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Naty e Ben em John O'Groats 

Antes de começar a falar do último dia, queria explicar o motivo da falta de fotos nesse post, a verdade eh que o HD com tudo da viagem quebrou e está em conserto, assim que tivermos tudo vamos colocar as fotos desse e dos outros dias nas galerias.

Foi um tanto difícil controlar a ansiedade pelo último dia. Na verdade eram tantos os sentimentos na manhã que o mais complicado era saber a qual dar uma atenção maior. A essa altura o sentimento de vitória e conquista ia tomando conta da minha cabeça mas ao mesmo tempo eu me podia me ouvir falando ao fundo que a expedição ainda não havia terminado e que por mais que tivéssemos apenas 15km a nossa frente, olhando para trás eu pude ver que não houveram dias fáceis, até nos mais leves houveram grandes desafios e aprendizados. O inverno costumava ser sempre o maior dos opositores nessa batalha por conquistar quilômetros, e mais uma vez ele se provou duro.

O dia anterior tinha sido frio mas não houve ventos fortes ou chuva ou neve, assim a expectativa para o dia seguinte era que poderia piorar mas ainda assim não poderia ser as piores condições. Olhando a previsão mostrava que o dia teria ventos de até 60m/H, mas como sairíamos cedo do hotel e a distância era curta talvez conseguíssemos chegar a John O Groats com um tempo razoável.  Grande engano! Acordamos e no quarto já dava para ouvir o barulho do vento, abrindo a cortina víamos flocos de neve ensandecidos e girando de um lado para outro, os galhos das árvores balançava forte numa dança sem ritmo definido e tudo mostrava que a jornada poderia ser curta mas também a pior em dias.

Arrumar as coisas a essa altura é algo simples e rápido, cada um já sabe o que colocar em cada alforje e o que no começo levava meia hora hoje leva menos de 10 minutos. Comer o café da manhã é sempre bom e um tanto curioso, a essa altura ainda me impressiono com a capacidade do Ben em comer English Breakfast na manhã enquanto eu fico no chá com torradas e cereais. Se eu comesse salsichas, ovos e bacon frito com tomate, cogumelos e feijão pela manhã meu dia seria com dores estomacais e diversas idas ao banheiro, mas com ele não tem problema algum. Certamente um estômago muito mais resistente!

Começar a pedalar foi apreensivo no começo, os ventos podem ser confusos, e por mais que tenham uma direção dominante eles se rebelam e acabam mudando de direção. No começo vinha do lado e para variar a luta era para que a bike ficasse num canto seguro da estrada, que não tinham muito movimento de carros, o que ajudou já que assim poderíamos ficar mais no meio da pista. O vento contra o rosto tornava a experiência dolorosa, e olhar o caminho ficava quase impossível. Era um tanto assustador ver as placas de trânsito e dos vilarejos cobertas por neve, todas congeladas; os gramados brancos e as ovelhas todas juntas tentando se aquecer o quanto podiam. As aves no céu lutavam contra o vento e pareciam perder a cada investida, era possível ver elas tentando voar para um lado e o vento as levando para outro. Cheguei a rir da insistência das pobres aves em ir para onde o vento não as deixava sem me dar conta de que eu estava na mesma situação. Mas como que se dando por vencido o vento que me segurava passa a me empurrar e percebo que depois de tantas curvas a estrada me colocou no sentido certo. Parei de pedalar e curti o empurrão, as pernas começar a tremer de frio e me dei conta que precisava manter as pernas movendo para me manter aquecida.

Ver a placa Welcome to John O´Groats!, me fez sorrir, a felicidade de ser bem vinda pelo lugar que almejo chegar há 21 dias é uma recompensa não só por todo esforço, dedicação e investimento nessa expedição mas sim uma recompensa por todo o último ano de treino e estudo, por toda a nossa mudança de vida para estar mais e mais aptos para o 360 Extremes. E passando por aquela placa, pensando em tudo isso sigo pedalando atrás do Ben e sei que ainda não acabamos, aquela placa é um sinal de estamos completando mas o Final é no marco e não na placa. Seguimos em frente, paramos em um Pub para saber onde exatamente estava o marco e olhando para fora da janela deles pude ver como o vento e a neve pareciam ganhar força. Menos de 1 km nos separava do nosso pódio, então com um sorriso largo subimos nas nossas bikes, clipamos nossos pés e pedalamos. Olhando em frente ansiosos em avistar algo parecido com o que deixamos em Land´s End. Não vou mentir falar que ver algo simplesmente pintado no muro foi um tanto decepcionante, mas mesmo assim descemos das bikes pulando de alegria. Aquele era o nosso momento, emocionados nos abraçamos, rimos, gritamos. Comemoramos do nosso jeito, e o frio estava ali a toda a nossa volta, se mostrando o parceiro inseparável dessa aventura. Eu bem que queria ter uma garrafa de champagne na hora para imitar os corredores da F1. Mas o jeito foi tirar a foto com o rosto gelado e banhados pelas gotas da chuva.

