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Pequeño Alpamayo - Bolívia

Satisfação total!

Como eu já disse viver na capital paulistana nem sempre é fácil, por isso a busca por lazer e uma vida saudável é interminável e um tanto desafiadora. Pedalar aos finais de semana para a praia ou interior é muito bom, mas para aqueles que tem sede por mais e mais, o jeito é incluir outros esportes. E as vantagens de diversificar as suas atividades esportivas não param só em te dar opções mas também previnem contusões e tendinites. Por exercitar diferentes  músculos com outros  movimentos gera um fortalecimento mais completo. A musculação sempre deixada de lado por aqueles que não buscam ficar bombados é essencial para uma evolução em qualquer esporte além de dar suporte para os ligamentos e articulações. Nós que precisamos estar com o corpo e a mente prontos para qualquer coisa já que esse projeto vai nos levar ao limite, ficamos cada vez mais versáteis e buscando treinos e atividades que nos ajudem. E foi por isso que começamos a escalar. A escalada é uma ótima dica para aqueles que buscam um corpo forte, alongado e maleável. Por trabalhar flexibilidade, resistência e força do corpo todo é um esporte mais que completo, sem falar da melhora na auto-estima, concentração e resistência mental.

Paulista - Va de BikeHoje mais do que nunca percebo como o mundo da bike e da rocha andam cada dia mais perto um do outro. Afinal de contas nada mais gostoso do que cair na estrada em cima da magrela, chegar no meio da natureza em algum cantinho razoavelmente perto da capital e escalar na rocha. Lá de cima ver a vista e pensar que conquistou não só quilômetros mas também “alturas”. Essa proximidade vejo pelos que estão a minha volta, a quantidade de gente indo e voltando da Casa de Pedra de bike aumenta mais e mais, hoje são organizadas pedaladas as quintas e até rola uns pedais longos de final de semana, na CP alunos novos são frutos invertidos, ciclistas que vão lá ver qual é a boa das agarras e paredões. Esse crescimento de ambos dos esporte é animador, e até dá um tanto de orgulho ver o rumo que as pessoas estão pegando. Na Europa o uso de bike e escalada como lazer e meio de se manter em forma já é antigo, e tenho certeza que um dos fatores por grande parte da postura aventureira, da consciência ambiental e da maneira de lidar com coisas ligadas a melhora da qualidade de vida sejam tão enraizadas.

Para pedalar existem diversos grupos no face, em blogs, bicicletaria e bairros da cidade que te ajudam a iniciar a prática já a escalada parece mais distante, por isso hoje vim aqui mostrar que não é tão difícil começar a escalar, muito menos ir atrás de experimentar. Treino de Equilibrio - Slackline

Caso você queira tentar a primeira vez num ginásio com diversos níveis de dificuldades e segmentos do esporte sugerimos a Casa de Pedra que fica pertinho do metro Barra Funda. Além de ser o maior ginásio de escalada esportiva do país com paredes de até 14m de altura e mais de 100 vias de escalada guiada, top rope e boulder você ainda conta com uma estrutura completa de musculação. É possível ir um dia só para conferir ou fazer um plano mensal, dá uma olhadinha no site ou passa lá e conversa na recepção.

Casa de Pedra climbing gym, São Paulo

Casa de Pedra, São Paulo

Para aqueles viciados em esporte na natureza, e não querem nem passar perto de uma academia, indicamos a Kaiporah uma agência de esporte de aventura que nasceu justamente para ajudar ao acesso a esportes como: bike, yoga, trekking e claro escalada. Todo mês são programadas diversas saídas para as rochas no interior que cerca a cidade de São Paulo. As vias normalmente tem de diversos níveis de dificuldade e eles fornecem todo o equipamento de segurança, lanches super saudáveis e instrutores super experientes que vão te ajudar a superar os obstáculos e conquistar o cume.

Esse domingo caso você queira ir conferir vai rolar uma saída para o Guarujá no Morro do Maluf com vias muito boas para iniciantes e intermediários, caso queira saber mais informações dá uma perguntada lá na pagina deles Kaiporah.

Voltar para Casa

Posted: July 1, 2012 by Natália Almeida in Climbing, Mountaineering, Photography, Training
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Ir a Bolívia fazia parte do nosso treinamento físico e mental. E lá vivenciamos dificuldades e enfrentamos condições que no nosso dia-a-dia aqui não seria possível.

