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1,480km in cycling through the British winter
1,500km in cycling through the British winter

Hoje aqui posso agradecer aqueles que nos ajudam e que o apoio foi de suma importância nessa mais nova conquista.

Obrigado a Casa de Pedra por estar ao nosso lado desde o começo, onde podemos treinar em uma estrutura completa e nos manter condicionado para qualquer desafio: seja escalada, ciclismo, montanhismo ou corrida. Você nos dá flexibilidade para fazer dessa expedição um  sucesso.

Obrigado Dra. Isabella Alencar por acreditar em nós, por estar sempre atenta a tudo que possa melhorar nossa performance, por nos instruir em cada treino e em cada nova modalidade que entramos e por nos ensinar o valor que uma boa alimentação tem na vida de um atleta. Certamente sem a sua dieta esses 17 dias pedalados teriam sido muito mais cansativos.

Obrigado ao Fabio Jobim  com seus treinos na escalada reforçando e desafiando minha cabeça mais e mais, por trabalhar minha resistência e me deixar pronta para esse desafio!

Obrigado a minha família e amigos que me apoiaram todos os dias. Que o 360 Extremes continue me levando a lugares e experiências que exijam de mim superação.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

Naty e Ben em John O'Groats 

Antes de começar a falar do último dia, queria explicar o motivo da falta de fotos nesse post, a verdade eh que o HD com tudo da viagem quebrou e está em conserto, assim que tivermos tudo vamos colocar as fotos desse e dos outros dias nas galerias.

Foi um tanto difícil controlar a ansiedade pelo último dia. Na verdade eram tantos os sentimentos na manhã que o mais complicado era saber a qual dar uma atenção maior. A essa altura o sentimento de vitória e conquista ia tomando conta da minha cabeça mas ao mesmo tempo eu me podia me ouvir falando ao fundo que a expedição ainda não havia terminado e que por mais que tivéssemos apenas 15km a nossa frente, olhando para trás eu pude ver que não houveram dias fáceis, até nos mais leves houveram grandes desafios e aprendizados. O inverno costumava ser sempre o maior dos opositores nessa batalha por conquistar quilômetros, e mais uma vez ele se provou duro.

O dia anterior tinha sido frio mas não houve ventos fortes ou chuva ou neve, assim a expectativa para o dia seguinte era que poderia piorar mas ainda assim não poderia ser as piores condições. Olhando a previsão mostrava que o dia teria ventos de até 60m/H, mas como sairíamos cedo do hotel e a distância era curta talvez conseguíssemos chegar a John O Groats com um tempo razoável.  Grande engano! Acordamos e no quarto já dava para ouvir o barulho do vento, abrindo a cortina víamos flocos de neve ensandecidos e girando de um lado para outro, os galhos das árvores balançava forte numa dança sem ritmo definido e tudo mostrava que a jornada poderia ser curta mas também a pior em dias.

Arrumar as coisas a essa altura é algo simples e rápido, cada um já sabe o que colocar em cada alforje e o que no começo levava meia hora hoje leva menos de 10 minutos. Comer o café da manhã é sempre bom e um tanto curioso, a essa altura ainda me impressiono com a capacidade do Ben em comer English Breakfast na manhã enquanto eu fico no chá com torradas e cereais. Se eu comesse salsichas, ovos e bacon frito com tomate, cogumelos e feijão pela manhã meu dia seria com dores estomacais e diversas idas ao banheiro, mas com ele não tem problema algum. Certamente um estômago muito mais resistente!

Começar a pedalar foi apreensivo no começo, os ventos podem ser confusos, e por mais que tenham uma direção dominante eles se rebelam e acabam mudando de direção. No começo vinha do lado e para variar a luta era para que a bike ficasse num canto seguro da estrada, que não tinham muito movimento de carros, o que ajudou já que assim poderíamos ficar mais no meio da pista. O vento contra o rosto tornava a experiência dolorosa, e olhar o caminho ficava quase impossível. Era um tanto assustador ver as placas de trânsito e dos vilarejos cobertas por neve, todas congeladas; os gramados brancos e as ovelhas todas juntas tentando se aquecer o quanto podiam. As aves no céu lutavam contra o vento e pareciam perder a cada investida, era possível ver elas tentando voar para um lado e o vento as levando para outro. Cheguei a rir da insistência das pobres aves em ir para onde o vento não as deixava sem me dar conta de que eu estava na mesma situação. Mas como que se dando por vencido o vento que me segurava passa a me empurrar e percebo que depois de tantas curvas a estrada me colocou no sentido certo. Parei de pedalar e curti o empurrão, as pernas começar a tremer de frio e me dei conta que precisava manter as pernas movendo para me manter aquecida.

Ver a placa Welcome to John O´Groats!, me fez sorrir, a felicidade de ser bem vinda pelo lugar que almejo chegar há 21 dias é uma recompensa não só por todo esforço, dedicação e investimento nessa expedição mas sim uma recompensa por todo o último ano de treino e estudo, por toda a nossa mudança de vida para estar mais e mais aptos para o 360 Extremes. E passando por aquela placa, pensando em tudo isso sigo pedalando atrás do Ben e sei que ainda não acabamos, aquela placa é um sinal de estamos completando mas o Final é no marco e não na placa. Seguimos em frente, paramos em um Pub para saber onde exatamente estava o marco e olhando para fora da janela deles pude ver como o vento e a neve pareciam ganhar força. Menos de 1 km nos separava do nosso pódio, então com um sorriso largo subimos nas nossas bikes, clipamos nossos pés e pedalamos. Olhando em frente ansiosos em avistar algo parecido com o que deixamos em Land´s End. Não vou mentir falar que ver algo simplesmente pintado no muro foi um tanto decepcionante, mas mesmo assim descemos das bikes pulando de alegria. Aquele era o nosso momento, emocionados nos abraçamos, rimos, gritamos. Comemoramos do nosso jeito, e o frio estava ali a toda a nossa volta, se mostrando o parceiro inseparável dessa aventura. Eu bem que queria ter uma garrafa de champagne na hora para imitar os corredores da F1. Mas o jeito foi tirar a foto com o rosto gelado e banhados pelas gotas da chuva.

Entramos na lojinha e compramos uma caneca para simbolizar o nosso troféu.