Entramos na lojinha e compramos uma caneca para simbolizar o nosso troféu.

Mas depois de todo esse sentimento de vitória tivemos que subir de novo nas bikes e voltar para o pub para pedir um táxi. Pedalar de volta aqueles 600m finais, subindo na bicicleta eu já realizei que isso seria muito, mais muito difícil mesmo, só não percebi que seria doloroso. O vento incrivelmente forte me jogava para trás e parecia uma parede que não me permitia sair do lugar, mais uma vez senti tapas do vento contra meu rosto e olhar para frente era impossível. As gotas acertavam meus olhos por cima dos óculos e me obrigava a fechá-los. Pedalei com força, tentando me guiar pelo asfalto da rua o quanto pude, olhando para baixo. Avistei o pub e o Ben pedalando em frente, o vento me batia com força e parecia não me querer de volta aquele lugar que me parecia quente, protegido e seguro. Uma hora desci e empurrei a bike. Chorei aqui, chorei de dor, meus olhos doíam por causa do vento e da neve. Subi na calçada do pub e o Ben veio me ajudar. Entrei no pub e lá ele me abraçou e me confortou. Quanto frio, quanta força um simples sopro pode ter.

Essa expedição acabou, depois fomos para Orkney Island ver as paisagens, continuar na companhia dos ventos mas com menos oportunidades de pedalar. A jornada em busca de experiência e preparo físico e mental para a grande expedição continua e esse ano com ainda mais aventuras, treinos e aprendizado.

Map of Edinburgh

Map of Edinburgh

Acordar de manhã com a certeza que não vamos pedalar é bem estranho a essa altura. Mesmo sem despertador você acaba acordando cedo e com aquele ânimo agitado de que a estrada lá fora nos espera. Depois de tantos dias de estrada, pedais longos, cidades, pessoas, fotos, chuva, vento, neve, sol e tudo mais, seu corpo e sua mente mudam um pouco de funcionamento. Parece que você muda a voltagem e de 110V você vira 220V, então você fica super agitado no começo do dia e já acordamos morrendo de fome e mesmo sem pedalar nosso corpo parece pedir algo a cada uma hora e lidar com tudo essa energia extra e esse pedido por mais energia é algo complicado. Até que ponto a fome é fome ou é seu corpo querendo garantir carboidratos para uma jornada de pedal que na realidade não vai existir no dia. O melhor jeito é se ocupar. E estávamos com os hosts certo para isso.

The Witchery

The Witchery

Ao descermos para tomar café da manhã Charlie estava na sala com a mesa posta, Melanie já havia saído para trabalhar, sentamos a mesa, tomamos chá, comemos torradas com manteiga e geleia e conversamos. Conversamos bastante mesmo, Charlie é ator e tinha diversos causos para contar, o que ele conseguia fazer muito bem dando uma certa graça a tudo. Rimos muito e trocamos ideias e opiniões sobre trabalho e aventura. Ele acha todo esse projeto inspirador, e encontrar alguém que entende o porquê do 360 sem termos que explicar é um tanto incomum e motivador. Ele e Melanie passaram um ano em Nova Zelândia, onde 4 meses foram dedicados a uma expedição de bicicleta pelo país. As histórias contadas por ele reunidas as nossas até agora sinceramente daria uma ótima comédia. E me fez ver cenários de toda a expedição oficial que antes eu não poderia imaginar. Charlie disse que fez sua rota confiando em mapas e as vezes no mapa marcava uma cidade que na verdade nem existia mais. As pessoas não moravam mais na região, que estradas que era ditas como boas na verdade era péssimas e as vezes sem asfalto, estrutura e nada do que ele esperava. Tudo bem que hoje temos ainda mais opções de checar do que ele teve há 6 anos atrás.