Em 28 dias aprendemos a lidar com nosso corpo, ansiedade, convivência, pensamentos… Sentimos frio, medo, dor, fraqueza, tristeza, solidão mas também nos sentimos fortes, confiantes, seguros, espertos e poderosos. Assim é a vida de montanhista, a montanha não te perdoa porque está exausto ou sem forças, a montanha não está ali para te entender, passar a mão na sua cabeça ou relevar. Não, ela está ali para te fazer superar limites, para te fazer se sentir pequeno, para te fazer pensar nas suas prioridades, pra te questionar. E nós fomos a diversas montanhas para experimentar isso.
As expectativas antes de chegar lá eram meio perdidas, não tínhamos base de como seria o esporte e como seria tudo, as informações da internet não ajudavam a criar o cenário. Os primeiros dias em La Paz foram gostosos, sem sintomas relacionados a altitude e o clima era amigável – nem frio, nem calor – pudemos desfrutar dessa cidade bagunçada e cheia de vida. O tempo na capital boliviana foi de surpresa a cada esquina, e o povo se mostrou alegre e festeiro. Antes de começar a empreitada nos Andes, tivemos tempo de experimentar os lados da Bolívia, e eita país pra ter faces. Eu diria que lá é possível encontrar o tipo de turismo que qualquer um gosta: compras, aventura, natureza, sossego, cultural… E as opções são tantas que normalmente você perde um dia tentando escolher qual a melhor. A escolha mais difícil que encontramos foi entre ficar na cidade para ver a maior festa folclórica do País, o Gran Poder, ou descer de bike a Death Road. Para quem nos acompanha sabe que a escolha foi a aventura de descer uma das estradas mais perigosas do mundo. Tenho lembranças eternas desse dia, seja as cicatrizes ou a memória. Muito podem achar que me arrependo, mas não, recomendo que façam. As paisagens são lindas, a experiência maravilhosa e cheia de emoções. Caí, e reconheço que o meu excesso de confiança foi o culpado. Mas esse dia está entre os melhores para mim dessa viagem.
O treinamento pesado começou quando encontramos o pessoal da Alaska Mountain Guide, aí cada dia era de acordar cedo, caminhadas longas, e aprendizado.
Ir aos acampamentos já não era fácil, saíamos cedo, e caminhávamos longas horas, a beleza dos lugares ajudava a distrair o pensamento em relação as mochilas pesadas nas costas. Na hora do hiking, um ajudava o outro, e foram nesses momentos que mais aprendi. Kirk e Augusto sempre atentos a tudo me davam dicas de como respirar e técnicas de caminhada, até mesmo as conversas sobre as experiências anteriores deles aprendemos muito.
Na hora de acampar mais lições: tratar a sua água com iodo, lembrar de estar sempre se movendo para ajudar seu corpo na aclimatação, a importância em se manter hidratado e de se alimentar constantemente, como evitar a condensação dentro da barraca, etc.
Comer certamente foi uma das parte mais complicada, você perde parte do apetite e meio que se força a comer a todo instante. Como ficamos boa parte acampando a alimentação ficou a base de macarrão, arroz, frios e pão, o que não faz da nossa dieta uma coisa ideal. De volta ara casa esse é um ponto que estudaremos melhor aqui e com a ajuda da Dr. Isabela poderemos ser mais criativos e saudáveis. Com a terrível intoxicação alimentar que eu tive boa parte das opções ficaram intragáveis, doces e chás só pioravam as minhas cólicas, e a ânsia em se aventurar e conquistar um pico me deixou um tanto cética em relação a minha saúde, mesmo com diarreia e cólicas por 17 dias, idas ao banheiro contantes e enfrentando as latrinas e os sanitários a céu aberto com neve, vento, chuva e o que mais São Pedro quisesse mandar, eu acreditei que iria conseguir, achava que ia passar rápido. Os dias passaram e eu lutei para conseguir, forcei meu corpo, ignorei a minha mente, e com isso me detonei. O desafio real pra mim foi lidar com a minha cabeça e meu corpo, o trabalho mental era o de ignorar as cólicas e enfrentar as caminhadas.
Ao fim desses dias sinto que sou outra pessoa, aprendi que respeitar meu corpo é essencial; lidar com a dor e a controlar os pensamentos que às vezes parecem uma tortura mental; saber motivar e compreender meu parceiro foram coisas difíceis no começo mas que conseguímos ver e trabalhar juntos.
 Hoje sei que temos muito o que nos preparar e aprender para encarar uma aventura dessas mas tenho certeza que conseguiremos porque agora nos sentimos mais fortes e seguros para encarar os próximos desafios.

Acordar de manhã e começar a arrumar tudo já virou rotineiro. E as noites acordando para ir ao banheiro também.  Acordamos cedo, antes d despertador e foi bom poder conversar um pouquinho, falar de coisas bobas e rir um pouco. Depois da descontração é hora de falar como vai ser daqui pra frente, na noite anterior decidiu-se que eu ficaria aqui com o José enquanto Bem e Caleb seguiriam rumo ao cume. Entendo os motivos e agora não adianta mais sofrer, de tudo isso sei que forcei demias meu corpo e que isso só anda atrapalhando. Agora é hora de descansar, comer direito, bebr muita água e tentar ficar melhor de verdade sem recaídas.

Despedir é sempre difícil, e todos sempre parecem com pressa. Desejo boa sorte e peço que tenham cuidado. Da barraca vejo eles seguindo rumo a maratona que vai ser o dia. Ao invês de parar no acampamento intermediário ees seguiram até o High Camp que leva mais ou menos 8 horas. Lá descansaram um pouco e saiem à meia-noite para mais umas 9 horas de subida ate o cume, a volta para o acampamento superior é de +/- 3 horas, mas não poderam dormir lá então voltaram para o acampamento base mais 4 horas. Vai ser cansativo, mas esse na verdade é o jeito que te deixa mais apto, porque ficar muito temo no high camp te faz reter muito líquido em com as pernas inchadas e possíveis dor de cabeça o cume vira coisa do passado.

Enquanto o Ben tem muito o que fazer eu e  José papeamos, fazemos trilhas curtas, escolhemos entre as diversas opções de macarrão para comer. O guia boliviano é cheio de histórias agumas  muito engraçadas outras desapropriadas para a situação. Daqui de baixo sem notícia fica difícil ficar ouvindo sobre os amigos dele que morreram no Illimani. Mas ouço e tento não ficar preocupada, acho que  que mais me aflinge é a falta de experiência de Caleb, ele nunca fez o Illimani antes e não conhece direito as vias. Sempre que o coração aperta, tento me distrair lendo um livro ou caminhando.

A subida até o acampamento foi super desgastante, de acordo com o Ben mesmo com os portadores, ele conseguiu dormir lá em cima e eles decidiram sair rumo ao cume às 4am, j´´a estavam desgastados e chegaram muuito perto do cume, há uns 200 metros, mas estavam lentos e exaustos, acabaram voltando ao acampamento porque senão voltar para o acampamento base ficaria inviável. Voltam magros e cansados.

O retorno deles levou muito tempo, e José e eu ficávamos o tempo todo tirando fotos da montanha tentando encontrá-los, foi um dia em que o Illimani parecia uma televisão, o dia todo olhando pra ele. Pessoas que chegavam no acampamento vinham conversar mas a atenção estava voltada para a montanha. Com o passar das horas a tensão tomou conta e o fato dos rádio não funcionarem não ajudava, a falta de comunicação era terrível, me peguei xingando o guia americano diversas vezes. Mas as horas passaram e quando finalmente vemos eles terminando de descer fico feliz da vida, de longe consigo ver que estão no fim de suas energias, corro com garrafas de água e os ajudo com as coisas. Conversando com o Ben vejo que se irritou de ter saído tão tarde, se saíssem a 1am certeza que teria conseguido. Tento acalma-lo, porque afinal a montanha vai estar ali por muito tempo. Hora de comer e descansar, amanhã toda essa aventura nas montanhas acaba.