Mas depois de todo esse sentimento de vitória tivemos que subir de novo nas bikes e voltar para o pub para pedir um táxi. Pedalar de volta aqueles 600m finais, subindo na bicicleta eu já realizei que isso seria muito, mais muito difícil mesmo, só não percebi que seria doloroso. O vento incrivelmente forte me jogava para trás e parecia uma parede que não me permitia sair do lugar, mais uma vez senti tapas do vento contra meu rosto e olhar para frente era impossível. As gotas acertavam meus olhos por cima dos óculos e me obrigava a fechá-los. Pedalei com força, tentando me guiar pelo asfalto da rua o quanto pude, olhando para baixo. Avistei o pub e o Ben pedalando em frente, o vento me batia com força e parecia não me querer de volta aquele lugar que me parecia quente, protegido e seguro. Uma hora desci e empurrei a bike. Chorei aqui, chorei de dor, meus olhos doíam por causa do vento e da neve. Subi na calçada do pub e o Ben veio me ajudar. Entrei no pub e lá ele me abraçou e me confortou. Quanto frio, quanta força um simples sopro pode ter.

Essa expedição acabou, depois fomos para Orkney Island ver as paisagens, continuar na companhia dos ventos mas com menos oportunidades de pedalar. A jornada em busca de experiência e preparo físico e mental para a grande expedição continua e esse ano com ainda mais aventuras, treinos e aprendizado.

 

The end is in sight. Almost

The end is in sight. Almost

Ao acordar de manhã passo a me sentir um pouco mais matemática do que comunicóloga, tudo isso porque inconscientemente me pego fazendo contas de quanto percorremos e de quanto ainda falta, e nessa manhã a resposta da equação me fez sorrir mas também me fez pesar. 100km para o nosso objetivo ser alcançado, tão pouco para que toda essa rotina de desafios e aprendizado se encerre, nessa pequena equação vejo mais que números, porque nesses 1400km percorridos vivi cada metro, suei cada subida, superei cada vento, me aqueci a cada mudança de tempo e cresci como pessoa, como ciclista, como cidadã. Tantas pessoas nos receberam com tantas histórias, conselhos e uma mão estendida para qualquer duvida ou problema. Curiosos pelo caminho nos chamavam de loucos e perguntavam sempre no porque de encararmos a LEJOG nessa época do ano. Os únicos a fazer isso agora, os únicos vistos por aqueles que nos acolheram, por aqueles que nos atenderam nos cafés e lojas de conveniências. O motivo talvez seja mais claro hoje do que quando saímos, é simples: aprender a lidar com todas as surpresas que as mudanças climáticas podem nos pregar. Acredito que isso conseguimos: lidamos com ventos de todos os lados, chuva forte, granizo, neve, icy, tudo isso junto, o dia de ameno e sem ventos se transformar em questão de segundos numa tempestade… Tivemos dias longos, semana inteira sem descanso, melhoramos nosso ritmo, melhoramos nossa potência, criamos uma sinergia e uma rotina nossa. E chega a todas essas conclusões de manhã, ao fazer a simples equação de quanto foi e o que falta, me entristece um pouco, porque parece que estou mais perto de parar de aprender, de parar de melhorar, de parar de conhecer.

The route to Keiss

The route to Keiss

Puxo meu pensamento para o fato de que hoje o dia não será fácil, a rota é montanhosa e promete uma subida interminável logo nos primeiros 20km, o clima dá pra ver que não está o mais amigo e se no dia anterior já não havia opções de parada, nesse então teria menos ainda. Pelo menos sair do Inn era algo um tanto motivador, o lugar era péssimo e eu não via a hora de chegar na próxima parada.

A ideia inicial era pararmos em Wick, mas resolvemos percorrer a maior distância possível porque o clima ia piorar ainda mais no dia seguinte. Sair de Brora foi bem tranquilo, a montanha lá no fundo com uma subida constante, longa mas não muito profunda. Agradeci o hotel ficar há uma distância razoável da subida porque consegui aquecer antes. O nosso ritmo estava tranquilo sem muita pressa. Essa seria uma subida bem longa de mais ou menos 15km, superado isso descemos uma ladeira de graduação 13% por uns 3km e no fim um curva fechada e uma subida nada amiga de 13% por mais 3km. Mais uma vez me vi pensando “porque não construíram uma ponte ali!”. Eu parei parar tirar fotos logo na curva e fazer vídeos do Ben, o problema depois foi subir na bike e encarar a subida, a estrada pra variar não tinha acostamento e era mão dupla, e com os ônibus passando ficava um tanto inseguro subir e começar a pedalar. Empurrei a bike até depois da curva e dali pedalei. Paramos no topo, depois de comemos umas barrinhas, tomamos água e combinamos de parar no primeiro serviço para tomar algo quente. Mas quanto mais norte estamos mais difícil fica de encontrar paradas. Passamos por diversos vilarejos, em Helmsdale acreditei que acharíamos algo por parecer um lugar maior que os outros, mas nada tudo fechado, entramos em Lybster e a cidade era super pequena e parecia um tanto abandonada, quase ninguém na rua os café e restaurantes fechados mas por sorte um mercadinho estava aberto e lá comemos e bebemos café. Dali em diante o desafio foi o frio mas sem muitas subidas significativas.

Looking over Berriedale, just north of Helmsdale; pausing for a break up the hill

Looking over Berriedale, just north of Helmsdale; pausing for a break up the hill

Um pouco antes de Wick o vento ficou mais intenso e vindo pela lateral, dava pra ver as ovelhas todas amontoadas tentando se aquecer e se proteger, mas nós não tínhamos muita opção além de pedalar. Chegando em Wick a cidade era bem maior, um mercado logo na entrada e não resistimos de parar para comprar algo para comer. O triste dessa parte é que na hora de continuarmos o Ben deixou o óculos cair sem perceber, parou uns 5 metros depois sentindo falta mas deu pra ouvir o som do carro atropelando e destruindo o seu óculos. Ele ficou bem chateado, mas pelo menos isso aconteceu agora e não há 17 dias atrás.

Seguimos até Keiss onde ficamos num Inn. O dia seguinte seria curto, mas olhando a previsão na internet não era nada animador, era certo que no dia seguinte encararíamos as piores condições da viagem!

 

Map of Edinburgh

Map of Edinburgh

Acordar de manhã com a certeza que não vamos pedalar é bem estranho a essa altura. Mesmo sem despertador você acaba acordando cedo e com aquele ânimo agitado de que a estrada lá fora nos espera. Depois de tantos dias de estrada, pedais longos, cidades, pessoas, fotos, chuva, vento, neve, sol e tudo mais, seu corpo e sua mente mudam um pouco de funcionamento. Parece que você muda a voltagem e de 110V você vira 220V, então você fica super agitado no começo do dia e já acordamos morrendo de fome e mesmo sem pedalar nosso corpo parece pedir algo a cada uma hora e lidar com tudo essa energia extra e esse pedido por mais energia é algo complicado. Até que ponto a fome é fome ou é seu corpo querendo garantir carboidratos para uma jornada de pedal que na realidade não vai existir no dia. O melhor jeito é se ocupar. E estávamos com os hosts certo para isso.

