualquer outro percurso nos traria como:

• Aprender a organizar o tempo e o cotidiano de uma viagem de bike.

• Ver como nos comportamos uns com os outros durante o grande período de convívio direto.

•Pedalar de forma auto-suficiente, estar prepeparado para acampar, cozinhar e dormir em condições não ideais

•Ver como nossos corpos reagem a pedaladas longas por seguidos dias.

Ainda teremos:

•Provavelmente muita chuva, ventos fortes e neve.

•Frio nas extremidades

•Equipamento de inverno é muito mais pesado, oque nos obrigará a pedalar com um peso relativamente grande.

•Desgaste muito maior da bicicleta pela água, neve e sal.

•Ter de pedalar com pneus mais largos por causa da probabilidade de gelo e neve, assim como lama. Dessa forma reduzindo a eficiência da pedalada.

•Dia curto (algo em torno de 8horas de luz do sol no início da viagem).

•Muitas subidas e descidas.

•Pedalar à esquerda do tráfego. (não sei se é realmente uma dificuldade, mas como certeza vou ter um estranhamento pelo menos nos primeiros dias)

•Condições climáticas imprevisíveis

•Os buracos ficam invisíveis com a água da chuva

Claro, que os planos podem mudar, uma aventura não pode ter imprudências. Conforme as dificuldades forem aparecendo, iremos nos adequar às mesmas, por esse motivo, não estipulamos quantos dias levaremos para fazer o trajeto todo, isso dependerá de nosso corpos e cabeças mas também do imprevisível inverno britânico. Isso tudo cria um grande desafio para nós 3, e assim seja. Estamos nesse projeto também para sermos desafiados. Completar essa viagem, vai nos dar além de muita experiência e satisfação, uma grande confiança em nós mesmos

Daqui para o fim do ano, ainda escreveremos bastante sobre essa viagem e todos os preparativos, fique ligado para os posts que estão por vir.