A noite não é como o esperado, primeiro acordo com o quarto super quente e seco. Bebo água, e molho uma camiseta e coloco na cabiceira da cama, de nada adianta. Ben também acorda com o mesmo problema, abro a janela. Ele volta a dormir mas pra mim era só o começo do desconforto. Cólicas estomacais voltam e a noite vira um pesadelo. Molho a minha camiseta e coloco a camiseta sobre ela, quem sabe assim quando respiro fica melhor e na verdade deu uma mehorada sim. Algum tempo depois as cólicas se transformam em mais uma vez diarréia. E pronto já não durmo e as seguidas idas ao banheiro acorda o Ben, que fica aflito. Ligamos para Caleb às 8am e pedimos para adiarmos a ida para o dia seguinte, ele diz que tudo bem, vem ao quarto com uma garrafa de água e remédios. O dia foi de descanso, muita água e de comidas leves. Em nossos rostos era possível ver que estamos tentando lidar com a possibilidade de eu ficar aqui, e além disso temos que lidar com a frustração que aumenta ainda mais de eu ainda não ter conseguido ir ao topo de uma montanha. Chorar não é a solução mas é a única coisa que alívia um pouco o coração apertado.

Com o passar dos dias pareço estar um pouco melhor, e voltamos a nos animar. Amanhã será o dia, amanhã saíremos daqui para o acampamento base e eu vou estar bem, vou conseguir, o pensamento segue assim, e na hora de dormir até me atrevo a tomar um remédio para controlar meu intestino. Durmo aflita porque sei que amanhã não posso decepcionar, e peço para meu corpo ser forte pelo menos nos próximos 5 dias.

Acordamos cedo, descemos as malas e fomos tomar um café da manhã. Enquanto o Ben se esbalda com torradas e ovos, eu tento ser o mais leve e neutro possível. 2 Torradas com manteiga, um copo de leite quente e litros e litros de água. José chega e é era de partir, a viagem de La Paz ao povoado de Pinaya é de +/- 4 horas, as condições das estradas são péssimas, a via de terra e pedras soltas é estreita, diversas curvas super-fechadas e encontros sem aviso de carros vindo do outro sentido. O precipício do lado direito aumenta a aflição, Ben chega a suar olhando a queda que fica a poucos centímetros das rodas de nosso carro. Chegar a Pinaya é mais que um alívio. Lá comemos um sanduíche de pasta de amendoim e geleia e fechamos 2 burros para carregar as coisas até o acampamento base.

Começamos a trilha, o lugar é muito bonito, passamos por diversas casas e cholitas puxando ovelhas, por aqui tudo é muito verde e quente. A medida que vamos subindo o calor vai diminuindo e o vento aumentando. Por mais resistente que eu tente ser meu corpo começa a entrar em colapso, o estomago dói e se revira. Mais uma vez é difícil respirar e manter o ritmo. Todos começam a reparar que estou ficando mais lenta e ofegante, e minha cara de desconforto demonstra que algo está me afetando. De início respondo que tudo está bem quando me perguntam, mas a revira-volta no meu estomago me obriga a confessar que não estou 100%. Diminuímos o ritmo mas seguimos em frente, quando a dor piora paro, sento e espero passar. Depois seguimos mais adiante. Começo a ficar brava porque não sei se mais uma vez fiz a escolha certa, minha cabeça segue com diversas questionamentos que a cada minuto penso em respostas diferentes. A todo instante José nos dá uma previsão de quanto tempo ainda falta sempre diz a mesma frase ” A esse passo mais ou menos 2 horas”. A verdade é que essa trilha normalmente leva entre 2 a 3 horas, e nós levamos umas 5 horas.

Ao chegar no acampamento, me deito sobre uma pedra que está no sol e me aqueço um pouco ali. Os outros vão olhar as coisas deixadas ao lado das barracas que já estavam armadas. Ben vem me checar e me chama para ir deitar um pouco.

A tarde e a noite no acampamento base promete ser tensa, enquanto Caleb e José conversam sobre o dia seguinte, eu e Ben estamos aflitos na nossa barraca.

La Paz é uma cidade bagunçada e um tanto caóticas, carros vem e vão a todo instante e respeito ao pedestre é algo que eles realmente não aprenderam na auto-escola. Uma briga de carros e pessoas que vão e volta sem parar no meio da fumaça e da poeira. O barulho de buzinas gastas, motores velhos, carburadores furados e de pessoas falando são a trilha que embala sua estada pelo centro. Para chegar a Calle Illampu, onde fica nosso hotel, passamos por diversos mercados de ruas e barracas vendendo das coisas mais comuns ao mais bizarro. Mesmo com todo esse caos a me esperar não tem como não sentir aliviado em poder descansar. Ouvir a palavra La Paz soa como calmaria, descanso, noites bem dormidas, banheiros limpos, comida quente e variada, acesso a internet e todo o luxo que estamos privados no acampamento. Não que eu não goste de acampar, aqui na Bolívia tem sido uma experiência de dois lados, boas conversas, caminhadas, lindas paisagens mas de outro muita dor de estômago, uma doença que não para e pouca comida. Me anima sempre a cada novo acampamento que vamos, mas a frustração de ainda não ter conseguido um pico me persegue e invade meus pensamentos a toda hora. Tenho consciência que não tenho controle sobre esse mal que anda me afetando e que me enfraquece a cada retorno. A vinda para La Paz me enche de esperança, vir a capital é sempre sinônimo de fim de uma etapa mas também de recomeço. É daqui que começamos e é aqui que terminamos, logo mais uma chance de recuperação antes do Illimani.

A noite saímos para comer no Café Banais, ver o Augusto melhor foi bom, pena que daqui para frente não teríamos mais a sua companhia ou a de Kirk, eles fecharam o pacote de 14 dias que se encerrava essa noite. No dia seguinte partiriam para o Uyuni numa viagem de 3 dias conhecendo o salar, as grutas e as lagoas com flamingos.

Volto para o hotel e não ter nenhuma dor de estômago só me deixa mais animada. Vamos dormir que amanhã é dia de passear e levar os nossos 2 parceiros para conhecer a porte cult da cidade, do outro lado da avenida Perez Velasco tem uma infinidade museus, catedrais e galerias. O destino na verdade era a Calle Jaen a mais antiga da cidade.

Acordamos atrasados para o café da manhã mas mesmo assim conseguimos chegar a tempo. O dia foi cheio como imaginamos e o passeio agradável. Entramos no museu de intrumentos musicais e nos divertimos muito, por 5 bolivianos você pode conhecer um pouco da cultura musical local e tocar muitos dos instrumentos expostos. Depois fomos a um café que fica no fim da rua, onde comemos sanduíches e bebemos capuccino. O Ben e o Augusto provaram Chocococo, que é um chocolate quente com leite condensado, mais gostoso do que imaginei. 

Depois de muito passeio hora de voltar ao hotel e arrumarmos as malas seja pra ir para o Illimani ou para o Uyuni. Uma despedida breve e a certeza do reencontro quando voltarmos da montanha.