The Witchery

The Witchery

Ao descermos para tomar café da manhã Charlie estava na sala com a mesa posta, Melanie já havia saído para trabalhar, sentamos a mesa, tomamos chá, comemos torradas com manteiga e geleia e conversamos. Conversamos bastante mesmo, Charlie é ator e tinha diversos causos para contar, o que ele conseguia fazer muito bem dando uma certa graça a tudo. Rimos muito e trocamos ideias e opiniões sobre trabalho e aventura. Ele acha todo esse projeto inspirador, e encontrar alguém que entende o porquê do 360 sem termos que explicar é um tanto incomum e motivador. Ele e Melanie passaram um ano em Nova Zelândia, onde 4 meses foram dedicados a uma expedição de bicicleta pelo país. As histórias contadas por ele reunidas as nossas até agora sinceramente daria uma ótima comédia. E me fez ver cenários de toda a expedição oficial que antes eu não poderia imaginar. Charlie disse que fez sua rota confiando em mapas e as vezes no mapa marcava uma cidade que na verdade nem existia mais. As pessoas não moravam mais na região, que estradas que era ditas como boas na verdade era péssimas e as vezes sem asfalto, estrutura e nada do que ele esperava. Tudo bem que hoje temos ainda mais opções de checar do que ele teve há 6 anos atrás.

Depois de papear por horas, começamos a nos arrumar para ser um pouco turista. Antes de sair Charlie pediu uma ajuda com as galinhas que ele e Melanie tem como bichos de estimação no quintal mas que insistem fugir para casa do vizinho. Foi engraçado vê-los tentando dar um jeito naquelas aves desengonçadas e teimosas. Problema resolvido fomos para o centro de Edimburgo, andamos pela cidade, tomamos um café e fomos a atração que mais nos recomendaram: Mary King Close. Eu realmente não recomendo a ninguém, achei caro e um tanto chato. A história é um tanto interessante afinal essa é a rua mais antiga e intocada de Edimburgo e imaginar como as pessoas moravam em 1600 é algo interessante mas andando pela cidade você consegue ver esses closes em todos os lugares e uma boa pesquisa no wikipedia te daria acesso as histórias.

Depois encontramos com Paulo, papeamos um pouco, deixamos com ele o saco de dormir para ele levar para Londres e fomos de volta para nossa casa da noite. Lá fomos recebidos por Charlie com batatas, vegetais, haggins veggie e cerveja – Melanie infelizmente teve uma crise de enxaqueca e não pode nos acompanhar. Mais conversas e mais conversas. Uma noite mais que agradável e mais um casal que queremos manter contato.

Arriving in Edinburgh

Pedalar 50km em um dia soava como um dia de folga, os primeiros 30km seriam de uma subida leve e constante então nenhum problema aparente. A noite anterior na casa de Strachan e Alex foi bem agitada. Conversamos bastante e acabamos indo dormir um tanto tarde. O plano era ir a Edinburgh pela estrada A7, e Strachan recomendou que trocássemos a estrada ou que começássemos o pedal mais tarde que o normal, depois das 9h. Por isso, acertamos o despertador para às 8am, mas não conseguimos acordar. O despertador tocou e apertávamos o snooze, até às 9am. Logo no primeiro quilômetro uma subida bem profunda, o que foi bom para forçar os pulmões. Daí em diante não foi ficando mais fácil não. Apesar de nada de neve estava bem frio. E existia a possibilidade de pegar black ice, o cuidado agora era redobrado. A estrada mão dupla e sem acostamento nos obrigava a dividir as faixas com os caminhões, carros e tratores que queriam passar, ainda bem que o trânsito estava ameno.

As paisagens com grandes montanhas de pico nevado ao fundo eram lindas demais e distraía bastante durante as subidas, em compensação os fortes ventos que pegamos contra nos fazia pedalar com força e mesmo assim não sair do lugar. O pior quanto aos ventos é que além da energia que perdemos para fazer alguns metros é que ainda temos que controlar a direção da bike, porque de repente além do vento que vem contra surgem rajadas laterais que te jogam de um lado para o outro da pista.

Outra coisa que percebi nesse dia inteiro na Escócia é que você pode passar dezenas de quilômetros sem encontrar uma opção de parada para comer, ir ao banheiro ou simplesmente descansar. Dessa vez encontramos um posto com conveniência a 10 km de Edimburgo, eu cheguei a comemorar ao ver o logo a distância. No frio que anda fazendo tomar algo quente é mais que necessário para manter a motivação.

Leaving Galashiels

Depois da parada, foi praticamente um descida até chegarmos em Musselburgh, onde fomos recebidos pela Melanie e pelo Charlie e seu Greyhound Millhouse. Tomamos um chá e lavamos as bikes que estavam mais sujas do que antes de Lancaster. Ela é bem atenciosa e papeamos um bocado sobre viagens e pedaladas. Depois tivemos que ir ao centro da cidade encontrar o Paulo e saber mais sobre como andava seu joelho e a visita ao médico. Felizmente o prognóstico foi bom porque ele não tem nenhuma lesão permanente somente uma inflamação no menisco que com descanso e remédios deve ficar melhor em 10 dias. Triste pensar em não tê-lo nos acompanhando mas bom saber que tipo de cuidados e trabalho de fisioterapia teremos ao voltar para São Paulo.

Faltam 5 dias de pedal intenso para completarmos nossa jornada, espero que daqui para frente tudo dê certo apesar dos desafios aumentarem a cada metro percorrido. Pensar que ainda teremos um dia de descanso no dia seguinte ajuda e muito!!!

Arriving in Scotland - the first time for Natalia

Arriving in Scotland – the first time for Natalia

Que o dia seria longo a gente já sabia mas que seria difícil deu para notar só de olhar pela janela do hotel, nevava lá fora e isso seria um desafio totalmente novo para nós. Nenhum de nós nunca havia pedalados nessas condições e o que cada um sabia era o que tínhamos lido em blogs e matérias. Cada um arrumando seus alforjes, e como estávamos em quartos separados não dava muito para saber como foi a noite do Paulo. Às 7h30 ele bate em nossa porta e a certeza era que estávamos atrasados para o café da manhã. Mas infelizmente o motivo era outro, ele teve uma noite péssima com dores no joelho e estava um tanto receoso em enfrentar outro dia longo. O grande problema com dores no joelho e articulações é que não dá pra você se autodiagnosticar, e às vezes é algo simples e outras algo super grave. O que menos queremos esse ano é uma lesão que impossibilite todo o treino que planejamos para 2013, então ele ir a um médico nos pareceu o mais sensato.