Depois de papear por horas, começamos a nos arrumar para ser um pouco turista. Antes de sair Charlie pediu uma ajuda com as galinhas que ele e Melanie tem como bichos de estimação no quintal mas que insistem fugir para casa do vizinho. Foi engraçado vê-los tentando dar um jeito naquelas aves desengonçadas e teimosas. Problema resolvido fomos para o centro de Edimburgo, andamos pela cidade, tomamos um café e fomos a atração que mais nos recomendaram: Mary King Close. Eu realmente não recomendo a ninguém, achei caro e um tanto chato. A história é um tanto interessante afinal essa é a rua mais antiga e intocada de Edimburgo e imaginar como as pessoas moravam em 1600 é algo interessante mas andando pela cidade você consegue ver esses closes em todos os lugares e uma boa pesquisa no wikipedia te daria acesso as histórias.

Depois encontramos com Paulo, papeamos um pouco, deixamos com ele o saco de dormir para ele levar para Londres e fomos de volta para nossa casa da noite. Lá fomos recebidos por Charlie com batatas, vegetais, haggins veggie e cerveja – Melanie infelizmente teve uma crise de enxaqueca e não pode nos acompanhar. Mais conversas e mais conversas. Uma noite mais que agradável e mais um casal que queremos manter contato.

Jodrell Bank

Jodrell Bank

Acordar de manhã e ouvir pela janela o barulho do vento e da chuva forte pela janela é um tanto desanimador. Mas nossa intenção com essa expedição-treino sempre foi nos desafiar mais e mais e toda essa mudança climática e todos os desafios impostos pelo tempo e pela natureza sempre foram a grande questão. Então 6h30 sem choro e nem vela acordamos nos arrumamos e descemos para chá e torradas com geleia. É estranho acordar de manhã e se servir e ficar andando por uma casa que não é sua e os donos ainda estarem dormindo, mas a essa altura já estamos quase acostumados. Jon uma hora veio nos ajudar a tirar as bikes e conversar um pouco, e nesse meio tempo a chuva já não estava tão ruim.

Resting by the Canal

Resting by the Canal

Na verdade o passar do dia foi bom porque o vento e a chuva foram desaparecendo a cada quilômetro percorrido. Seria um dia bem longo (104km), mas a altimetria era ótima com pouquíssimas subidas. A estrada bem pequena e passava por dentro de pequenos vilarejos e fazendas era um deleite aos olhos. Paramos um pouco em Audlem onde aproveitamos um pouquinho, e depois seguimos em frente. Passamos pelo Jodrell Bank, um super radiotelescopio, que o Ben tinha ido com o pai quando era bem mais novo. Um tanto interessante ver algo tão tecnológico e moderno no meio de plantações e fazendas antigas.
Me fez lembrar de um dos filmes do 007, mas o Bem me disse que não é o mesmo lugar, e que de fato o do 007 nem existe.
Foi um dia de calmo proveitoso, sem ventos e com um solzinho no fundo que dava um ânimo para continuar pedalando. Levamos um pouco mais de 6 horas pedalando, mas com as paradas viraram 9, e ainda paramos bastante tempo no centro de Wilmslow para um café e papear já que os anfitriões da noite só chegavam em casa mais tarde.
Ao chegar em Heald Green fomos recebidos por Becky, Matt e o pequeno Theo, uma família jovem mas cheia de aventuras. Eles largaram o trabalho e percorrem de bike com o pequeno theo de dois anos na época num trailer percorram 4 mil milhas pelo Canadá e Estados Unidos. Um tanto corajoso e inspirador quando você pensa que uma criança dessa idade precisa de atenção. Com eles trocamos diversos conselhos, risadas e comemos um chilli com arroz, que confesso me fez muito feliz, depois de tanta batata eu realmente estava com saudades do arroz.
Como o dia seguinte prometia ser longo e bem montanhoso eu abandonei o bate-papo e fui para cama cedo.

Map - Worcester - Shrewsbury

Acredito que esse foi o pior dia depois do primeiro, apesar da distância ter sido razoável (83km) os desafios foram diversos: ventos forte, tráfego intenso e muitas subidas profundas de até 14%.

Na noite anterior o Ben e o Paulo havia chegado a casa de Caryl e Lyndon com bastante dor na articulação do joelho, e de manhã fiquei bem mais confiante ao ver que o Ben estava bem melhor. Nos primeiros quilômetros ele disse que ainda doía um pouco mas nada demais, já o Paulo continuava com uma dor significativa o que o fez ir pedalando o trajeto todo na marcha leve.