Arrumar a mala parece cada dia mais simples, e dessa vez fica fácil saber escolher o que fica no hotel e o que levamos. A noite chega e junto a fome, ligamos para Caleb e vamos ao Lunas, um restaurante bem perto do hotel. Lá conversamos sobre o que nos espera em Illimani e comemos uma lasanha vegetariana. Voltamos para o hotel e combinamos de sair amanhã às 9am.

Agradecimento a Augusto por suas fotos aqui nesse post.

Hora de voltar a La Paz, antes temos que descer até o acampamento 1 e arrumar as coisas. Descer foi tão difícil quanto subir, as botas plásticas escorregam em todo lugar e certeza que umas 4 vezes rezei pedindo pra não morrer, mesmo sendo ateia nessas horas recorro a todos. Vou o caminho todo me equilibrando e tentando tomar cuidado, a cada escorregada meu pensamento vai para o Ben e para minha mãe. Morrer não é uma opção, ainda mais assim tão nova, a cada escorregada José brincava que eu queria esquiar sobre a pedras, eu retribuo a risada e falo que esquiar ali é suicídio e que se eu morrer minha mãe me mata. Ele ri muito e diz que nada vai acontecer.

Vou andando super lenta, e as pessoas vao me passando com facilidade. José se irrita com o fato de eu não ter aprendido a usar crampons e as botas direito, e fica tentando me ajudar. Presto atenção a cada conselho e ensinamento dele, mas a velocidade do meu passo não aumenta.

Tudo bem não estamos com pressa, os outros iam descansar, desarmar as barracas, arrumas as mochilas e descer.

Ao chegar no refúgio, estou morrendo de fome, a última coisa que comi foi a meia noite e já são mais de 16h. Sento dentro do refúgio mas estão cozinhando sopa e macarrão, saio procurando um cheiro neutro, encontro José que tenta resolver meu problema com um copo de chá.

Algumas horas depois os outros finalmente chegam, Kirk compra cerveja e resolve comemorar. Tento beber um copo mas fica difícil. Mesmo assim brindo, tiro fotos e me divirto.

Tudo arrumado, todos no carro, hora de partir para La Paz e contar tudo para Augusto.

Todos acordaram cedo e desceram para o café da manhã. Um pouquinho de mingau de aveia. Augusto não parecia melhor e na verdade já avisou que não iria subir, se sentia mal e com dores, e o melhor seria voltar a La Paz. José chega e leva nosso companheiro italiano para a capital boliviana. Ficamos triste com a baixa na equipe, mas temos que seguir em frente, essa noite ainda sairíamos rumo ao cume do Huayna. Mochilas só com o que precisamos, botas plásticas calçadas e era hora de seguir para o próximo acampamento.

A subida era bem íngreme, repleta de pedras soltas, resto de neves da noite anterior. No começo fui indo bem, mas com o decorrer do tempo o ar me foi faltando. Mais uma vez Kirk para ao meu lado e começa a me ensinar técnicas de respiração. A que ele me aconselha em usar é o rest step, você ritmiza sua respiração de acordo com os passos, deixa a caminhada mais lentas mas a respiração mais eficiente. Fico melhor e vou conseguindo, o problema é que estou muito mais atrasada que os outros. No meio do caminho Caleb sugere uma parada e pega parte das coisas da minha mochila pra carregar, manda o Kirk e o Ben seguir na frente e vai comigo mais atrás. Aqui recomeçam os problemas, o guia começa a me apressar e dizer que tenho que tentar criar um ritmo a cada dois passos. Vou ficando nervosa e ansiosa e me perco no ritmo respiratório. Começo a ficar mal de novo, sem ar e ter um colapso, a cada 3 passos uma parada.

Demoro bastante tempo para chegar ao topo e quando chego me sento na primeira pedra que encontro, sento e choro. Ben vem ao me encontro, e tenta me acalmar, explico que para mim não foi fácil, que com Kirk me acompanhando foi fácil porque ele me ajudava, mas já com Caleb foi difícil porque ele me pressiona e daí eu não consigo me concentrar e só consigo me sentir atrapalhando.

Ele me acalma e me leva a tenda, era hora de descansar. Caleb aparece com uma panela de creme de batata com feijão e salame. Como e me esforço para ter calorias e força o suficiente para o que me aguardava em poucas horas.

Obrigada Augusto por sua foto!

Mais um dia de decanso em La Paz, e acordamos já irritados com o fato de a água quente ainda não ter chegado ao quarto 206. Descemos para o café da manhã, e de lá fomos pedir um outro quarto para poder tomar banho, a recepcionista me pede paciência novamente e diz que vai mandar alguém. Outro rapaz vem verificar e vê que não tem jeito. Ao descer a recepção novamente uma discussão para a recepcionista nos ceder outro quarto, mas problema resolvido e lá fomos nós ficar limpos antes de começar a arrumação das malas e mochilas.

Nesse dia nenhuma grande novidade. No dia seguinte saímos cedo para o acampamento base do Huayna Potosi, na frente do hotel ao invês de José e seu Land Cruiser 91, estava Miriam a gerente da Agência local, e dois táxis. As malas já tinham ido mais cedo. Alguns quilômetros a frente encontramos o sorridente José e seu carro já todo pronto. O caminho do centro ao acampamento base leva mais ou menos 2 horas, em uma estrada que na minha opinião deve ser a mais nova Death Road. Entre uma curva e outra brincamos que temos que calcular o peso para  lado mais longe do precipício. A poeira e o deserto nos acompanham até um cemitério. Parada obrigatória para fotos. Enquanto o Ben e Augusto se deliciavam com as fotos das mini capelas e louças, eu ouvia a explicação de José, O cemiterio é para os mineradores que morreram nas antigas minas de zinco. Muitos trabalharam lá anos atrás, mas com o preço baixo do mineral acabaram fechando. Mais a frente passamos por toda a estrutura das minas, ainda de pé mas bem deterioradas.

Alguns minutos depois descemos no acampamento, a ideia inicial era acampar mas como tinha muita neve, Caleb optou pelo refúgio. Nos arrumamos em colchões, e Kirk nos convidou para um hiking. A ideia me pareceu ótima e seria uma boa oportunidade para treinar nas botas plásticas. Augusto começou a ter problemas estomacais de novo e decidiu ficar e descansar.