Fomos com ele até a estação de trem e combinamos de nos encontrar em Edimburgh, ele teria quase 4 dias de descanso e dependendo do que o médico dissesse poderia continuar o resto da jornada conosco.

Começar a pedalar em 2 foi um tanto estranho no começo. Porque depois de tantos dias consecutivos você cria uma dinâmica e um ritmo, agora que somos dois os primeiros quilômetros foi de adaptação de ritmo e cadência. A cada metro esse dia parecia não melhorar, logo nos primeiros 10km eu percebi que a minha constante preocupação quanto ao peso que o Ben carregava na bike dele me fez colocar muito mais peso na minha, minha bicicleta parecia ter dobrado de peso de um dia para o outro. As subidas que normalmente faço sem problemas pareciam bem mais difíceis com tanto peso. Mas fui administrando as marchas e conseguindo transpassar os aclives no caminho. A neve batendo na cara é algo delicado, e até gostoso, bem diferente do granizo e da chuva. Tivemos momentos com bastante vento mas nada demais. Toda a paisagem do dia foi pintada de branco e dava um ar dramático a todo o pedal. Tudo parecia claro, belo e triste.

Por mais que o dia fosse longo e meu ritmo mais lento por conta do peso, não resistimos as paradas para fotos ou simplesmente olhar a volta.

A rota era bem montanhosa e com 3 picos principais, o primeiro uma subida longa e constante de +/- 8km, que superamos com facilidade graças a distração da beleza do dia, as duas subidas seguintes eram mais curtas, mais íngremes e com muito vento. Ainda bem que a vista de Selkirk de lá de cima era muito linda e nos fez pensar que valeu a pena o esforço. Dali em diante uma descida profunda e o resto mais ou menos plano.

O que percebi nesse primeiro dia na Escócia é que o tipo de asfalto escocês é mais áspero e te obriga a pedalar inclusive nas descidas, não existem muitos cafés, postos de gasolinas e lugares para breaks, hoje só achamos um lugar em Hawyk a mais ou menos 10km de Galashiels.

Não sei explicar o que me fez mais feliz ao chegar na casa dos nossos warmshowers anfitriões Strachan e Alex, se foi não ter que subir a rua que começa logo depois do prédio deles ou o fato deles morarem num apartamento no térreo e não tive que subir escadas essa noite.

Eles nos receberão super bem, cheio graça e com muitas histórias. Uma noite divertida e de muito bate-papo.

On top of Shap

Deixar Lancaster depois de 2 dias de descanso e diversão já não era fácil, e pensar que o trajeto até Carlisle inicialmente duraria dois dias não ajudava em nada. Tudo bem que o Ben repensou na rota para que fosse possível fazermos na metade do tempo, antes a ideia era passar pelo Lake District passando a noite em Windermere e no segundo dia ir para Carlisle. O Lake District é recheado de subidas mas também de belezas, e passar por lá seria trabalhoso mas compensador, por outro lado o joelho do Paulo merecia um dia a mais de descanso e o Ben merecia um dia a mais com a família e amigos depois de mais de 3 anos se vê-los. A rota seria longa, mais de 100 km de um sobe e desce interminável, o tempo também não estava de muitos amigos: frio, promessa de chuva e bastante vento.

Lancaster - Carlisle - mapSair de Lancaster foi fácil sem muito trânsito e a estrada não estava muito movimentada. Eu ansiava em ver a tão comentada Shap Mountain que pude ouvir o Ben e Franklyn conversarem em uma das noites, parecia que esse seria nosso maior desafio do dia, uma subida longa e um tanto íngreme. E quanto mais perto de Kendall a gente estava pior o tempo ficava. Os ventos inconstantes e rebeldes (de todos os lados) começaram uns quilômetros antes do pé da montanha, quanto mais subíamos pior ficavam. A subida era de +/- 10km e no começo me surpreendeu por ser até bem fácil, sim longa mas pra variar as subidas exigiam muito mais um trabalho mental que corporal. Tenho sempre a sensação que o que me falta é paciência e não força ou resistência. Durante a subida tive a impressão de perceber que o Paulo ainda não estava no seu ritmo normal, mas a essa altura acreditei que seria só um cuidado maior com as articulações.

Os últimos 3 quilômetros ficaram mais íngremes e além de paciência exigia também das pernas. Os ventos aumentavam e muito a dificuldade e por ficarem mudando de direção tínhamos que cuidar para ficarmos no canto esquerdo da pista sem atrapalhar os carros que subiam sem a menor dificuldade. Como um prêmio ou agradecimento, a natureza nos mandou um forte sopro nas costas que praticamente nos colocou no cume da montanha, e nos ajudando no último quilômetro. Lá em cima, filmando e torcendo estava o Ben, na expectativa pela chegada minha e do Paulo.

Eu comemorei, porque se aquilo que todos falavam que seria um desafio não me pareceu a pior coisa do mundo era mais um momento de conquista. Ali, mais uma vez reparei como o meu condicionamento e preparo físico estão em dia. Comemorei, parei, bebi minha água, comi meu block ( cubos de energia) e segui viagem. Ali em cima ficar parado com o vento gelado era ainda pior do que qualquer subida.

Com o pensamento aliviado, e pensando que o pior do dia já havia passado me vejo lutando contra o frio e o vento, as nuvens negras se espalhando pelo céu e a chuva prometida parecia que poderia começar a qualquer instante. Mas a chuva não era só chuva, era granizo, bem pequeno mas massacrador. A sensação daquelas pequenas pedrinhas jogadas na minha face pelo vento forte era de pequenos pedaços de vidro me cortando. O rosto ficava quente o que aumentava a sensação de estar com a pele sangrando. Os óculos protegiam os olhos mas uma hora ou outra algumas pedrinhas acertavam o vão entre o meu rosto e a armação e me obrigava a piscar para voltar a ver melhor. Alguns minutos a frente pude ver o Ben e o Paulo parando e se protegendo atrás de uma casa e isso me deixou bem aliviada. Ao parar com eles e checar se estavam todos bem, reparo que estamos um olhando bem para o rosto do outro buscando as mesmas marcas que tínhamos a sensação de estar nascendo. Mas nenhum corte, ou sangue ou machucado. A pele vermelha, judiada pelo vento e pelo frio parecia ser grossa demais para o granizo cortar. Alguns minutos depois reiniciamos o pedal, não porque a chuva havia parado mas porque não fazia sentido ficarmos ali esperando algo passar sendo que nem sabíamos quanto tempo poderia durar. O jeito foi tentar cobrir o máximo do rosto com o balaclava e torcer para que aquilo acabasse logo.