A estrada era bem bonita, diversos vilarejos, em alguns momentos a estrada tinha duas faixas para pedalarmos o que com os ventos nos deixava mais seguro. Os ventos daqui são bem rebeldes, vem de frente do nada muda para o lado o que exige que você pedale lutando para ficar no canto esquerdo para não ir para frente dos carros. O vento contra sempre foi o meu maior medo de todo esse desafio, porque você pedala. pedala, pedala e não sai do lugar o que é um tanto frustrante depois de algum tempo.

Stats - Worcester - Shrewsbury

Os motoristas ainda me surpreendem sempre se arriscando na contra-mão para nos dar uma distância segura – lembro que quando estava no Brasil me dizima o tempo todo que os motoristas da Inglaterra eram super anti-ciclistas e que não faziam questão alguma de nos manter seguro – talvez em Londres isso seja uma verdade, mas como toda grande cidade o tráfego já um tanto estressante.

Tívemos um velocidade média bem baixa mas condizente com as condições. O vento congelava nossos dedos do pé, e não senti-los é algo agoniante. Então paramos em alguns café e conveniências para nos esquentar e comer algo, o bom é que com a rotina alimentar aconselhada pela nossa nutricionista Isabella Alencar, realmente teríamos que parar a cada uma hora.

Eu fui bem durante o caminho, sem dores, e com uma paciência que me surpreendia, quase não me irritava com nada. Me irritava às vezes pensar que chegaríamos de noite no destino, porque é quase impossível para mim enxergar sem luz e com a luz dos carros na contra-mão, mas não havia muito a se fazer quanto a isso, já que o dia não foi dos mais fáceis. Depois de um dia longo assim finalmente chegamos a casa de Jon e Angela que nos recebeu com uma taça de vinho, macarrão a bolonhesa e muita conversa sobre cinema, televisão e bike. Ainda tivemos tempo para dar uma lavada nas nossas roupas, o que já era mais que necessário depois de quase uma semana com a mesma camiseta, calca, jaqueta e balaclava.

Map - Timsbury - Worcester

O quinto dia de pedal foi longo. E o tempo não quis ajudar tanto dessa vez: chuva e vento. A rota até Wocesteralém de longa era recheada de subidas e descidas no começo e a estrada em alguns momentos me dava dúvida se ciclistas podiam ou não andar por ela.

Dias longos assim normalmente não permitem muito aproveitar e parar. Mas os vilarejo que cruzamos me faziam pensar em como um lugar tranquilo deve ser bom de se viver. Passamos por tantas casas e seu largos jardins que me fizeram imaginar como seria bom morar por ali. Ter um ou dois cachorros, andar de bike para todos os lugares e poder curtir mais a natureza e tudo mais que um pouco de calmaria poderia oferecer.

Sempre nas minhas viagens pareço apreciar e ver mais e mais como a natureza é perfeita. E aqui fico ainda mais encantada. Como pode cidade após cidade, independentemente do tamanho ter tanta variedade de pássaros. São tantos cantos, tantas cores e tantos tamanhos. Pela Inglaterra é possível ver diversas aves com o alcance do seu olhar. Fiquei triste a cada ave morta que vi nas estradas, e não só por elas mas também pelos coelhos e raposas. Me pareceu injusto com esses animais a forma como os carros passam por cima deles sem se arrepender e sem às vezes dar uma chance de fuga.

Numa hora me choquei ao ver pelo menos 5 aves no meio da estrada mortas em menos de 5km. Sinceramente me pareceu meio burro todas ali, um corpo seguido do outro. E me perguntava como pode todas elas morrerem tão perto. Depois fui saber que a tal ave era um phesants e que vários fazendeiros criam para soltá-las essa época do ano para as pessoas caçarem – um negócio bem lucrativo por aqui -, o que me fez ainda mais triste. Eu achei as cores dela tão viva e um pássaro tão bonito e mata-o assim me pareceu um tanto cruel.

Mas o que manda sempre é o dinheiro quem sou eu para julgar alguma coisa.

Os quilômetros passaram. As paisagens mudaram, e todos esses pensamentos sobre os bichos foram passando. Um mantra que fico repetindo durante o caminho com o forma de agradecer o tempo um tanto generoso que temos tido nesse inverno é “ Nature you are the best of all”, e assim me distraio.