A caminhada por entre pedras foi difícil, não confiava em minhas botas grandes e pesadas, e escorreguei em muitas pedras, nos locais com neve era ainda pior. Com calma e me irritando em alguns momentos logrei chegar ao topo. Ao fim uma pedra lisa e que para mim parecia um escorregador era a parte final. Me neguei em pisar mas com a insistência do Ben e do Caleb encarei o desafio com muito medo. Sobrevivi, mas ainda tínhamos que descer. Kirk me ajudou com as botas, apertou bem no tornozelo e me deu dicas de como seria melhor. De volta ao refúgio cochilamos enquanto Kirk ainda caminhava nos arredores.

Acordamos uma hora depois e começamos uma partida de Uno, todos menos Augusto que não tinha melhorado nada. As regras do jogo me pareciam confusas e Caleb inventava coisas novas que nos deixava com dúvidas sobre de quem era a vez a todo momento.

No fim, o Ben ganhou e tivemos que aguentá-lo se chamando de rei do Uno o tempo todo.

Às 21h, finalmente uma refeição quente, macarrone cheese com atum. Comi um pouco porque não me parecia a melhor comida do mundo. Augusto pulou a refeição e os outros se esbaldaram.

Hora de dormir, amanhã será um dia puxado, a trilha até o acampamento superior prometia ser curta porém complicada.

A volta para La Paz foi tranquila, tínhamos 2 austríacos nos acompanhando, os dois também estavam super doentes com problemas intestinais e estomacais, nessas condições não dá pra negar uma carona a ninguém ainda mais que a maioria de nós tínhamos passado por isso. A trilha do acampamento base até o carro é repleta de belezas. Os animais na verdade dão a vida e a cor ao local, llamas por todos os lados seguidas de cholitas carregando seus bebês nas costas. Chegando ao fim da trilha tem uma queda d’água que dá vontade de mergulhar, mas falta coragem porque o frio é de matar. Todos resistem a tomar um banho menos Kirk, mais uma vez se mostrando mais vivaz que os outros, tirou as blusas e jaquetas e mergulhou a cabeça na água, até as moradoras do lugar riam impressionadas da coragem. Eu e o Ben ficamos olhando de longe e chegando a conclusão de sempre: Esse cara é louco!

De volta a trilha, Kirk vem sorrindo e dizendo que já se sente mais limpo e humano, mesmo sem xampú ou sabonete para fazer o banho decente. Ao chegar no carro encontramos Augusto todo empolgado tirando fotos das cholitas, com as cholitas e tudo mais. Ele se impressiona com a beleza das cores de suas roupas, seus dente de ouro e na força que tem em carregar tudo nas costas. Enquanto arrumamos o carro, lá está ele clicando, clicando e clicando.Kirk se junta a trupe e acabam deixando as mulheres super envergonhadas, a vergonha delas dava uma graça singela a toda situação.

No carro de volta o caminho foi tranquilo, alguns cochilaram, outros conversaram e eu estava morrendo de calor. A verdade é que quando se anda nessas estradas você escolhe entre calor ou poeira e nesse dia já dá pra imaginar  o que escolheram.

Chegando ao hotel, todos cansados cada qual pegou suas coisas e de elevador chegaram a seus andares. Pelo jeito a sorte não estava do nosso lado, e ao tentar tomar um banho a água só vinha gelada. Liguei na recepção e me pediram para esperar que mandariam alguém. Meia hora depois ligo novamente e a recepcionista me pede calma e diz que em duas horas teremos. Descemos para encontrar os outros e combinarmos o jantar,  Augusto me oferece seu quarto para uma ducha, na verdade eles estavam trocando de quartos e esse ficaria vago. Não resisto e aproveito a chance. Me sinto bem depois do banho e as energias parecem ter se recarregado. O coitado do Ben recorreu ao banho frio mas ainda estava na expectativa de um outro quente. As horas se passaram e nada da água, um pouco antes de sairmos pra comer um homem veio e começou a bater no tubo de gás, 15 minutos depois disse que em pouco tempo teríamos água quente.

Saímos felizes com a certeza que depois do jantar poderíamos tomar um banho quente e relaxante.

Para o jantar escolhemos um café restaurante aqui na rua sagarnaga chamado Banais, aconchegante e muito bonito a decoração  é bem diferente, saias de cholitas bem coloridas penduradas no teto que é pintado imitando o céu, o chão de vidro no terraço e com diversas máscaras de metal. Impressionante como pode haver lugares assim no meio de barracas e mercados a céu aberto. A comida também foi bem gostosa, e os smoothies uma sensação. Uma coisa curiosa sobre La Paz, ou melhor Bolívia, não se importam frutas, então a seleção é curta mas sempre fresca e natural.

Kirk estava pensando sobre fazer a Death Road no dia seguinte e o ajudamos a decidir que sim. De volta ao hotel, chegou a hora que o Ben mais esperou, o banho quente. Mas parece que fomos enganados e a água seguia congelante. Triste ver que o dia não terminou como planejamos.

Cada um no seu saco de dormir tentando parar de pensar no que nos espera e dormir. Nas noites anteriores foi possível me ouvir cantarolar enquanto o Ben tentava dormir. Eu com minha energia fora do comum faço isso quando meu marido não tá muito afim de conversar – eu sei que deve ser uma coisa meio irritante, mas não consigo me controlar – nessa noite o que era possível escutar eram mais uma vez gemidos leves. Dessa vez as coisas pareciam melhor para mim. Acordamos às 2am e começamos a nos arrumar. Já pronta comi um pouco de granola com leite, obrigada pelo Ben, demorei um pouco para me encontrar com tantas luvas e casacos e acabei atrasando um pouco. No começo tudo meio familiar já tínhamos feito esse trajeto antes, pelo menos eu, Bem e Kirk. A trilha até o glaciar leva mais ou menos uma 1h30, e é uma caminhada fácil. A noite não ajuda muito por ter muitas pedras e poças mas nada que me derrube. Enquanto ando vou sentindo pontadas no estômago e no começo vou as ignorando. Tento me concentrar nos passos e em seguir a pessoa a minha frente. Com o passar dos tempos as pontada vão ficando mais contínuas e já começo a pensar em abandonar o time enquanto ainda é possível voltar sozinha para o acampamento. Mais uns passos  e definitivamente essa não será a minha noite. Chamo a atenção de todos e comunico a minha retirada. Augusto diz que eu conheo meu corpo então sei o que é melhor. Caleb pergunta se posso ir voltar sozinha respondo que sim mas José diz que nem pensar, pega minha mochila e vai me acompanhando. Pelo caminho vamos conversando o tempo todo. Ao chegar no ponto onde é possível ver o acampamento peço que ele volte para o resto do grupo porque daqui em diante não tenho como me perder. Nos despedimos, e no caminho até a barraca sei que fiz a coisa certa. A dor se transforma em naúseas em com passar dos minutos tudo vai se revoltando dentro de mim. Uma noite recheada de cólicas e vômitos. Pelo jeito minha sorte tinha acabado mesmo e me via nas mesmas condições de Ben, Augusto e Caleb. A dúvida ainda fica se foi melhor ou pior para mim ter que passar por uma noite dessas sozinhas, me cuidei a base de muita água, massagens e compressas improvisadas. O problema de estar sozinha foi pra comer, na nossa barraca só tinhamos biscoitos, chocolates e coisas assim. Durante a tarde não me aguentei e revirei a bolsa de comida do Caleb e peguei um bagel seco e nada gostoso mas que saciou a vontade de comer algo salgado.