E uma hora acabou, não sei dizer ao certo quanto tempo ou distância porque foi algo bem difícil de se viver e nesses momentos é complicado reparar o quanto durou.

Weather closing inCom o vento ainda presente mas bem mais ameno seguimos viagem. A meta como sempre era chegar antes de escurecer, mas hoje estava sendo um dia desafiador e já comecei a imaginar que não conseguiríamos estar no hotel cedo. Tentamos manter um ritmo mais apertado e parando só o necessário para comer, ir ao banheiro e tomar um café quente que com esse tempo se faz mais que necessário às vezes.

O sobe e desce continuou mas nada que não pudéssemos administrar. Chegamos no hotel umas 18h30, o que nos fez pedalar apenas uma hora durante a noite. Pedalei a última hora desejando uma coisa simples mas revitalizadora: banheira com sais e água quente.

Ao chegar no quarto do hotel e ver que meu pedido foi atendido foi um presente tão bom quanto o vento no fim da Shap. Agora era hora de relaxar, 35 minutos com os músculos mergulhados numa água quente e relaxante que fez todos os músculos esquecerem do frio, da força e de como o dia seguinte prometia ser ainda mais difícil.

 

Map - Timsbury - Worcester

O quinto dia de pedal foi longo. E o tempo não quis ajudar tanto dessa vez: chuva e vento. A rota até Wocesteralém de longa era recheada de subidas e descidas no começo e a estrada em alguns momentos me dava dúvida se ciclistas podiam ou não andar por ela.

Dias longos assim normalmente não permitem muito aproveitar e parar. Mas os vilarejo que cruzamos me faziam pensar em como um lugar tranquilo deve ser bom de se viver. Passamos por tantas casas e seu largos jardins que me fizeram imaginar como seria bom morar por ali. Ter um ou dois cachorros, andar de bike para todos os lugares e poder curtir mais a natureza e tudo mais que um pouco de calmaria poderia oferecer.

Sempre nas minhas viagens pareço apreciar e ver mais e mais como a natureza é perfeita. E aqui fico ainda mais encantada. Como pode cidade após cidade, independentemente do tamanho ter tanta variedade de pássaros. São tantos cantos, tantas cores e tantos tamanhos. Pela Inglaterra é possível ver diversas aves com o alcance do seu olhar. Fiquei triste a cada ave morta que vi nas estradas, e não só por elas mas também pelos coelhos e raposas. Me pareceu injusto com esses animais a forma como os carros passam por cima deles sem se arrepender e sem às vezes dar uma chance de fuga.

Numa hora me choquei ao ver pelo menos 5 aves no meio da estrada mortas em menos de 5km. Sinceramente me pareceu meio burro todas ali, um corpo seguido do outro. E me perguntava como pode todas elas morrerem tão perto. Depois fui saber que a tal ave era um phesants e que vários fazendeiros criam para soltá-las essa época do ano para as pessoas caçarem – um negócio bem lucrativo por aqui -, o que me fez ainda mais triste. Eu achei as cores dela tão viva e um pássaro tão bonito e mata-o assim me pareceu um tanto cruel.

Mas o que manda sempre é o dinheiro quem sou eu para julgar alguma coisa.

Os quilômetros passaram. As paisagens mudaram, e todos esses pensamentos sobre os bichos foram passando. Um mantra que fico repetindo durante o caminho com o forma de agradecer o tempo um tanto generoso que temos tido nesse inverno é “ Nature you are the best of all”, e assim me distraio.

Stats - Timsbury - Worcester

O dia passa de forma rápida e mais uma vez o que parece não passar são os últimos 15 km. Acho que a essa altura estou ansiosa demais por um banho, por um chá e por algo quente para se comer que devo olhar no odômetro de 5 em 5 segundos. Ao chegar no centro da cidade a ansiedade é substituída pela atenção, também com tanta rotatória e carro não dá pra ficar muito de olho no quanto falta. Os últimos km foram no total breu, então meu olhar ia se adaptando com as luzes dos carros.

Finalmente chegamos a casa de Caryl e Lyndoll, que nos receberam com um vinho aberto, e a janta posta (cordeiro assada com batatas, ervilhas e cenouras). Papeamos muito, afinal eles eram dois ciclistas cheios de histórias para contar. O Paulo teve um motivo a mais para comemorar as suas sapatilhas finalmente chegaram e agora ele poderia pedalar clipado. Por falar em clipe esse foi um dia que eu consegui pedalar tudo com o pé preso, tive uma queda no início, mas com o tempo melhorei.

 

 

Hora de ir - rumo a Taunton

Já que a ideia era ficar em um B&B dessa vez então resolvemos economizar os quilômetros, a princípio o Ben tinha planejado um pedal de 80 e deixar o próximo dia bem curto mesmo, mas como não teremos mais um dia de descanso achamos melhor ter dois dias relaxados. A parada escolhida para depois de Exeter foi Taunton, um pedal de 53km. A rota até lá foi pelas estradas pequenas e recheadas de lindas paisagens Passamos por vários campos verdes, fazendas com criação de ovelhas, vacas e cavalos. O tempo não estava ruim, choveu um pouco mas a maior parte do tempo o céu estava azul então deu para parar bastante para tirar fotos, tomar cafés e aproveitar bem mesmo. Mesmo indo num ritmo de passeio chegamos em Taunton antes das 15h. Lá comemos em um pub, acho que até comemos demais, voltamos para o quarto e assistimos uma séria da BBC com locução que fez o Ben dormir – detalhe a voz era de David Attenborough uma lenda viva britânica

Eu ainda dei uma organizada nas coisas e mais tarde os meninos ficaram com fome e o jeito foi comer um fast food.

Antes das 20h estávamos dormindo e relaxando para o pedal do dia seguinte.