Stats - Timsbury - Worcester

O dia passa de forma rápida e mais uma vez o que parece não passar são os últimos 15 km. Acho que a essa altura estou ansiosa demais por um banho, por um chá e por algo quente para se comer que devo olhar no odômetro de 5 em 5 segundos. Ao chegar no centro da cidade a ansiedade é substituída pela atenção, também com tanta rotatória e carro não dá pra ficar muito de olho no quanto falta. Os últimos km foram no total breu, então meu olhar ia se adaptando com as luzes dos carros.

Finalmente chegamos a casa de Caryl e Lyndoll, que nos receberam com um vinho aberto, e a janta posta (cordeiro assada com batatas, ervilhas e cenouras). Papeamos muito, afinal eles eram dois ciclistas cheios de histórias para contar. O Paulo teve um motivo a mais para comemorar as suas sapatilhas finalmente chegaram e agora ele poderia pedalar clipado. Por falar em clipe esse foi um dia que eu consegui pedalar tudo com o pé preso, tive uma queda no início, mas com o tempo melhorei.

 

 

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

O dia antes do começo do pedal foi tranquilo. Passeamos e conhecemos um pouco de Lands End. O dia estava bonito sem chuva e vento. Um tanto animador para o dia seguinte. Pena que o inverno nessa ilha é impossível de prever. E para tornar o nosso primeiro dia de pedal ainda mais desafiador acordamos cedo com o barulho dos ventos e da chuva, Nos atrasamos arrumando as coisas e tentando dar uma arrumada nas bikes. Anotamos o endereço da bicicletaria mais perto e saímos. O caminho até Penzance foi tranquilo. E a bicicletaria já ficava no nosso caminho. Lá arrumamos o câmbio do Ben e meus freios. Não demorou muito e pegamos a estrada A30. A estrada é bem movimentada mas achei bem tranquilo de andar por ali, sem muitas vistas e paisagens mas muito muitos carros. A chuva forte também não ajudou. Cheia de subidas e descidas longas e com um acostamento estreito não me sentia confortável em usar os pés clipados, o problema era que o pedal estreito escorregava toda hora. E os ventos nas costas ajudava nas subidas mas quando resolviam mudar de direção e bater na lateral dava uma certa sensação de instabilidade. Cada novidade que a natureza adicionava para esse dia exigia uma adaptação e me ensinava como manter o controle da bike que às vezes parecia estar viva.

Rota dia 1Entramos na cidade Redruth para comer e acabamos almoçando em um restaurante português, foi bom ler e falar português de novo. A comida bem gostosa e a dona do restaurante simpatia pura. Depois de 1h30 para comer seguimos viagem, estávamos na metade do caminho mas a luz duraria mais algumas poucas horas. O tempo continuava ruim ou ainda pior do que quando começamos.

Os ventos loucos atrapalhavam ainda mais nas descidas porque o atrito da bicicleta com o solo já estava diminuída e a pista molhada também não ajudava em nada, qualquer vento lateral me deixava muito insegura, então tentei controlar a velocidade nas descidas.

A chuva ia consumindo aos poucos, apesar de não sentir frio em nenhum momento, o que cansava mesmo era a água batendo na cara e com o passar do dia foi ficando escuro e pra mim era bem difícil de enxergar então eu precisava forçar mais a vista para ver e diminuir o passo.

Ficar mais lenta era ruim também porque eu acabava ficando bem mais atrás do Paulo e do Ben o que não ajudava para os carros me enxergarem e me estressava bastante porque meu medo era deles virarem em algum lugar e eu não ver.

Assim quando encontrei com eles parados embaixo da ponte me esperando pedi para pelo menos um ficar mais no meu ritmo porque me ajudaria a ver melhor a estrada – seria mais lanternas iluminando o caminho.

Dali em diante seguimos mais próximos. Depois de 8 horas pedalando os 3 já estavam bem cansados, mas finalmente vimos a entrada de Bodmin. Entramos e dali a casa do Jacob (nosso anfitrião da noite) deveria ser simples mas a estradinha que levava até a casa dele era cheia de subidas, lama e bem estreita. A noite estava extremamente escura e durante essa pedalada de poucos quilômetros mas de muitos sobes e desces eu podia ouvir meu freio fazer um barulho metálicos. Nas descidas fui controlando a velocidade com o pé no chão já que meu freio traseiro havia terminado. Na ultima subida eu já estava começando a pensar se a casa desse garoto existia, mas pude ver o Ben conversando com Jake. Chegamos! UFA!