As horas ia passando e só conseguia pensar em como eles estavam e quanto tempo ainda faltava para chegarem. Entre um cochilo e outro ouço ao longe um chamado. A voz e o sotaque não tem como se enganar. Augusto e José chegavam felizes. Me perguntavam como eu estava, como foi o dia e tudo mais. Depois que respondi começo a ouvir Augusto contar os pontos altos. A verdade é que ele estava chateado em não termos tido aulas técnicas sobre uso de crampons e que isso poderia ter facilitado as coisas para o Ben porque em um dos momentos teve subida na rocha com os crampons e que ele ficou aflito em ver as dificuldades do Ben, mas foi bom saber que todos conseguiram chegar ao cume. Ele ficou pouco no topo e como estava só ele e o José a descida foi rápida.

Daqui em diante fiquei ansiosa e dando voltas do lado de fora na expectativas dos outros chegarem, do Ben chegar. Um par de horas mais tarde e vejo ao longe os 3 acenando. Visivelmente mais magros mas com um sorriso gigante.

Ben mal chega e se deita na barraca, está exausto. Fica todo empolgado me contando sobre as piores e melhores partes. Mais uma vez diz que o apoio de Kirk e Caleb foi essencial. Conta sobre a parte da subida na rocha e que se não fosse José vir e tirar seu crampons provavelmente teria gastado o triplo do tempo tentando se entender. Me disse que ficou apavorado num momento em que teve que andar numa pequena cresta bem no alto do Pequeño Alpamayo, que olhar para qualquer um dos lados só o fazia se sentir pior, a questão é que esse britânico tem medo de alturas e que naquele momento estava quase tendo um ataque de pânico. Passagem superada, chegada ao cume cansativa. Ele não conseguia parar de pensar que chegou lá mas que ainda tinha que voltar.

Foram 13 horas, +/- 1000 metros de altura, 4 barras de chocolates recheados, 2 litros de água, + de 5000kcal, tudo para isso para conseguir subir a primeira montanha.

Não vou mentir que no meu dia de espera não chorei, chorei sim, tentei lidar com a minha propria frustração. Foi duro pra mim ter que lidar com tudo isso sozinha. Ao final fiquei feliz sim, e orgulhosa de ver que ele conseguiu superar seu corpo e sua cabeça. A minha chance ainda virá, espero não ficar doente por mais dias.

A noite não foi como o esperado. Eu que estava o tempo todo me sentindo bem e confiante fui a vítima da vez do mal que  afetou quase todos. Não conseguia dormir com fortes cólicas estomacais, diarréia e uma forte sinusite. Sei que dar detalhes assim de minha doença não deve ser muito legal de ler mas escremos aqui para documentar o que esse projeto nos leva a conhecer e sofrer. Mas o problema só piorou mais a noite quando fui ir ao banheiro me deparei com o lado de fora da barrraca cheio de neve, nevava forte e foi um tanto difícil conseguir enxergar e andar. Apesar dos dias frios em Winnipeg nunca tive que andar sobre pedras para chegar em algum lugar. Na primeira ida etava tão confusa com o mar branco que surgiu a minha frente que cheguei a tomar a direção errada, depois me encontrei e consegui ir e voltar. Da segunda vez quase caí várias vezes escorregando a cada passo. As horas passaram e enquanto isso eu fui me esforçando o máximo para ficar bem.  Ao ouvir o grito de Hot drinks de Caleb cheguei a chorar frustrada, me sentia injustiçada por só agora ficar doente. O Bem começou a se arrumar e podia-se ouvir o movimento de todos lá fora. De repente ouço o grito de Caleb mais uma vez, dizendo que as condições do tempo não permitiam a nossa saída agora que iríamos tentar sair umas duas horas depois. Mais uma chance pra eu conseguir. As horas se passaram e nada de eu conseguir melhorar a pior parte eram as cólicas. Infelizmente para os demais, felizmente para mim, a saída foi cancelada e marcada  para a madrugada seguinte.

Dormi mais calma e tentei aquecer meu estômago para aliviar a dor. Manhã seguinte acordo com um convite para uma caminhada curta só pra aclimatar. Rejeito juntamete com Augusto, como ainda não estamos 100% decidimos ficar no acampamento e descansar. Ben, Kirk e Caleb saiem. Algumas horas depois ouço a voz alegre de José me perguntando se estou melhor se não seria hora de sair um pouco da barraca. Sigo seu conselho e encontro Augusto do lado de fora. Conversamos um bocado, na maior parte sobre o 360 Extremes. Ele fica me perguntando sobre o trajeto, os cursos e dando diversas ideias. A conversa foi boa porque pude esquecer um pouco. Comi um bagel, e papeamos mais. Alguns cochilos durante a tarde. E a maior parte dos sintomas passaram, as cólicas iam e voltavam, mas estava convencida que saíria e consegui subir com todos até o meu primeiro pico.

Mais ou menos 6 horas depois os outros finalmente chegaram. Sorridentes e empolgados, o motivo haviam subido o Pico Aústria para aclimatar, uma subida nada difícil mas que dá pra sentir a altitude de acordo com o Ben, ele fez questão de falar que só cnseguiu chegar ao topo com o suporte mental de Kirk que não o deixou voltar. Kirk, louco como é teve a capacidade de tirar a camiseta e ficar fazendo poses de alterofilista. Sempre fazendo graça virou um super parceiro para o Ben.