Acordamos às 6h30 e arrumamos as coisas, às 7h30 era servido o café da manhã e não queríamos demorar muito. Às 08h15 estávamos pedalando sentido Timsbury, apenas 65km. Fomos no mesmo ritmo do dia anterior, a diferença de km era pequena e essa rota também prometia ter poucas subidas e teve. Na verdade só uma subida de mais ou menos 4 km e com 11% de gradiente. Nada fácil mas fizemos super bem. Para mim as descidas sempre são mais problemáticas e aqui a rua era sinuosa, bem estreita e de mão dupla por isso redobrei o cuidado. Depois daqui algumas subidas leves até a casa do Jon e da Allyson em Timsbury nossos anfitriões do couchsurfing. Eles nos receberão super bem e de janta comemos cuscuz marroquino com azeitonas, queijo feta temperado e vegetais ao forno. HUMMMM!!! Comida vegetariana de qualidade eu diria. Papeamos um pouco, arrumamos as coisas e capotamos. O quinto dia já não seria tão fácil quanto esses dois.

On the start line... 1,500km to go..!

On the start line… 1,500km to go..!

O dias até agora não tem sido dos mais fáceis.

Como eu disse no post anterior as bagagens do Paulo se perderam no meio da conexão e para reencontrá-las tivemos que fazer diversas ligações, ele teve que ir ao Aeroporto mais de uma vez e isso tudo levou mais de um dia para se resolver. A família do Ben já estava oferecendo todas as bikes e roupas que ele poderia precisar. Mesmo assim não seria nada confortável fazer uma viagem dessas com coisas emprestadas e com as suas sumidas. Eu não podia remarcar a minha ida a Penzance, então eu e o Ben viemos ontem. O Paulo conseguiu recuperar as suas malas e veio para cá no trem das 7pm.

The beginning of the journey

The beginning of the journey

A falta de sorte não parou por aí. Ao chegarmos aqui em Penzance a ideia era montar as bikes e seguir rumo ao hostel pedalando – a distância de Penzance a Lands End é de mais ou menos 17km. Mas a bicicleta do Ben deve ter colidido no avião ou veio com algo pesado em cima, porque o câmbio está amassado e a princípio pegava nos raios da roda. A minha tem problemas no freio. Acredito que a mudança de temperatura deu uma desregulada geral. Demos uma mexida e conseguimos arrumar um pouco mas não 100%.

Se o trem não tivesse atrasado poderíamos ter resolvido tudo ontem mesmo. Mas chegamos aqui já era escuro e a Bike shop estava fechada. O trem do Paulo também atrasou invés de chegar aqui a meia-noite ele chegou quase 3am.

Tudo isso nos fez chegar no consenso de atrasarmos o planejamento e começarmos o pedal amanhã.

Como tudo que é planejado direitinho. Esse dia parado aqui não programado nos leva a um efeito domino porque perderemos o dia de descanso em Bristol e também temos que avisar as casas que iremos ficar que chegaremos atrasados.

Dos males o menor.

Aproveitamos o dia de hoje para filmar e conhecer a região. A cidade é fria mas com lindas paisagens. Tiramos a foto do marco de Lands End e o Ben teve bastante vento e tempo para brincar com seu brinquedo novo: uma pipa. O que nos gerou diversas situações legais a pipa quase me acertando e depois quase “matando” o Paulo. Só ouvi os gritos do Bem para ele correr da pipa desgovernada que fazia piruetas e rajava em alta velocidade pelo ar. Uma pena porque com isso as cordas se enrolaram toda e tivemos que acabar com a brincadeira. A fome apertou e foi hora de procurarmos um lugar para comer. Acontece que a cidade é pequena e tem poucas opções para comer e nessa época do ano ainda nada abre. Uma caminhada longa até o pub mas com lindas vistas do alto para a enseada. Que por mais frio que fosse tinha alguns surfistas investindo nas poucas ondas no mar. Comemos e até experimentamos a cerveja local, recomendo muito a Cornish Tribute.

Depois foi reorganizar as malas e papear muito regados a chá.

Que meu próximo post seja recheado de aventuras nas estradas inglesas.

2 dias, 200km – Parte 2

Posted: December 28, 2012 by Natália Almeida in Cycling, Logistics, Photography, Português
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morungaba-bambuzal

A saída de Atibaia não foi fácil, antes de qualquer coisa tivemos que arrumar os problemas com com a bike do Ben, amarra daqui, tira o parafuso do meu bagageiro frontal e coloca no suporte traseiro dele, faz um monte de gambiarra e pronto a bike deve aguentar, re-organizar os alforjes, comer e sair para a estrada que tem 2 km de asfalto e depois um longo trecho de terra até a rodovia que estava em péssima condições e com uma subida longa cheia de crateras e pedras grandes. Acabamos empurrando a bike até o topo porquê com os problemas que já tínhamos tido com as bikes era melhor não ficar arriscando.
Já na rodovia os primeiros 30km foram tranquilos, é muito gostosos pedalar na Dom Pedro, o acostamento é largo e muito bem conservado, os caminhões buzinam o tempo todo nos dando apoio e nos incentivando. Pegamos a saída para Morungaba que é uma subida um tanto íngreme e sem acostamento. Aqui a estrada tem algumas surpresas como um lindo bambuzal que forma como se fosse um túnel. Não tem como não parar para admirar e também não querer aproveitar a sombrinha para um break.

Asphalt road into earth track...

Asphalt road into earth track…


Daqui pra frente o acostamento não existe ou quando tem é estreito e esburacado. Eu aconselho aqueles que vão pedalar por aqui a andar bem no limite entre a pista e o que deveria ser acostamento prestando atenção aos barulhos dos carros, se ouvir som de motor velho se arrisque e pedale por um tempo no acostamento. Não entendo qual é o tipo de magnetismo que fuscas, variantes, brasilhas e carros com mais de 15 anos sentem em nos assustar ou em tentar nos derrubar. As kombis mais a frente descobri que conseguem ser mais assustadoras, pelo fato de caber mais gente dentro que tentam nos dar tapinhas gritar bem alto e as vezes até espirrar água. Deve ter algum estudo psicológico sobre essa necessidade de nos ver desequilibrar em cima de nossas frágeis e indefessas bikes. Bambuzal Morungaba
Outra coisa importante nessa estrada é a presença de muitas motos de alta-performance correndo a milhão e desrespeitando toda e qualquer tipo de lei ou prudência. Apesar de olhá-los com certo medo os motociclistas tomam cuidado aos nos ultrapassar. E justamente por serem numerosos não têm como passar desapercebido um bar voltado para eles no centro de Morungaba o que nos pareceu uma ótima opção de parada. Tomamos gatorade, comemos um pedaco de bolo, nos reabastecemos de água e saímos de novo para pedalar.
O calor insuportável, e para melhor daqui pra frente as sombras eram raridades e doces surpresas numa estrada recheada de súbidas longas e poucas descidas.
Amparo é um vale, mas para descermos até ela temos que subir, subir e subir.
As subidas são longas e constantes o que as deixam mais fáceis o grande problema foi o calor ( sensação térmica de 44ºC) e a falta de sombras e opções de paradas.
Reclamei e muito e parei diversas vezes para me refrescar e molhar a cabeça.
Chegamos ao centro de Amparo, mas perdemos o último ônibus para São Paulo, liguei para meu tio que mora lá fomos a casa dele que nos esperava com carne na churrasqueira e uma latinha de cerveja bem gelada. Nos refrescamos e papeamos muito por lá. Depois o jeito foi pegarmos um ônibus para Campinas e de lá outro para São Paulo.
Chegamos em casa queimados e cansados, mas contente com o resultado do final-de-semana.
Aqui o link Garmim:
http://connect.garmin.com/course/2576891#.UNsbmHI_xyY.email

