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Na entrada da rota de manutenção já tinha uma subida, não muito longa, não muito curta. Paramos ao fim e fizemos um pic-nic. Sentamos e dividimos um pouco das frutas, pães e castanhas que tínhamos. Todo mundo que pedalavam e nos via ria ou fazia algum comentário. Rimos e papeamos por uns 15 minutos e depois seguimos em frente. Parte do trecho de terra parte no asfalto, nenhuma grande dificuldade até onde estava o André e cia para checar os freios da galera.

Bike checada, e seguimos viagem.  As paisagens pelo caminho foram maravilhosas, me distraiam um pouco. A Mata Atlântica é cheia de cores, cheia de verdes. O ar úmido e gelado era bem gostoso, depois de tanto sol na cabeça e de tanto calor da pedalada, esse clima me agradava.  Nas descidas eu controlava minha velocidade mas não segurava o freio. A estrada tinha de um lado morro e do outro um precipício que em alguns momentos só tinha um muro baixo de mais ou menos 25 cm de altura de proteção. No caminho me peguei pensando para que servia esse muro e cheguei a conclusão que era pra salvar a bike numa possível perda de controle do ciclista, o ciclista voa precipício abaixo mas a bike fica.

Paramos em uma cacheira, lavamos o rosto na bica, respiramos ar puro e conhecemos um novo canto remoto. Em um dia tantas coisas, tantas vistas, tantas cores. Antes mesmo de terminar  o percurso minha mente seguia repetindo as imagens num processo de tentar guardar cada detalhe de forma a não ser esquecido. Me vi num passeio ao invés de um desafio. Mas como dizemos na escalada toda via tem um crux e o dessa via uma hora ia chegar. A essa altura eu tinha concluído que o crux tinha sido a primeira subida lá no Grajaú, mas de repente vejo uma subida com boa parte da galera a frente empurrando e quem pedalava tinha uma cara sofrida.

Parei a bike no início, bebi algumas goladas de água, respirei fundo e fui. Com calma, controlando a ansiedade e a respiração. Só parei na hora que um ciclista que empurrava a bike entrou na minha frente e parou, isso me irritou um bocado, pedi pra galera que empurrava tentar ficar do mesmo lado e deixar um lado livre para aqueles que tentavam pedalar.  Subi na bike e recomecei, começar a pedalar na subida é algo um tanto complicado, tentei 3 vezes até conseguir, no topo lá estava o Ben me esperando, vi em seu rosto a felicidade ao ver que consegui chegar lá em cima sem empurrar, em seu olhar eu conseguia ver o orgulho e isso me deixava ainda mais realizada. Desci da bike e comemorei com ele.  Sentamos comemos e ficamos papeando com quem já estava por lá. Dali em diante foi uma descida interminável até Cubatão.

A saída do parque Serra do Mar é num bairro bem pobre e pra evitar assaltos seguimos unidos, a orientação era de irmos num grupo sólido até a ciclovia de Santos. Passando a rodoviária eu já me sentia super feliz, chegar ao quiosque então era uma mistura de diversos sentimentos bons.

Para comemorar comemos lula, peixe e tomamos muito suco, certeza que a nossa nutricionista Isabella vai ficar feliz em saber que escolhemos esse cardápio no lugar de breja e batata frita.

Esse foi um trajeto difícil, ainda mais quando se pensar em descer pra praia, mas olhando pra trás, depois de Sorocaba, Santos não foi tão difícil assim.

Igrejinha do Bororé

Igrejinha do Bororé

Depois de tanto tempo finalmente consegui parar para escrever como foi a nossa descida para Santos, antes de mais nada já vou logo avisando que quando eu for para a Baixada de bicicleta nunca mais vou usar o termo descer e sim subir. Desci bastante mas mesmo depois de 100km a sensação de que mais subi não saiu da minha cabeça. Inclusive agora, depois de quase um mês essa sensação e essa certeza não passou.

Quem quiser conferir a rota!

Uma parte do caminho já havíamos feito na ida para Rio Grande da Serra, então  eu já sabia que logo no começo, para ser mais específica no Grajaú eu teria que subir uma “parede”, na primeira vez eu não havia conseguido e tinha empurrado a bike até o topo, dessa vez fui determinada a fazer diferente e não empurrar em nenhum momento. O complicado ali era a grande quantidade de carros você tinha que pedalar cm calma e prestando atenção no que vinha de trás, venci a subida mesmo com um pouco de falta de ar ao final, mas depois de um gole de água tudo estava bem e segui em frente. Nos perdemos às vezes na rota, mas porque o Galo que nos guiava não conhecia bem esse novo trajeto montado pelo André, foi até engraçado porque uma hora pegamos um caminho com subidas e descidas longas e depois vimos que fizemos o caminho errado voltamos e ao fazer o caminho certo saímos no mesmo lugar uma quadra acima. Na hora parte do grupo ficou um tanto irritado com o desgaste desnecessário, mas eu achei graça.

O bairro do Grajaú é um ótimo treino para subidas e para andar em lugar com grande tráfego de carros, mas a grande quantidade de micro-ônibus me deixava tensa, por isso chegar na balsa foi um alívio. A Ilha do Bororé é um show. O cenário é muito bonito, a estrada um verdadeiro charme e me vejo impressionada sempre que penso que um lugar assim tão calmo, recluso e cheio de mata está dentro de São Paulo. Apesar da estrada ser estreita e de duas vias, há poucos carros e pedalar por ali chega a ser relaxante.  Passando por sítios, vendinhas e fazendas pequenas você se distrai muito fácil e o tempo passa rápido. Dessa vez após a segunda balsa viramos a direita onde pegamos 600 metros de subida em asfalto. Foi bem sossegado mas ao chegar no topo nos deparamos com uma descida de terra e pedras soltas, teve gente que chegou a desistir e voltou, eu fiquei receosa porque ainda não havia superado o medo de descidas e não sou tão experiente na junção terra e ladeira. Mas fui no meu ritmo, do meu jeito. Alguns passaram ao meu lado a todo vapor que chegava a subir uma nuvem de fumaça a minha frente. Mas nem assim arrisquei imitar. Por aqui também tivemos subidas difíceis mas consegui. Na maior parte do tempo estava com o Almir, Ricardo e Vitor. E isso me deixava mais segura. Uma equipe unida, eu diria, um esperando e dando suporte ao outro.

Trecho de terra na Ilha do Bororé

O Ben seguia a frente mas também com o porte e a facilidade que ele tem em subidas seria injusto e um tanto cruel obrigá-lo a seguir conosco, porém depois de uma descida muito íngreme ou de uma subida estúpida lá estava ele me esperando e checando se consegui chegar bem. E isso me deixava tranquila.

Para entrar na Imigrantes tivemos que carregar as bikes morro acima, e para ficar mais fácil fizemos uma corrente, cada um passava a bicicleta para o outro até chegar ao último que a encostava no muro ao lado da pista. O trecho que pedalamos pela rodovia foi curto mas bem difícil porque estávamos no contra fluxo e a resistência do vento foi um adversário de peso. Nessa hora lembrei de um texto que li em algum blog e cheguei rir em pensamento – “Pedalar numa subida muito íngreme é como comprar uma casa financiada cada parcela é difícil mas ao final você tem uma conquista, pedalar contra o vento é pagar aluguel, é uma energia imensa para algo momentâneo”. Acho que pensar nisso me ocupou e quando menos esperei cheguei na entrada da estrada de manutenção, mas o resto desse desafio fica para o próximo post.

Parada para água e reabastecimento!