Chegaram cansados e com fome. Eu e o Augusto estávamos famintos e ficamos empolgados ao ouvir os planos de Caleb de hot drinks e jantar. Pena que no meio ele mudou de ideia e acabamos treinando técnicas de como andar e se comportar com a corda que nos mantém unidos. A essa hora vou confessar que nenhum de nós estava contente. O frio piorou, o vento aumentou e nos parecia idiotice ficar ali fora se desgastando ainda mais sendo que a noite seria puxada. Tentamos fazer tudo o mais rápido possível, e pela primeira vez pudemos ouvir uma reclamação da boca de Kirk. Ao terminar encontramos Caleb no fogão assando salames, crackers e queijo. Esse realmente não era o dia do Caleb, Augusto não come frituras e na minhas condições ta,bém não foi a melhor pedida.

Todos na cama cedo, e mais uma noite de expectativas, se o tempo deixar em poucas horas estaremos todos a caminha do pico que estamos com sede de conquistar desde o dia que entramos no avião.

Todo mundo por aqui deve saber que nós nunca estivemos numa montanha, logo nunca enfrentamos os perigos que existem ali. Por isso o terceiro dia foi um dia de se aprender. Também não queríamos forçar os que estavam doente e mesmo Augusto ainda não estava 100%. Acordamos umas oito da manhã, nos reunimos para um chá quente e cereal. Demos uma caminhada pelo lago, brincamos com um estilingue boiviano que Kirk tinha comprado no primeiro dia. Depois nos reunimos para treinar tipos de nós. Os principais foram: oito – o nó mais usado no montanhismo e também na escalada da rocha, “eight in a bite” , prusik, clover, fishmen, e outros mais. Aprendemos onde deve ficar a sua ancora, o texas kick, o prusik de segurança, e como deixar sua cadeirinha mais segura com carabinas no seguro.

Como não temos fotos e esse monte de nome de no deve parecer grego, segue um vídeo mostrando como se fazer esses e outros nós tão importantes para o escalador:

Depois aprendemos que em caso de queda numa crevasse o certo é deixar os pés longe das paredes, porque o crampon pode segurar bruscamente e você acabar girando o corpo, não se deve soltar o ice axe e assim que possível craválo com as duas mãos na parede usando-o como breque, entendido isso depois de compreendido o posicionamento fomos para a rocha para aprender como sair de dentro da crevasse, subindo com a ajuda do texas kick.

Vídeo demonstrando o uso do Texas kick:

Fomos até uma rocha velha e que me dava medo só de olhar a cada agarrada as pedras se soltavam. Mas de acordo com o Caleb era segura se pendurar na corda e se içar até mais ou menos 10 metros do chão. O primeiro a tentar foi Augusto, que por ter uma cadeirinha de fita simples, não conseguiu nem sair do chão, falando português claro, as fitas amassavam as bolas dele. Desistiu e foi a vez do Ben que teve um pouquinho de dificuldade no começo, é complicado se equilibar e tentar se sustentar tão perto do chão, mas ele conseguiu, dificuldades na descida também superadas, chegou a vez de Kirk que tinha uma cadeirinha parecida com a de nosso parceiro italiano mas o nosso super homem não teve problemas, até brincou com o aperto na virilha. Finalmente chegou minha vez, por causa do vento forte estava com um pouco de sinusite mas me esforcei e encarei a tarefa, todos dando o suporte e falando que eu etava indo muito bem, fui subindo, subindo e subindo até que Caleb riu e perguntou quando eu ia começar a descer, dei graças por poder começar a descida. Treino terminado hora de voltar ao acampamento, com a sinusite mais forte e os ventos também a volta não foi das mais agradáveis. Chegando no acampamento vesti uma touca e me enfiei dentro da barraca não saindo nem pra comer. De lá pude ouvir eles combinando a nossa primeira saída para a montanha, às 2h30 da manhã começariamos a caminhada sentido ao Pequeño Alpamayo. Comemos um macarrão e dormimos ansiosos.

O segundo dia não melhorou, quer dizer melhorou um pouco pelo menos para o Ben. Ele acordou um pouco mais forte, os vômitos continuaram mas mais espaçados. Em compensação Caleb e Augusto acordaram com os mesmo sintomas. Caleb não teve nem coragem de sair da barraca enquanto Augusto vomitava a cada gole de água. Eu e o Kirk eramos os únicos fortes e saudáveis e por isso mesmo ficamos meio que cuidando de todos. Levamos o Ben para uma volta enquanto os outros tentavam cochilar. A caminhada não foi longa mas acreditávamos que um pouco de exercício iria ajudá-lo.

A parte complicada foi tentar esquentar a água. O fogão eo combustível era algo que de olhar não dava pra entender como funcionava. Bombamos, viramos e reviramos a bomba de gás tentando ascender o fogão. Todas as tentativas frustradas. Acabamos pedindo ajuda a um rapaz da barraca ao lado. Tato, um argentino sem sotaque argentino no espanhol ou no inglês, super atencioso. Levamos o fogão até sua barraca e ele nos mostrou como fazer. Pareceu simples e ao voltar para nossa tenda tentamos novamente. Que frustrante o fogo ascendia e apagava segundos depois. Tentamos por uns 15 minutos até que Kirk pediu pra eu ir de novo ao Tato e trazer ele. Ele veio e ascendeu, oferecemos chá quente e o convidamos para um bate-papo. A melhor ideia do dia, o rapaz era bem conversador e acabou distraindo um pouco o grupo de doentinhos. Ele é guia de montanhismo na Patagônia e matou a curiosidades de todos sobre o lugar. Kirk contou a sua história no Aconcágua e ficou perguntando sobre outros lugares para se conhecer na América do Sul. Caleb resolveu se juntar e conhecer o argentino que repetia o tempo todo a vontade de ir escalar no Alaska. Os dois trocaram informações sobre a cidade de cada um e as diferenças e similaridades dos dois lugares. Caleb ficou impressionado com o jeito relaxado em relação a segurança com que se levam os turistas para conhecer os glaciares, sem segurança eu diria, nada de cordas ou cadeirinhas.

O bate-papo durou quase 2 horas e depois os mais cansados voltaram para suas barracas.

Eu e Kirk preparamos sanduíches de salame, e outros de pasta de amendoim com geléia. Ben foi o único que conseguiu comer e não passar mal. Ótimo sinal, e com certeza acalmou os medos que tínhamos antes de voltarmos ao Brasil sem subir uma montanha sequer.