Eu escrevi sobre o Camino a los Yungas quando ainda estava na Bolívia e de lá mesmo consegui mandar o trecho do meu pequeno acidente… Agora conseguimos fazer um vídeos mostrando mais essa rota cheia de perigos e belezas. O segredo para terminar o caminho sem machucados é ser prudente o tempo todo e não confiar demais em si. No nosso grupo de 7 pessoas tivemos 3 quedas, nada muito grave: eu cortei minha boca e tive arranhões e roxos por todo o corpo; o Ben caiu de leve mas ficou com a barriga dolorida e um americano que nos acompanhava queimou e perdeu boa parte da pele de um dos braços ao cair e arrastar o corpo por sobre as pedras. É uma experiência super válida e um lugar cheio de surpresas…

Adaptação é como defino esses últimos tempos.

Os dias de agora são corridos, tenho que administrar uma rotina que inclua treinos, alimentação saudável e 16 horas de trabalho por dia. Essa maratona diária não me dá folgas nem aos finais de semana que são ocupados um dia com trabalho e outro com pedaladas longas de mais de 100km. E apesar de serem rotas já conhecidas ganham desafios novos como alforjes a cada viagem mais pesados e sapatilhas de clipe.

Tanto um quanto o outro eu estou em fase de adaptação, arrumar os alforjes não é tão simples e tentar equilibrar o peso dos dois lados tem se mostrado uma arte, já os pedais são um teste de sobrevivência e posso dizer que quase reprovei logo na primeira prova. E se eu não passasse, talvez não poderia estar escrevendo esse post agora.

Semana passada fomos a Itu, na Estrada de Romeiros sem acostamento e cheia de subidas, o meu primeiro dia oficial com os pedais foi no modo “Hard”. Até que estava indo bem apesar de nas primeiras subidas não confiar tanto de ir com os dois pés presos, com o passar dos km fui ganhando confiança e me atrevendo cada vez mais a testar os limites, até que numa das subidas antes de Pirapora perdi o controle da minha respiração e resolvi parar. Com os dois pés clipados me concentrei para tirar um dos pés e quando consegui pensei em pedalar mais um pouco para tirar o outro, na hora que consegui tirar o segundo pé e fui descer da bike para o lado esquerdo, o meu pé de apoio clipou novamente e caí no meio da estrada, tentei não me desesperar e tentei levantar a bike que ainda presa ao meu pé levantou mas caiu novamente. Imagine, eu caída no meio de uma estrada de duas mãos com uma faixa para cada sentido sem acostamento e com um caminhão vindo em minha direção. Sim fiquei com medo. Sim queria gritar. Mas me desesperar naquele momento era o mesmo que desistir e então vi que minha única saída era chutar a bike com força para o gramado e ir me arrastando para fora da pista. Até que consegui ir mais pro canto mas mesmo assim o caminhão teve que invadir a outra pista para desviar de mim. Depois desse susto levantei, bebi água e encarei a subida novamente.

Quando fiz a última curva vejo o Ben me esperando e ali me bateu um desespero e comecei a chorar imaginando tudo o que poderia ter sido. Ele vendo meu estado volta em minha direção e pergunta o que aconteceu. Ele me acalma e seguimos viagem. A cada subida vejo meu corpo surtar e minha respiração acelerar junto com meu coração. Essas eram as sequelas do trauma anterior. Mesmo sem clipar ou clipando somente um dos pés meu corpo e minha cabeça tremiam de medo a cada lembrança do que havia passado. O tempo todo fui tentando lidar com esse medo e sabia que se desistisse da sapatilha ali seria ainda mais difícil encará-la depois, por isso fui respeitando meu medo e forçando meus limites aos poucos.

Ao chegar em Pirapora encontrei com o caminhão parado e descarregando em uma casa, parei e conversei com o motorista que me disse algo que me fez lhe ser muito agradecida:”Não parei porque ali com curvas e sem acostamento seria muito perigoso e também não buzinei com medo de te assutar, pensei que seria pior”, eu sorri e agradeci dizendo que se tivesse buzinado eu provavelmente teria desistido e o som da sua buzina iria me parecer o som da morte. Ele riu de leve e disse para eu tomar mais cuidado.

E certamente eu tomei muito mais dali em diante. Conseguimos chegar em Itu, mas não no tempo normal. 

Já nesse final de semana os desafios foram os mesmos pés clipados e bikes pesadas mas o destino mudou: Atibaia. Pra contribuir ainda mais para o treino pegamos chuva em quase toda a segunda metade do trajeto, e encarei quase toda a viagem com os pés atados aos pedais. O peso do trauma ainda existia mas bem mais controlado. Encarei subidas e mantive meu ritmo. Fui super bem apesar da minha bicicleta parecer estar na marcha pesada mesmo quando estava na 1/1. Encarei subidas intermináveis e outras que eram bem mais leves do que a minha lembrança guardava, mesmo assim um dia intenso.

No fim da viagem estava me sentindo super feliz e realizada por ter encarado mais de 100km e ainda estar me sentindo disposta, e o melhor, sem problemas com os pedais. Mas nunca se sabe o que pode acontecer porque a viagem só acaba, quando acaba e faltar 3 km não é sinônimo de trajeto cumprido. E foi exatamente faltando isso que a minha corrente travou e tentei evitar o que descobri ser inevitável para quem tem pés clipados e está numa subida: a queda.

Caí mas dessa vez escolhi o lado certo mas com a queda minha calça rasgou e tive que encarar o resto do pedal com metade da bunda de fora. Ainda bem quer era pouco!

O resultados dessas duas semanas: pés calejados e com unhas escuras, bunda e braços com hematomas, menos uma calça para Inglaterra, uns arranhões na bike, mas mesmo assim o saldo é positivo porque as pernas se mostraram capazes de carregar mais do que eu imaginava, estou mais confiante em relação as sapatilhas com clipe, sem falar que meu auto-controle está melhorando e assim consigo resolver melhor os problemas.