A noite foi de tortas de legumes, papo e chá. A família era muito calorosa e receptiva. Conversamos por horas, eles colocaram nossas roupas na secadora, tomamos banho e deitamos para dormir em volta da lareira. Eu capotei, o Paulo apagou e o Bem ainda ficou um pouco escrevendo post e checando a rota do dia seguinte.

Primeiro dia foi duro e o seguinte recheado de novas sensações, mas isso eu deixo para o próximo post!

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

O dias até agora não tem sido dos mais fáceis.

Como eu disse no post anterior as bagagens do Paulo se perderam no meio da conexão e para reencontrá-las tivemos que fazer diversas ligações, ele teve que ir ao Aeroporto mais de uma vez e isso tudo levou mais de um dia para se resolver. A família do Ben já estava oferecendo todas as bikes e roupas que ele poderia precisar. Mesmo assim não seria nada confortável fazer uma viagem dessas com coisas emprestadas e com as suas sumidas. Eu não podia remarcar a minha ida a Penzance, então eu e o Ben viemos ontem. O Paulo conseguiu recuperar as suas malas e veio para cá no trem das 7pm.

The beginning of the journey

The beginning of the journey

A falta de sorte não parou por aí. Ao chegarmos aqui em Penzance a ideia era montar as bikes e seguir rumo ao hostel pedalando – a distância de Penzance a Lands End é de mais ou menos 17km. Mas a bicicleta do Ben deve ter colidido no avião ou veio com algo pesado em cima, porque o câmbio está amassado e a princípio pegava nos raios da roda. A minha tem problemas no freio. Acredito que a mudança de temperatura deu uma desregulada geral. Demos uma mexida e conseguimos arrumar um pouco mas não 100%.

Se o trem não tivesse atrasado poderíamos ter resolvido tudo ontem mesmo. Mas chegamos aqui já era escuro e a Bike shop estava fechada. O trem do Paulo também atrasou invés de chegar aqui a meia-noite ele chegou quase 3am.

Tudo isso nos fez chegar no consenso de atrasarmos o planejamento e começarmos o pedal amanhã.

Como tudo que é planejado direitinho. Esse dia parado aqui não programado nos leva a um efeito domino porque perderemos o dia de descanso em Bristol e também temos que avisar as casas que iremos ficar que chegaremos atrasados.

Dos males o menor.

Aproveitamos o dia de hoje para filmar e conhecer a região. A cidade é fria mas com lindas paisagens. Tiramos a foto do marco de Lands End e o Ben teve bastante vento e tempo para brincar com seu brinquedo novo: uma pipa. O que nos gerou diversas situações legais a pipa quase me acertando e depois quase “matando” o Paulo. Só ouvi os gritos do Bem para ele correr da pipa desgovernada que fazia piruetas e rajava em alta velocidade pelo ar. Uma pena porque com isso as cordas se enrolaram toda e tivemos que acabar com a brincadeira. A fome apertou e foi hora de procurarmos um lugar para comer. Acontece que a cidade é pequena e tem poucas opções para comer e nessa época do ano ainda nada abre. Uma caminhada longa até o pub mas com lindas vistas do alto para a enseada. Que por mais frio que fosse tinha alguns surfistas investindo nas poucas ondas no mar. Comemos e até experimentamos a cerveja local, recomendo muito a Cornish Tribute.

Depois foi reorganizar as malas e papear muito regados a chá.

Que meu próximo post seja recheado de aventuras nas estradas inglesas.

A neve cai que cai em Londres!!!

A neve cai que cai em Londres!!!


O clima confuso e instável que anda fazendo em São Paulo vai nos acompanhar até o fim de nossa jornada pelas terras britânicas. O tempo que se mantinha bom das últimas semanas começou a mudar e a temperatura promete cair. Com isso nossos desafios aumentam: mais chuva, vento e quem sabe neve.

The Guardian

The Guardian

Planejar essa viagem não foi fácil justamente por isso, o inverno na terra da Rainha sempre prometeu ser bem complicado de lidar e pra ser sincera, isso foi determinante na escolha entre LEJOG e a rota entre Buenos Aires e Santiago do Chile. As condições climáticas que iremos enfrentar agora vai nos ajudar a administrar melhor os trechos como Himalaias, norte do Canadá, Rússia e diversos outros lugares que terão condições muito próximas.