O dia foi passando e cada um foi mostrando sinais de melhora, o único a não demonstrar reação foi Augusto. Dava pra ver como emagrecia a cada hora. O pior é que ele desistiu de comer, porque achava que comer só ia piorar e nesse momento estava se desidratando. De manhã havíamos decidido que todos os doentes iriam começar a tomar Ciprus, um antibiótico que tivemos que trazer no kit-med a pedido da agência. Augusto foi o único que começou a toma mais tarde e por isso mesmo devia se o que mais demorava a se recuperar. Horas se passaram e de noite nos reunimos na barraca do Caleb para o jantar. Nada muito substancioso mas quente e acolhedor. Uma sopinha de tomate, e bem picante do jeito que nosso guia americano gosta. Não me pareceu uma escolha sábia porque coisa picante tende a ser agressivo ao estômago e a sopa sem calórias ou vitaminas suficientes para tudo o que a maioria perdeu nos ultimos dias. Depois de uma conversa rápida todas para cama.

Finalmente eu e o Ben tivemos uma boa noite de sono, eu até fiquei cantando na barraca antes de dormir o que me rendeu vários pedidos no dia seguinte. Acho que de fora da barraca minha voz parece boa, porque enquanto o Ben sofria com minha desafinada voz o Kirk e Augusto achou bem relaxante.

Apresentações feitas vamos as jornadas porque cada dia é uma maratona. A noite antes da ida ao acampamento já é bem exaustiva. Difícil controlar a ansiedade e organizar o tempo para todas as coisas que uma saída de 6 dias na montanha exige. Arrumar a mochila para quem nunca tinha feito isso antes se mostra muito mais complicado do que poderíamos imaginar. Você tem que pensar no balanço, organizar de acordo com as possíveis necessidades e ainda assim tentar deixar tudo o mais compacto possível. Saber escolher bem o que levar e o que deixar, por isso mesmo acredito que montanhismo é um esporte um tanto sujo, por uma bagagem mais leve e mais fácil de se carregar por longas caminhadas o montanhista abre mão de trocas de roupas. AS únicas peças que você leva a mais são roupas intimas e meias. O resto se resume á uma camiseta, um conjunto de calca e camiseta um pouco mais quente, outro conjunto de fleece (um tipo de moleton), uma jaqueta pesada, um corta vento. A maioria dessas roupas você usa diariamente.

Falando assim parece pouca coisa afinal a roupa dá pra colocar em uma mochila de ataque, mas ainda temos que carregar o saco de dormir, as botas para neve, capacete, colchão térmico, isolante térmico, lenços umedecido, papel higiênico, pratos, mugs, e garrafas de água.

Depois de horas e horas conseguimos finalmente terminar essa façanha. Dormimos um pouco e antes das 7am estamos descendo para recepçao nos reunir com todos e checar as últimas coisas. José chega com seu jipe e começa a colocar tudo em cima. Uma grande montanha de mochilas e malas se forma e ele cobre com lona e amarra com cordas de forma com que não balancem ou se perca algo no caminho.

A viagem de La Paz ao acampamento do Condoriri é de mais ou menos 3 horas, passando pela parte do mercado e dos postos de gasolina com filas gigantes, muita fumaça dos carburadores dos carros e uma grande bagunça no trânsito de pessoas e carros. O tráfego aqui é uma verdadeira bagunça carros se enfiando em qualquer lugar, pessoas atravessando e quase sendo atropeladas a cada metro. Não existe preferencial ou sinalização que ajude a multidão de motoristas apressados. A quantidade de lotação e ônibus é impressionante e pelo o que pude entender não existem pontos específicos de parada, as pessoas param em qualquer lugar tanto para subir quanto para descer. É uma grande emoção estar a bordo de um carro aqui, a todo momento você se espreme para um dos lados e suspira aliviado por ainda não ter colidido.

Ao chegar na estrada a vista muda, ao invês de fumaça, casas de tijolos em construção, e  um mar de carros velhos se transforma em um calmaria, a linda cordilheira real ao lado direito, casas de tijolo de barros, llamas e ovelhas do lado esquerdo. Ao passar pelo pedágio várias cholitas tentam nos vender sacos com uma espécie de suco. Ninguém tem a coragem de tentar. E o Augusto fica tentando tirar fotos da chola com a criança presa no pano nas costa. Irresistível não tirar fotos delas todas com sorrisos de ouro e roupas super coloridas. Com certeza as cores das vestimentas é o que dá vida a Bolívia.

Saindo da auto-estrada, entramos em uma estradinha de terra e pedra, com pontes que pasam por cima de buracos que devem ser lagos em alguma época do ano, alguns lagos sobrevivem e congela uma parte fina, deixando a água barrenta com uma textura estranha. As llamas a esa altura estão em toda parte grandes, calmas e com fitinhas coloridas em suas orelhas dão uma graça especial a os campos secos e intermináveis.

Chegamos a entrada do acampamento, daqui partimos a pé até o acampamento cada um carregando a sua pesada e grande mochila, os burros carregam somente as barracas e as malas de comida. Numa trilha de mais ou menos 4 km, passamos por lagos, cascatas, e avistamos o Condoriri com sua imensidão e beleza. Difícil dizer em que momento ele é mais bonito.

Para mim a caminhada até o acampamento foi fácil, preferi manter um ritmo e não conversar com ninguém, segui atrás do Caleb e do Kirk, enquanto o Ben e o Augusto vieram mais atrás conversando e tirando foto o tempo todo, a mais ou meno 15 minuts de caminhada esperei o Ben e chequei se ee estava bem. Ele disse que sim um pouquinho de dor de cabeça, bebeu água e continuamos a caminhada. Uma meia hora depois ele estava se com ânsia e um tanto deconfortável. Ao chegar no acampamento não tinha forças nem para nos ajudar com as barracas, tinha frio e sede. Dei um pouco de água com maltodextrina, mas foi o tempo dele engolir e começar a vomitar. Daqui em diante o dia foi piorando pra ele. Vômito, diarréia e nauseas constantes. Caleb vinha checar o tempo todo e disse ser muito agressivo para ser somente altitude que podia ser infecção intestinal ou algo parecido. Queria levar-lo  de volta a La Paz, mas Ben pediu para esperar até o dia seguinte.  A noite foi intensa e interminável. Acordava a cada 10 minutos pedindo água e indo ao banheiro. Eu estava preocupada e forçava ele a tentar comer, a tentar beber água. Momento tenso para nós dois, ele doente, irritado e frustrado com a possibilidade de não poder subir a montanha e eu tentando fazer ele se sentir melhor, e também frustrada com a possibilidade de perdermos grande parte do dinheiro investido.