A cada dia que passa mais perto estamos de sair de São Paulo rumo a Grã Bretanha e essa viagem vem cheia de expectativas e pressões. Enfrentar o inverno britânico em cima de uma bicicleta não será nada fácil, a mudança constante do tempo sempre foi algo famoso na na Escócia e o que mais me preocupa são os ventos e o terreno com icy. Mas essa preocupação é pequena em comparação a ansiedade que tenho para cair numa viagem de descobertas, a cada dia algo novo, um desafio, uma surpresa. A cada dia pedalar numa estrada prestando atenção a sua volta, aos ambientes e paisagens, aos terrenos e árvores, ao céu e ao horizonte. O verde inglês certamente estará presente com suas relvas e gramados, as montanhas e morros escocês vão modificar a paisagem a cada metro e o frio espero que seja um parceiro acolhedor de nossos dias.

As descobertas de um lugar, de uma cultura, de um país começam muito antes de se fazer a viagem efetivamente, começa nas pesquisas por rotas, por hospedagem, por opções de paradas… As descobertas se fazem por uma busca de imagens, por um texto lido na internet, por vídeos de aventura ou docs sobre o destino. Pelo menos assim começam as minhas, e é delicioso me ver aprendendo e estudando como se fosse semana de prova, estudando minha matéria predileta, conhecendo lugares, animais e objetos que diferentes da época da escola agora são palpáveis. Ler uma história curiosa ou até mesmo fantástica e descobrir que é verdade, é algo indescritível e que fixa em nossas cabeças. Tenho certeza que nesse 1 mês fora, e nesses +20 dias que estaremos em busca de fronteiras mentais, desafiando nosso corpo e convivendo arduamente as descobertas serão muito maior e pessoal do que essas que faço agora, sei também que o se conhecer no dia-a-dia vai nos exigir muita paciência, compreensão, civilidade, companheirismo e respeito. E toda essa cobrança pessoal que cada um carrega que para mim é algo simples e corriqueiro, uma cobrança que todos deviam carregar no dia-a-dia mas que a sociedade de hoje não se cobra mais porque deixamos em pensar em comunidade e pensar num individual a muito tempo e as cobranças pessoais de cada um se transformaram em ambições e competições. Não que esse tipo de postura seja errada, mas nesse tipo de viagem e projeto se adotarmos uma postura dessas ou nos dividimos ou nos matamos no meio do caminho.

Ainda com todas essas expectativas e pensamentos não posso prever as surpresas de cada um, certamente teremos uma visão divergente em certos pontos e a nossa percepção de cada coisa pode sim convergir ou divergir. Hoje o que vejo em cada um de nós é uma sede de conhecer e conseguir, o que vejo são medos diferentes, são  ideias que se somam e um destino: Orkney Island na Escócia. Para mim um ótimo lugar para se terminar por suas belezas, para o Ben um re-encontro com sua infância, já para o Paulo não sei bem dizer e não quero colocar palavras em sua boca.

Mas para você que lê esse post e que seja bem possível nunca ter ouvido falar deixo fotos, porque vale mais a pena mostrar do que falar:

Horto – O Começo desse desafio!

Quando o André Bicicreteiro propôs uma ida a Atibaia passando pela Serra da Cantareira eu fiquei um tanto receosa. Desde pequena subo e desço a serra de carro e a estrada da Roseira não é o lugar mais seguro pra pedalar. Com certeza seria um desafio e tanto subi-la já que de carro já é bem difícil.

Secretamente travei uma batalha interna contra o medo. E com o passar dos dias fui me acostumando com a ideia, mas para a minha surpresa, quando é disponibilizado o trajeto vejo que não passamos pela Roseira mas seguimos pela Estrada da Santa Inês que tem menos movimento de carros mas ainda sim com subidas e descidas constantes esse ainda assim era um desafio.

No sábado saímos cedo de casa e partimos para a Paulista, o encontro foi ali na Praça do Ciclista  às 7am mas saímos de lá um pouco depois das 8am.

Andar em São Paulo pela manhã foi bem fácil e chegamos rápido na Santa Inês. Logo no começo já subimos uma ladeira longa, mas como não era tão íngreme a dificuldade foi menor.

Estrada Sinuosa

Seguimos em frente e encontramos eles mais a frente sentados num gramado papeando e descansando.

A estrada é muito bonita, natureza em todos os lugares e por ser sinuosa fica cheia de surpresas, com paisagens escondidas a cada curva. A estrada do Rio Acima surpreende com o rio ao lado, nesse trecho a dificuldade é o vento contra, mas nada demais eu diria. Mantendo um ritmo bom chegamos no centro de Mairiporã cedo e paramos para almoçar. Aproveitei pra ligar para o meu pai e convidá-lo a se juntar. Ele chegou e foi bom ver que agora posso ir visitá-lo de bike.

Por pedalar de mochila a essa altura meu pescoço doía muito e pedi para a Regina, minha madrasta, passar pelo restaurante e colocar minha coluna no lugar. Nada como ter parente fisioterapeuta e quiroprata.

Todos alimentados e descansados hora de continuar. Daqui seguimos viagem pela estrada das 7 Quedas, e mais uma surpresa agradável. Essa estrada é pequena e um tanto intocável. Linda demais. Me impressiono sempre como pode lugares tão bonitos estarem tão perto e eu nunca ter passado por eles. São lugares e momentos assim que me deixam cheia de expectativa para o próximo pedal.

Para uns almoço, para outros cochilos!

Diferente das estradas pequenas, as grandes rodovias já não nos permitem relaxar e aproveitar a paisagem e na Dom Pedro não foi diferente. Cheia de carros e caminhões, o barulho é constante e ficamos sempre em estado de alerta. Aqui o sol estava se pondo e isso dava uma certa graça a rodovia.

Depois de um dia de sol e de muita pedalada chegamos cansados a Atibaia, mas ao perguntar como chegar a rodoviária vemos que ainda temos mais uma subida só que para piorar de paralelepípedos. Com a bunda doendo o treme-treme dessa parte foi um tanto torturador mas ao descer da bike somos tomados por um sentimento de conquista e de vitória. Felizes e satisfeitos com mais essa ladeira, com mais essas estradas e com mais essa ciclo-viagem.

Quilômetros Finais!

Essa semana seguimos decidindo o que fazer, semana passada fomos novamente para Itu mas essa história fica para o próximo post.

Bom final de semana e vê se pedala ou simplesmente passeia no parque. 

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