DIVISÅO MERIDIONAL

DIVISÅO MERIDIONAL

Por mais que o nosso treino aqui no Brasil se intensifique a cada dia, existem experiências que não conseguimos explorar do lado de cá do meridiano, assim o foco de cada viagem-treino é explorar esses aspectos.
Se manter informado é imprescíndivel para esse ciclotour, e hoje lendo o Guardian encontrei uma matéria muito interessante sobre os cuidados para os próximos dias na Grã-Bretanha:
“O escritório de Meteorologia deu alerta sinal amarelo (esteja atento) nas áreas leste, oeste e extremo norte da Inglaterra.
A neve caiu mais forte em partes de Lincolnshire e Cambredgeshire, onde alcançou 5 cm mas isso é somente metade do montante estimado pelos especialistas. Em outras áreas, incluindo Yorkshire, onde o aeroporto Leeds Bradford esteve em aviso de possível fechamento mas até o meio-dia os serviços de voo acabaram não sendo afetados.
A agência responsável pelas estradas recomenda aos usuários que irão cruzar o país, sempre checar as condições climáticas e das estradas.” ( CLIQUE AQUI para ler na integra)

São notícias assim que devemos estar atentos se não quisermos surpresas no meio de nossa jornada. Cada noite será cheia de ocupações e preparos para a manhã seguinte. E esses preparos já começaram faz tempo, mas isso eu deixo para o próximo post.

A ultima reunião nossa do 360 Extremes foi super proveitosa. Primeiro nos encontramos com a Mariane e a Cristiane, duas produtoras que trabalham escrevendo projetos para leis de incentivo a cultura e ao esporte respectivamente. O que nos parecia simples virou numa enxurrada de perguntas e um monte de coisa pra se pensar e correr atrás. A questão é que o projeto é grande e longo e formatá-lo para se encaixar nos parâmetros vai levar tempo. Depois de ouvir e falar muito com as meninas, saímos e paramos na primeira padoca que vimos e sentamos para conversar sobre coisas a fazer e ideias.

A correria aperta a cada dia, temos muito a fazer. Nos focamos em determinar quais treinamentos são os mais essenciais. O que se mostrou complicado, porque é difícil mensurar o que fazer um treinamento de sobrevivência polar ou uma viagem longa de bicicleta em lugares frios ou no deserto. Conversa daqui e conversa de lá, decidimos que se dependermos de tempos das férias do nosso trabalho faremos um curso de sobrevivência polar e uma longa viagem de bicicleta.

Daí surgiu a ideia de incluir vocês nessa escolha num momento você decide.

Pensamos em algumas rotas que seria ótimas para nos dar experiência e melhorar a nossa técnica, além de nos prometer lindas paisagens. E vocês vão poder nos ajudar a escolher entre o que pensamos e até mesmo nos dar sugestões. Para te ajudar vou dar uma explicada em nossa rotas.

Patagônia –  aqui do lado o que nos facilitaria em termos de dinheiro e tempo para chegar ao ponto de partida o Ushuaia. Partiríamos sentido Punta Arenas ou Puerto Deseado, as duas rotas se diferem por uma ser mais recheada de relevos e a outra ser mais plana. O clima será frio e as dificuldades seriam os ventos, neve e a qualidade das estradas.  Passaremos pela Patagônia durante o 360 Extremes, e seria legal conhecer pessoalmente um trecho e as dificuldades que encontraremos daqui um tempo

Reino Unido –  partiríamos do Norte da Escócia indo até o sul de Londres, uma viagem de 1100Km. O clima em toda essa área é ruim e instável. Em alguns lugares a sensação durante o dia é que se passa pelas 4 estações. Apesar de não passarmos por lá durante o projeto, essa condição climática nos prepararia para trechos da Ásia como os Himalaias. As estradas não seriam problemas e as opções para dormir seriam diversas.

São Paulo – Buenos Aires : apesar de ser na maior parte plano as péssimas estradas dariam muito trabalho nesses 2km.

Sabemos que existem diversas viagens e treinos de bicicleta nos EUA, Canadá e Europa e por isso que queremos saber da sua opinião e se tem outras dicas. Então vota aí!